bruxos, vampiros e avatares uma crônica de Lya Luft

Bruxos, vampiros e avatares
por Lya Luft
Cibernéticos e virtuais, nadamos num rio de novidades e nos consideramos moderníssimos. Um turbilhão de recursos trazidos pela ciência, pela tecnologia, nos atrai ou confunde. Se somos mais velhos, nos faz crer que jamais pegaremos esse bonde – embora ele seja para todos os que se dispuserem a nele subir, não necessariamente para ser campeões ou heróis.
A tecnologia abre territórios fascinantes, e ameaça nos controlar: se pensarmos um pouco, sentiremos medo. O que mais vem por aí, quanto podemos lidar com essas novidades, sem saber direito quais são as positivas, quanto servem para promover progresso ou para nos exterminar ao toque do botão de algum demente no poder? Exageradamente entregues a esses jogos cada dia inovados, vamos nos perder da nossa natureza real, o instinto? Viramos homens e mulheres pós-modernos, sem saber o que isso significa; somos cibernéticos, somos twitteiros e blogueiros, mas não passamos disso. E, se não formos muito equilibrados, vamos nos transformar em hackers, e o mundo que exploda.
leia toda a crônica aqui
ou na Revista veja, p.18 de 17/2/2010
(http://veja.abril.com.br/)
Sobre a sensação de onipotência que esse mundo novo nos confere, lembro a história deliciosa do aborígine que, contratado para guiar o cientista carregado de instrumentos refinados, lhe disse: “Você e sua gente não são muito espertos, porque precisam de todas essas ferramentas simplesmente para andar no mato e observar os animais”.
Não vamos regredir: a civilização anda segundo seu próprio arbítrio. Mas, como quase todas as coisas, seus produtos criam ambiguidade pelo excesso de aberturas e pelo receio diante do novo, que precisa ser domesticado, para se tornar nosso servo útil. As possibilidades do mundo virtual são quase infinitas. Sua sedução é intensa. Tão enganador quanto fascinante, no que tange à comunicação. Imenso, variado, assustador, rumoroso, ameaçador, e frio, porque impessoal. Nesse mundo difuso somos quase onipotentes, sem maior responsabilidade, pois cada ação nem sempre corresponde a uma consequência – e ainda podemos nos esconder no anonimato. Criam-se sérias questões morais e éticas não resolvidas nesse território: através da mesma ferramenta que nos abre universos e nos comunica com o outro, caluniamos e somos caluniados, ameaçamos e somos ameaçados, nos despersonalizamos, nos entregamos a atividades estranhas, algumas perversas; espiamos, espreitamos, maldizemos amigos e desconhecidos, odiamos celebridades, cortamos a cabeça de quem se destaca porque se torna objeto de inveja e ressentimento, escutamos mensagens sombrias e cumprimos, talvez, ordens sinistras.
Relacionamentos pessoais começam e terminam, bem ou mal, nesse campo virtual – não muito diferente do mundo dito real, dos bares, festas e trabalho, faculdade e escola. Para as crianças, esse universo extenso e invasivo pode ser uma grande escola, um mestre inesgotável, um salão de jogos divertido em que elas imediatamente se sentem à vontade, sem os limites dos adultos. Mas pode ser a estrada dos pedófilos, a alcova dos doentes, ou a passagem sobre o limite do natural e lúdico para o obsessivo e perverso.
Como quase tudo neste mundo nosso, duplo é o gume: comunicar-se é positivo, mas sinais feitos na sombra, sem verdadeiro nome nem rosto, podem acabar em fantasmáticas perseguições e males. Singularmente, mas de maneira muito significativa, enquanto estamos velozes e espertos no computador, criando mundos virtuais, e jogando jogos cada vez mais complexos, buscamos o nevoeiro desse anonimato e, na época das maiores inovações, curtimos voar com bruxos em suas vassouras, namorar vampiros e inventar avatares que vão de engraçados a sinistros.
Estimulante, múltiplo, tão rico, resta saber o que vamos fazer nesse novo mundo – ou o que ele vai fazer de nós. Quando soubermos, estaremos afixados nele como borboletas presas com alfinete debaixo da tampa de vidro ou vaga-lumes em potes de geleia vazios, naquelas noites de verão quando a infância era apenas aquela, inocente, que ainda espia sobre nossos ombros.
fevereiro 23rd, 2010 at 17:33
Muito bom pra ler, pensar e refletir. Muito Lya Luft.
Como ela mesma disse, um mesmo instrumento pode ser usado para o bem ou para o mal, para produzir o que é bom ou o que é ruim.
Sou daqueles que teve o privilégio de ter tido uma infância com um quintal de tarra, pés de goiaba, mangueira, jabuticabeira, pé de figo, cebolinha e salsa lá no fundo, erva cidreira, subir em muros, olhar em buracos de fechadura e sempre conversar olho no olho. Brincar era no quintal, na calçada, na praça, no parque.
Olho com certo saudosismo pra tudo isso, mas é o curso natural do rio da vida. O mais importante é que saibamos educar nossas crianças para usar o gume certo da faca.
Ivan Bueno
blog: Empirismo Vernacular
http://www.eng-ivanbueno.blogspot.com
fevereiro 24th, 2010 at 10:07
Realmente, é um otimo texto que nos faz refletir: para onde a atual ciência e tecnologia esta nos levando?
Uma vez me viciei em The SIMS e comecei a trocar minha vida pelo do meu avatar. Acordava pensando no que o avatar iria fazer, como se aquela fosse minha vida!! Mas, depois de tanto desejar, querer ter as coisas, o avatar morria (como na vida real, as pessoas morrem). Dai refleti, o que esse avatar passou a vida inteira fazendo? é esse o real sentido da vida? O que estou fazendo com a MINHA vida??
Dentre estas e mais outras perguntas, me surgiu a resposta. Como havia conhecido uma pratica de cultivo/meditativa FALUN DAFA, fui ao site e li os livros. Esta pratica segue o caminho do universo VERDADE-COMPAIXÃO-TOLERÂNCIA e é inteiramente gratuita e disponivel na internet no site http://www.falungongbrasil.net
Para quem se interessar, visite o site. Me ajudou a decifrar estas questões que a Lya Luft levantou.
Também gostaria de dizer que esta pratica de FALUN DAFA ou FALUN GONG esta sendo perseguida na China, por ter sido muito popular, por ser uma pratica tão boa e o governo não pode suportar tamanha popularidade de algo que faz tão bem as pessoas. é preciso que as pessoas saibam das brutalidades que estão acontecendo a estes praticantes e ao direitos humanos (questões morais e éticas) na China. Para saber mais sobre a perseguição: http://www.faluninfo.net