março 21st, 2010 in Foto do Dia, Poemas, Versos que Conversam | No Comments »
O olho do homem serve de fotografia ao invisível.
Como o ouvido serve de eco ao silêncio.
Machado de Assis

Fúria
Vem tranquila fúria,
Abre-te em emoção
Navegando no tédio
Desde cotidiano alumbrado
Pânico sem susto,
Pensamento desvairado
Sonhando assombrado
Um pesadelo em vígilia
Sobressalto calmo,
Como um lúcido punhal
Transpassando a carne
De um amor que se entredevora
Grita por socorro,
Como vagido de criança
Ferida pela mão
Que depois esquece
Que fio de punhal é este
Que tranca o sangue entre as grades?
É mémoria ou delírio?
Que roupa veste o verbo sofrer?
Este verbo incluso
É equação mal calculada?
É anjo ou demônio?
No fundo a fúria
É pedido de socorro,
Alguém em perigo
Ninguém socorrido
Este grito é que mais comove,
O não dormir tranquilamente
Como um livro fechando devagar,
Impunemente lúcido!
Poema de Valmor Bordin, p.p. 157, 158, Voo Rumo às Asas - A Arte e o Vínculo como Remédio, Editora Nova Prova
* Fotografia de Robert Parkeharrison