solombra(s) de Cecília Meireles

102_2003

Solombra

Falo de ti como se um morto apaixonado
falasse ainda em seu amor, sobre a fronteira
onde as coroas desta vida se desmontam.

Sem nada ver, sigo por mapas de esperança:
vento sem braços, vou sonhando encontros certos;
água caída, penso-me em cristal segura.

Ah, meus caminhos, ah, meu rosto, audaz e grave!
O claro sol, as altas sombras, a onda inquieta
e o vasto olhar das grandes noites acordadas!

E abre-se o mundo por mil portas simultâneas.
Quem aparece? E outras mil portas sobre o mundo
se fecham. Tudo se revela tão perene

que eu é que sou translúcida morta.

Poema de Cecília Meireles, Antologia Poética, Inéditos, p.297, Editora Nova Fronteira.

* Tela: “O homem de sete cores, 1915-16, Anita Malfatti”, 2008,http://www.galerialeme.com/

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