a aranha, um poema de Portugal
A ARANHA

Entrei naquele dia em casa como à porta da noite
e quis na penumbra da hora acender uma luz.
Por um fio suspensa no tecto em vez de uma lâmpada
olhando-me e esperando-me estava uma aranha
imóvel e firme na sua certeza de que eu estava só
o lodo nocturno dos passos e o sujo no branco das paredes.
Parecia vestir-se de silêncio ela irmã que era do ruído
viúva porventura do amor ou da luz da tarde
a aranha procurava um canto desocupado da noite
um vão de escadas para a ocupação da lava íntima
um canto escuro da minha voz para habitar.
Como uma assombração assaltou depois a maré vazia
da ausência de movimento no espaço das mãos
o seu semblante grave a teia muito fina que tecia
parecia querer de mim o meu olhar.
A água queima a luz afoga assim igual te desposaria
poeira escura e insone do astro polar
laborava mais quanto mais eu a olhava e despia
disse vou beijar-te dar-te vida e fecundar-te.
E assim fiz levei-a sisuda e grávida para o quarto
fez seu ninho debaixo da almofada
pois eu toda a noite ouvi o sangue a cabeça deitada sabendo
que aquela estranha aranha viúva aparecida
era a mãe de meus filhos meu norte a minha vida
e desde então se acaso me cruzo com ela
é como se unisse numa fogueira as sombras de todo um bosque imenso
porque ardo morro e porque penso.
Poema de António Amaral Tavares
Fotografia de Robert Parkeharrison
leia mais poema do autor e de outros em seu blog:
http://acasaquecaminha.blogspot.com/
março 1st, 2010 at 2:59
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