tomo as suas mãos nas minhas e desperto

Voltava da praia distraída, pensando no dizer tomo suas mãos nas minhas, uma despedida de Antón Tchecov e Olga Knipper, que também é uma peça teatral de Carol Rocamora com tradução e direção de Leila Hipólito e atuação de Roberto Bomtempo e Miriam Freeland, onde 400 cartas contextualizam a história de amor dos últimos seis anos do escritor com a atriz amada, quando miro uma camiseta amarela vindo em minha direção, reconheço os passos e sinto o cheiro da banda e na minha frente vejo a lenda: Chico Buarque…
Na hora contenho o arrepio e o impulso e sigo como se quem passasse fosse alguém comum e no Rio de Janeiro é, porque por cada esquina pode estar uma estrela, um mito, por isso se deve conter os disparos do coração, esquecer as máquinas fotográficas e arregalar bem os olhos para gravar a cena.
No entanto confesso que estes encontros me fazem desejar aprender a técnica de tropeçar nos astros desastradas, treinando o tombo, numa hora dessas num dia qualquer, quem sabe não seja despertada por um olê, olá?
É!
Aprender a cair pode ser uma arte, e isso presenciei em No Buraco, outra peça teatral que me fez repensar o espaço temporal do silêncio, um trabalho muito intrigante que se passa em uma hora, utilizando a técnica da pantominia e de mímica ilusória.
leia toda crônica, quase_conto…

No Buraco, por trás de biombos, percebemos os atores remontando quadros, fazendo-nos rir muito… e também me dei conta de quanto uma hora em silêncio fica imensa.
Mas voltando a Tchecov, também assisti à peça Espia uma mulher que se mata, baseada no conto Tio Vânia , uma ode ao teatro e a Arte e também uma ironia aos que teorizam a arte, esquecendo-se de que na convivência diurna está a nossa maior atuação, uma grande reflexão.
No entanto, tomo as suas mãos nas minhas ainda não me sai da cabeça, ela nos traz os últimos seis anos do escritor junto a sua amada Olga e tudo contextualizado pelas cartas que eles trocaram antes dele nos deixar. É muito lindo, o ir e vir, rompendo o frio do Urais, frestas por onde cada palavra era uma faísca a reacender o amor, o desejo de estar juntos e o amor deles pelo Teatro.

Olga era atriz, Antón escritor. Os dois se conheceram durante os ensaios da peça a Gaivota, de sua autoria. Olga se tornou musa e companheira, inspirando-o em As Três Irmãs e O Jardim de Cerejeiras e tomo suas mãos na minha além do dizer, passa a ser uma consígnia e um conhecimento para Tchecov não cair no esquecimento, como nos sussurra ele ao final.
A mim, ainda lembrou o livro A Sociedade Literária e a torta de casca de batatas, sendo que esta tinha a Segunda Guerra como pano de fundo;aquela, o frio russo e a tuberculose de Tchecov…
Enfim o amor sempre consegue grandes obras e se avaliza como o suporte de tudo. No entanto, imagino se fosse hoje, com a internet talvez não tivéssemos uma peça teatral e sim um Festival para abrigar tantos e-mails trocados, não é mesmo?
Portanto, vivas à internet que encolhe fronteiras, aproxima distâncias geográficas e escritos. E agora por onde for, já sei, além do rodopio ensaiado, estarei com O Beijo de Tchecov e um bilhetinho na bolsa de praia: pra me despertar basta tomar suas mãos na minha!… vá que Chico leia?
Carmen Silvia Presotto
março 2nd, 2010 at 13:19
Bom ter seu relato, Carmen. Muito bom. Abraços, Pedro.
março 2nd, 2010 at 17:41
Carmen, Carmen…
Este seu rodopio já deu cria, por mim, ao conto/crônica “O rodopio de Carmen” e agora este delicioso relato de sua viagem e que serve de informação pra quem quiser saber de onde surgiu o meu rodopio seu diante de Chico. E vá que ele leia? Vá treinando rodopios corporais para a próxima ida ao Rio. Não haverá escolas que ensinam isso? (rs…)
O relato das peças que você assistiu atiça a vontade de assistí-las. Bem que poderiam viajar Brasil afora, mas é pena que a cultura se concentre tanto no eixo Rio-São Paulo. Pena que não se espalhe e inunde o Brasil por igual.
Adorei o texto.
Beijo grande.
Ivan Bueno
blog: Empirismo Vernacular
http://www.eng-ivanbueno.blogspot.com
julho 11th, 2010 at 16:09
Maravilha, Carmem. Vê se não tem tudo a ver com esta composição do Chico e do Ivan:
“Ela era ela era ela no centro da tela daquela manhã
Tudo o que não era ela se desvaneceu
Cristo, montanhas, florestas, acácias, ipês
Pranchas coladas na crista das ondas, as ondas suspensas no ar
Pássaros cristalizados no branco do céu
E eu, atolado na areia, perdia meus pés
Músicas imaginei
Mas o assombro gelou
Na minha boca as palavras que eu ia falar
Nem uma brisa soprou
Enquanto Renata Maria saía do mar
Dia após dia na praia com olhos vazados de já não a ver
Quieto como um pescador a juntar seus anzóis
Ou como algum salva-vidas no banco dos réus
Noite na praia deserta, deserta, deserta daquela mulher
Praia repleta de rastros em mil direções
Penso que todos os passos perdidos são meus
Eu já sabia, meu Deus
Tão fulgurante visão
Não se produz duas vezes no mesmo lugar
Mas que danado fui eu
Enquanto Renata Maria saía do mar.”
(Renata Maria – Ivan Lins e Chico Buarque)
julho 11th, 2010 at 20:26
Marcio, que bom quando as palavras se encontram a mais sentimentos… tem tudo a ver sim, um beijo e obrigada por tua leitura sempre atenta e carinhoso.
Carmen Silvia Presotto