corpo e catedral, um poema de Rosane Carneiro

barcelona

Corpo e Catedral
para Gaudí

corpo catedral
catedral corpo
sonhos erigem
partes no todo
salva a religião
dos que professam
edificar em si
um cosmos
um tudo

abertas naves de abrigo
vontades, histórias e percursos
escolhas
corpo para ser pedra
catedral para ser olho
para ser água, crença
criança ou método
missa rito tiro
ao já composto

corpos catedrais
organismos de valores

ofício em ossos
desejo pelas veias
órgãos do sagrado
em todo o humano

Poema de Rosane Carneiro, p. 57 do livro Corpo Estranho, editado pela Editora da Palavra.

Fotografia: Ricardo Hegenbart

conheça mais da autora e da obra

Neste seu pequeno livro-corpo “indevido”, Rosane Carneiro não presume a fatal destinação dos seres, desde o “ovo” condenados a uma vita breve. Evoé, ruge a poetisa, convidando homens e mulheres ao renascimento de Dionísio, seja nesta existência bailarina, seja em outras de um aquém-túmulo. E se a vida pode ser “memória do corpo” ou “carne da história”, por um lado indica aquilo que resiste, por outro o que sacia a fome de si e do alheio. Ou seja, a fronteira entre o corpo inibido e o corpo desejante: “Ao alcance dos olhos a cura /o que não se procura / não se prescreve /receita em descoberta”.

Leonardo Vieira de Almeida

As modulações de Eros, tão presentes em Prova, livro anterior de Rosane Carneiro, ressurgem ainda mais intensas e bem trabalhadas neste Corpo estranho. Na busca de palavras que digam a força da matéria, Rosane defronta-se com a “carne da aurora”, deseja a “embriaguez da luz”. Na sua poesia, transforma-se estranho em entranha, pois o outro já surge sob o signo da interioridade: “germine em mim /a pele do homem amado”. Sorver o corpo da paisagem (“os músculos do vento”) ou perder-se na paisagem do corpo são movimentos que apontam para a mesma direção: a da palavra poética entendida como a prática de uma erosgrafia.

Antonio Carlos Sechin

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