fevereiro 28th, 2010 in Crônicas, Eventos, Notícias | No Comments »
CRÔNICA DE VÁRZEA E COXILHA
Cyro Martins

No meio dos manuscritos, uma crônica inédita, ressoando lembranças ao rever (vislumbrar?) os pagos, ao retornar a Quarai (1964) quase trinta anos depois …
De Alegrete pra lá, os horizontes rasgaram-se mesmo, num espanto de distâncias. A meia-tarde outonal punha um devagar mansinho nos verdes, nos sombreados, nos rasos, nas baixadas e nos altos. Altos que são apenas coxilhas. E punha também um diluído nas feições que eu me esforçava por lembrar.
De vez em quando se abria um vau na memória e as visões se faziam presenças. Mas esvaziadas da intimidade antiga. Talvez porque a velocidade, a sessenta, a oitenta, a cem, não lhes desse tempo para se chegarem, à sua moda, à moda dos meus tempos de guri, ao tranco, a trote ou a galope que fosse. Iam ficando para trás,nem tristes nem contentes, enganchadas em cavalos feitos de ruflos de saudade. E logo a dispersão.
Leiam toda a crônica aqui e mais novidades literárias no site: www.celpcyro.org.br
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fevereiro 28th, 2010 in Foto do Dia, Poemas, Versos que Conversam | 1 Comment »
A ARANHA

Entrei naquele dia em casa como à porta da noite
e quis na penumbra da hora acender uma luz.
Por um fio suspensa no tecto em vez de uma lâmpada
olhando-me e esperando-me estava uma aranha
imóvel e firme na sua certeza de que eu estava só
o lodo nocturno dos passos e o sujo no branco das paredes.
Parecia vestir-se de silêncio ela irmã que era do ruído
viúva porventura do amor ou da luz da tarde
a aranha procurava um canto desocupado da noite
um vão de escadas para a ocupação da lava íntima
um canto escuro da minha voz para habitar.
Como uma assombração assaltou depois a maré vazia
da ausência de movimento no espaço das mãos
o seu semblante grave a teia muito fina que tecia
parecia querer de mim o meu olhar.
A água queima a luz afoga assim igual te desposaria
poeira escura e insone do astro polar
laborava mais quanto mais eu a olhava e despia
disse vou beijar-te dar-te vida e fecundar-te.
E assim fiz levei-a sisuda e grávida para o quarto
fez seu ninho debaixo da almofada
pois eu toda a noite ouvi o sangue a cabeça deitada sabendo
que aquela estranha aranha viúva aparecida
era a mãe de meus filhos meu norte a minha vida
e desde então se acaso me cruzo com ela
é como se unisse numa fogueira as sombras de todo um bosque imenso
porque ardo morro e porque penso.
Poema de António Amaral Tavares
Fotografia de Robert Parkeharrison
leia mais poema do autor e de outros em seu blog:
http://acasaquecaminha.blogspot.com/
fevereiro 28th, 2010 in Poemas, Versos que Conversam | No Comments »
ONDE DIABOS EU

onde diabos eu me meti
desde que você partiu?
entro em casa e vasculho onde estou,
devo estar escondida em algum lugar
dos meus cantos, dos meus guardados.
mas, amiúde, dou de cara com você ausente,
enquanto eu continuo perdida.
Poema de Eugênia Fraietta em: http://acasaquecaminha.blogspot.com/
(Ver mais poesia sua em http://bichodesetecabecas-ge.blogspot.com)