a invenção do dia, um poema, um livro
A invenção do dia
Desconheço aquela paisagem
Que cobria os meus olhos, os meus pés, os meus dedos,
Sirenes dos dias
Desconheço o brejo e suas fábricas
As crianças que brincavam comigo,
que atravessavam a história do beijo
Não desejei perseguir as ruas por onde construí estes
descaminhos
Onde ficou nosso hóspede no momento em que o porão
se desfazia
Emparedado à sombra da renúncia?
Assim foi a casa, a cozinha, o quintal
E a fração do almoço,
Como a proclamar o diário da boca
E assim a obrigação de dobrar lençóis…
O Sol – maior que os quartos – e a terra nos vestia de
intervalos.
Entre os inventários, a ruína
o rito das traças, melodia devorada
fora da sala o incompleto palácio
e a oração da tarde
a percorrer a igênua cidade
o anúncio da hora prévia
e exata da verdade.
Valberto Cardoso,p.p. 66,67, A Invenção do Dia, Editora UFPB
Psiu! Valberto, querido Poeta! obrigada pela Invenção dos dias encaminhado à Vidráguas, que agora tenho o prazer de compartilhar com quem nos le.
Um abraço e sucessoSempre!
março 4th, 2010 at 13:07
Poema forte, poema de tempo, poema do tempo, das mudanças, de “encontros e despedidas” (com a licença de Milton Nascimento), nascimentos e bancarrotas das coisas que são e deixam de ser porque se deterioram ou se “modernizam”. Me fez me lembrar de uma música da qual gosto muito, e que faz parte da minha história musical: IN MY LIFE (Lennon-McCartney), dos Beatles, que tem uma letra melancólica sobre essas mudanças, sobre esse não reconhecer o antes conhecido, as mutações dos lugares (e, por que não?, das pessoas).
Muito bom, Valberto. Parabéns pela escolha do tema e pela criação do poema.
Grande abraço,
Ivan Bueno
blog: Empirismo Vernacular
http://www.eng-ivanbueno.blogspot.com