pensando a poesia com Affonso Romano de Sant’Anna

E os poetas escrevem. Como eu, os poetas escrevem.
Torrentes, catadupas de versos
e sinais
sem saber ao certo, onde, como, quem e quando
os poetas escrevem
e entulham as antologias com sua Flor de Romances finados
caindo na vala comum do Cancioneiro Geral
ou nem isso
como índio cantando
a derrocada de sua tribo e sua carne
es asediada, es aborrecida la ciudad de Huexotzinco
con armas fué cercada, com dardos fué punzada Huexotzinco
E assim despejam sobre a história o seu sentido
querendo nela reter-se
E os versos cruzam avenidas e paixões
se inscrevem no telex, banheiro e galpões
retomam com o amor do exílio e caem na marmita operária
e soturnos se mexem
e se agitam nos forros das consciências
como gambás noturnos
– pela morada do ser.
Houve um tempo
em que era fácil fazer poesia:
bastava eleger a forma
e preenchê-la
com mais ou menos habilidades.
Tudo codificado
e empacotado
na acadêmica memória
na audácia vanguardista
nos manifestos-receitas
num mutirão de escola
e assim
o poeta inventa a bossa
a forma
a glosa
moderna e airosa
causando inveja aos demais
Mas ninguém escreve por outro
Cada cabeça uma leitura
cada escrita um estória
cada invenção na sua hora.
– Então poesia é isso?
– Não tem espaço?
e nela o ontem é o hoje e o amanhã já era?
- Então poesia é o não-tempo do verbo?
o futuro do pretérito?
– e o incondicional presente?
- Então é isso a escrita do homem?
Um intervalo entre dois sons?
duas intercomidas fomes?
duas intercaladas falas?
um orgasmo perseguido
entre duas deitadas sombras?

leiam toda a poesia reflexão
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