o rodopio de Carmen…

Chico Buarque (por Ana Rojas)

Carmen passeava tranquila e distraidamente pelo Leblon. Tinha ido ao Rio para visitar a filha, que ali reside, e passar lá o Carnaval, com direito a assistir ao desfile das escolas de samba do grupo especial na Marquês de Sapucaí. Merecidas férias. Em meio à distração do caminhar, se vê diante de seu ídolo maior, Chico Buarque de Holanda, em carne e osso e olhos azuis e fantasias mil. Ali, tangível, quase tangível, parecia até que ele era de verdade, um ser humano comum, não deificado, alguém com quem poderia conversar, trocar umas idéias, um cara qualquer (Chico, um cara qualquer? Delírio!) que tinha saído daquela magnífica coleção de obras da música popular brasileira e obras literárias.

Com uma agilidade mental impar, Carmen ensaia um tropeço “instantâneo” e um conseqüente desmaio a serem usados na hora H, de forma a cair bem diante do Chico, bem nos braços do Chico. Não contava ela com o fato de que ele, especificamente naquela manhã bela e ensolarada, tinha saído de casa pensando num samba novo, fresquinho, que estava compondo, e estava num estado de torpor criativo bem característico dos músicos e dos poetas. Atenção toda voltada para o samba e para ao atravessar ruas, não tropeçar em buracos, nada além.

Era a manhã do samba novo.

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Ah, e Carmen é poeta, deveria saber que isto ocorre às mentes criativas, mas naquele momento não era nada além de uma tiete discreta… Semi-discreta, para sermos mais justos. Chico continuou seu caminhar tranquilo e com a mente no novo samba, ainda por ser finalizado, gravado e lançado, em pleno processo criativo. Carmen esperou alcançar a distância que imaginou ser a certa, previamente calculada, escolheu, dentre os tropeços, o que mais se adequava com a obra do mestre Chico, rodopiou e, em meio ao rodopio, revirou os olhos e os fechou. Sentiu, quase de imediato, e com o corpo num ângulo 45 graus com o solo, as mãos fortes que a seguravam… As mãos de Chico. Não abriu os olhos de imediato, pois queria desfrutar mais daquele momento, daquelas mãos. “Você está bem?”, perguntou a voz de Chico que, para sua surpresa, lhe soou um pouco diferente e menos nasalada da que ouvia nos discos e nas entrevistas. Sem expressar reação, a pergunta se repetiu: “Você está bem? Hei, você está bem? O que houve?”. Mais uns instantes de charme e olhos fechados e então decidiu abri-los, não sem antes ensaiar a cara de espanto preguiçoso e a frase de conquista do ídolo. “Você está bem? Responda, por favor!” e então ela decidiu, finalmente, abrir os olhos e encarar o ídolo. “Cadê o Chico?!”, exclamou Carmen.
Um belo rapaz bronzeado, a segurava nos braços, e era até mais bonito que Chico Buarque, mas “Cadê o Chico?”, insistiu ela. “Que Chico?”, respondeu o rapaz, surpreso e solícito.

Carmen se recuperou de desmaio ensaiado com uma rapidez impar. Agradeceu ao rapaz enquanto já olhava ao redor procurando o vulto desejado. “Você está bem?”, perguntou o rapaz e ela “Sim, sim.”, apressadamente. Ah, lá ia ele uma quadra adiante, levando pães e um jornal a pensar no novo samba.

Pelo menos resta a Carmen saber ter estado tão perto do ídolo e mais, num momento de composição. Disso ela ficou sabendo agora. Acho até que Carmen é daquelas mulheres discretas que, quando estão bem no meio de um show do Chico, não conseguem segurar um sonoro “Liiiiindooooooo!!!”. Quase todas fazem isso e as que não fazem querem fazer. Deve ser mais ou menos o efeito que a Michelle Pfeiffer tem sobre mim. Ô mulher linda, deus do céu!

Bem, aguardem pelo samba novo!

Ah, e Chico é, sim, um cavalheiro. Teria acolhido Carmen nos braços, assim como fez com Cecília, Carolina, Beatriz e tantas outras mulheres, e a teria ajudado a retomar prumo, firmar-se nas pernas trêmulas e teria sorrido um sorriso tímido e discreto, mas estava em processo criativo, como já sabemos.
A falha, de Carmen, não do Chico, foi no giro, no rodopio e no fechar os olhos, um pouco distante do músico e escritor. Carmen se refez emocionalmente e sabe que voltará ao Leblon. Novas chances! Enquanto isto vai ensaiando outros desmaios e rodopios sincronizados, como a bailarina que Chico cantou com Edu já fez.

Eu, por mim, vou pra Nova Iorque tentar me rodopiar diante da Michelle Pfeiffer.

Michelle Pfeifer

Ah, Michelle, ma belle… seria eu teu herói e meu cavalo falaria Inglês. Não serias noiva de cowboy, nem terias de disputar com outras três. Enfrenteria batalhões, alemães, Holywood e seus canhões, guardaria meu bodoque e ensaiaria um roque, um jazz ou o que quisesse para as matinês.

Texto de Ivan Bueno
leia mais sobre o autor em seu blog:http://www.eng-ivanbueno.blogspot.com/

Fotos: Chico Buarque por Ana Rojas / Michelle Pfeiffer http://www.rankopedia.com/

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2 respostas para “o rodopio de Carmen…”

  1. Ivan Bueno Says:

    Carmen,
    Obrigado por mais esta publicação e, mais que isso, obrigado pelo relato que me inspirou a escrever o conto/crônica (na verdade um pouco de cada!). E viva Chico, e viva Michelle, e viva os rodopios, e viva Vidráguas, e viva a escrita, a leitura, os leitores, e mil vivas!
    Beijo grande.

    Ivan Bueno
    blog: Empirismo Vernacular
    http://www.eng-ivanbueno.blogspot.com

  2. eugênia fraietta Says:

    carmen, pelo menos vc tentou alguma coisa, eu, de minha parte, acho que ficaria paralisada diante do compositor da trilha sonora da minha vida.
    enfim, fico muito feliz que vc tenha conseguido entrar no bicho! estava ansiosa por sua visita, mulher! obrigada e sinta-se em cada por lá, que eu me sinto em casa por aqui. beijo.

    ivan, fico muito bom!

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