pensando a Poesia com Ferreira Gullar



Vida

a minha, a tua,
eu poderia dizê-la em duas
ou três palavras ou mesmo
numa

corpo

sem falar das amplas
horas iluminadas,
das exceções, das depressões
das missões,
dos canteiros destroçados feito a boca
que disse a esperança

fogo

sem adjetivar a pele
que rodeia a carne
os últimos verões que vivemos
a camisa de hidrogênio
com que a morte copula
(ou a ti, março, rasgado
no esqueleto dos santos)

Poderia escrever na pedra
meu nome

gullar

mas eu não sou uma data nem
uma trave no quadrante solar
Eu escrevo

facho
nos lábios da poeira

lepra
vertigem
cana

qualquer palavra que disfarça
e mostra o corpo esmerilado do tempo

câncer
vento
laranjal

Ferreira Gullar, poema do livro O Vil Metal

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uma resposta para “pensando a Poesia com Ferreira Gullar”

  1. Ivan Bueno Says:

    Ferreira…
    Palavras de ferreiro que malha as palavras e as molda. Joga os versos, as idéias, os pensamentos em nossa juGullar.
    Quem lê, está enfeitiçado pela maestria do trato, no malho do ferreiro Ferreira. Mordido está na juGullar.
    Abraço ao poeta admirado de um aprendiz admirador.

    Ivan Bueno
    blog: Empirismo Vernacular
    http://www.eng-ivanbueno.blogspot.com

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