subjetividades, em vidráguas
Se vivemos num Mundo em expansão, é importante que repensemos a nossa subjetividade a partir do conViver entre-palavras, para isso nas sextas-feiras, em Vidráguas, estaremos conVersando com nossas subjetividades entre eros&psiquês na secção Interiores.
Leiam, comentem, compartilhem, enviem artigos!
SUBJETIVIDADE
construções e desconstruções na arte e na psicanálise
*Luiza Teixeira Moura

A subjetividade é um conceito relativo a um momento histórico; surgiu em período específico, no qual movimentos sócio-familiares, econômicos, científicos e culturais apontavam para uma mesma direção. Nasciam e se impunham como imperativos as noções de privacidade, de interioridade, de individualidade, de valorização do conhecimento e de naturalismo.
Este conjunto de conquistas, que iniciou com a Renascença, abasteceu-se com o Iluminismo e culminou no Romantismo veio forjar um novo tempo. O mundo sofria mudanças de dimensões incalculáveis, com repercussões estridentes e silenciosas, inegavelmente profundas. A chegada da Modernidade transformou o mundo objetivo e inaugurou o subjetivo.
O senso de subjetividade é contemporâneo à noção de arte como representação da natureza, distanciando-se de forma de suas funções de comunicação e de reverência mítica e religiosa. Para alguns autores a própria arte se inaugurava. Estas manifestações artísticas refletiam e, ao mesmo tempo, antecipavam profundas alterações no espírito humano.
leiam todo o artigo
Com o desenvolvimento científico e disseminação de melhores recursos técnicos, as tintas e demais materiais de pintura evoluíram, favorecendo a maior delimitação das imagens. O dentro e o fora ficaram mais definidos e o rosto humano, fidedigno. A aquisição da tridimensionalidade na Renascença colocou as figuras centrais circundadas por um entorno realista. A relação humana com sua interioridade, com a alteridade e com o mundo circundante ingressava numa nova era.
Falar nas conquistas advindas da Renascença, do Iluminismo e do Romantismo é traçar o perfil do homem da modernidade. O homem subjetivo.
Neste cenário, onde o privado se impunha ao público, o individual, ao coletivo e onde a tridimensionalidade e a capacidade de representação passavam a apontar o caminho para o “senso de ser”, surgia a psicanálise. E apenas neste momento e neste ambiente, onde o conceito de subjetividade se revestia de sentido, poderia ter surgido.
No entanto, coube, mais uma vez, à arte, que vivera na Renascença e no Neo-classicismo seu ápice do domínio de representação da natureza, antecipar os novos movimentos do espírito humano. A partir da conquista da capacidade de imitar a realidade objetiva, em consonância com a construção da subjetividade, restava à arte a desconstrução.
O próprio Romantismo, considerado, ao lado da Renascença e do Iluminismo, um dos pilares da modernidade, trazia em si os elementos que viriam ajudar a desestabilizar o projeto moderno. Para o Romantismo, a busca de ordenação e racionalização comuns à Modernidade se afastava da essência do humano, que se manifesta nos limites borrados e na complexidade desconfortante.
Em conformidade com novos sinais de inquietação, as artes plásticas, passavam a ser visuais, abrindo espaços para manifestações diversas, aceitando as idiossincrasias dos autores, respeitando as percepções individuais e as emoções particulares. O dentro e o fora, o íntimo e o explícito não mais se constituíam nos contrastes, mas nas misturas. A própria noção de representação na arte é colocada em xeque.
Não é demérito algum à psicanálise estar alguns passos atrás dos movimentos artísticos, no entanto, seria elogiável se buscasse partilhar do dinamismo do espírito humano, e nada mais humano do que a arte.
Se a subjetividade, grande conquista da era moderna e sustentáculo da teoria psicanalítica, é um conceito histórico, claramente inserido num determinado tempo (e lugar), não se pode desconsiderar que este conceito é suscetível às transformações históricas. Como suscetível e flexível deve ser a própria psicanálise.
A arte contemporânea é indefinível, e, “ironicamente, podemos ver aí sua definição. Vivemos num mundo em fluxo constante. Tudo é completamente novo e inquietante, e a arte tem propensão natural a refletir essa situação” (Wendy Becket, 1997). A arte da atualidade perdeu temporariamente o rumo, indo ao encontro do desconhecido e do incerto.
Esta indefinição é assustadora, acima de tudo, por expor as indefinições do próprio homem contemporâneo.
A clínica psicanalítica hoje está em contato com complexidades inegáveis e grandes desafios. As noções de subjetividade e representação psíquica estão sendo constantemente confrontadas. No caleidoscópio das infinitas identidades e possibilidades de relações, as antigas referências, muitas vezes, não auxiliam, nem mais confortam ou protegem. O mundo hodierno é repleto de possibilidades, assustadoras, sem dúvida, porém, provocadoras e estimulantes. Nada mais é simples, ascético e compartimentalizado, a contemporaneidade é híbrida, ilimitada e rica.
Assim como o espírito humano não cabe mais nos traçados e contrastes definidos de uma arte renascentista ou neo-clássica, não se ajusta mais aos recursos de uma psicanálise tradicional herdeira de um mundo Moderno. Estamos em expansão.
*
Luiza Teixeira Moura, psicóloga clínica, escritora, bacharel em comunicação social.
Publicações
*Livros Publicados (co-autorias):
“Paixão e Criatividade – um estudo psicanalítico sobre Frida Kahlo, Camille Claudel e Coco Chanel –“ (Revinter, 2º edição, 2002).
“Caro Prof. Freud: correspondências selecionadas” (Núcleo de Estudos Sigmund Freud, 2004).
“Breve Ensaio Sobre a Maldade” (Revinter, 2008), “Adultecer – a dor e o prazer de tornar-se adulto –“ (Revinter, 2008).
“Winnicott – seminários gaúchos –“ (Revinter, 2008).
* Diversos artigos publicados como colaboradora em livros, anais e periódicos da área da psicologia e psicanálise, desde 1994.
Premiações
Prêmio Tema-livre, XXI Jornada Anual do CEAPIA, 1999. Artigo: “Crianças que Cuidam”.
Prêmio Juan Sebastian Kern, 2003. Artigo: “Infância Roubada”.
Prêmio Ângelo Musgo, melhor obra teatral em língua portuguesa, Itália, 2009. Roteiro: “A Cabeça de Camille Claudel”.