Archive for fevereiro 22nd, 2010

pensando a poesia com Affonso Romano de Sant’Anna

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E os poetas escrevem. Como eu, os poetas escrevem.
Torrentes, catadupas de versos
e sinais
sem saber ao certo, onde, como, quem e quando
os poetas escrevem
e entulham as antologias com sua Flor de Romances finados
caindo na vala comum do Cancioneiro Geral
ou nem isso
como índio cantando
a derrocada de sua tribo e sua carne

es asediada, es aborrecida la ciudad de Huexotzinco
con armas fué cercada, com dardos fué punzada Huexotzinco

E assim despejam sobre a história o seu sentido
querendo nela reter-se
E os versos cruzam avenidas e paixões
se inscrevem no telex, banheiro e galpões
retomam com o amor do exílio e caem na marmita operária
e soturnos se mexem
e se agitam nos forros das consciências
como gambás noturnos
– pela morada do ser.

Houve um tempo
em que era fácil fazer poesia:
bastava eleger a forma
e preenchê-la
com mais ou menos habilidades.

Tudo codificado
e empacotado
na acadêmica memória
na audácia vanguardista
nos manifestos-receitas
num mutirão de escola
e assim
o poeta inventa a bossa
a forma
a glosa
moderna e airosa
causando inveja aos demais

Mas ninguém escreve por outro
Cada cabeça uma leitura
cada escrita um estória
cada invenção na sua hora.

– Então poesia é isso?
– Não tem espaço?
e nela o ontem é o hoje e o amanhã já era?

- Então poesia é o não-tempo do verbo?
o futuro do pretérito?
– e o incondicional presente?

- Então é isso a escrita do homem?

Um intervalo entre dois sons?
duas intercomidas fomes?
duas intercaladas falas?
um orgasmo perseguido
entre duas deitadas sombras?

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falsa tempestade…

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Neste exato momento
começa um forte vento
enorme
ele tapa o céu
anuncia a tempestade
me atrai
seu movimento
me encanta
com ele percebo a natureza em dança
feito uma cachoeira em cascata

agora,
voam meus papéis
mesmo em algaravia
mas a mim, ele segue delicado
e o toldo da varanda
com pretensões de asa delta
muda meu plano
olho a luz piscar
salvo um e-mail
e enquanto uma leve brisa
anuncia o falso alarme
fecho o pano
e retorno à luz
que encaminhará minhas palavras
de cá pra lá
a tomar caipirinha

Poema e fotografia de Ivan Bueno

*leiam mais poemas no blog do autor:

http://www.eng-ivanbueno.blogspot.com/

soturno esquálido…

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SOTURNO ESQUÁLIDO

Permanecer, nano. O que é quebra, sigo
ao contrários dos dias lindos.

Fulguro
o cenário.

(Entre os decadentes, velhos de oitenta, tento
navegar no impreciso lastro
da cadência
nas paredes)

E, na cortina, vultam Órus e Anúbis.

Na feira de miudezas
do salão
cheio
de vazios sobre cadeiras neofumês.

E na alvissareira presença,
quando são chegados os
planos dos planetas, roubo
a cena.

Finjo-me com ânsia,
vomito uma gaivota
prenhe de ar.

Poema: Nestor Lampros
Fotografia: Robert Parkeherrison

* visitem os site do autor:
htpp:// caligrafiadoimpossivel.blogspot.com/
www.nestorlampros.com