duplo,interiores em Vidráguas
O DUPLO – expressão de subjetividade
por Berenice Sica Lamas

O duplo representa os personagens internos que cada ser humano carrega dentro de si, tangenciando a questão da identidade do sujeito. Na etimologia o duplo vem do latim duplu – equivale a duas vezes o outro, dobrado, dobro – pessoa ou coisa muito semelhante a outra, réplica, dúplice, duplicidade, fingimento.
No Banquete de Platão têm-se a origem do mito do duplo – o mito do andrógino – no início o homem era uno e perfeito, depois dividido em dois gêneros por punições a transgressões, busca incessante desta metade perdida.
As representações do duplo são inúmeras – sombra, imagem no espelho, foto, retrato, reflexo (vitrine, água), alma, gêmeos, xarás, sósia, anjo da guarda, fantasma, animal, máscara, disfarce, replicante, andrógino, andróide, metamorfoses, avessos, reversos, simulacros. Na literatura fantástica a questão do duplo personifica os antagonismos humanos, estranheza entre o real e o suprarreal, o natural e o sobrenatural.
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O duplo, por exemplo, trata-se de um tema caro a Chico Buarque – porque não dizer obsessivo – nas peças Calabar e Gota d’água com o tema da traição – envolvendo situações triangulares e de duplicidade, de partes opostas; nas letras de música: eu te amo, noite dos mascarados, quem te viu quem te vê, teríamos inúmeros modelos; nos romances “Estorvo”, “Benjamim”, este com o duplo no tempo, as duas mulheres, a do passado e a do presente, a bipartição da personagem. E “Budapeste”, no qual José Costa é o paradigma do homem desdobrado. O duplo da personagem de Budapeste não é um duplo sobrenatural ou diabólico conforme tradição mais antiga do duplo – antes ilumina a ideia da dualidade do ser humano.
O escritor e seu duplo – a literatura como duplo – a literatura fala de si mesma dizem alguns autores, quando se trata do tema do duplo, sendo ela própria um duplo, uma enganadora imitação da realidade (Goimard) ou recriação do real (Barthes). As relações virtuais hoje oportunizam o uso de máscaras sociais (sites de relacionamento, orkut, conversas virtuais, chats de bate papo). O anonimato permite isso. Defeitos se “ocultam”, por trás do teclado e dos ships somos outros, muitas vezes idealizados, porém permanecemos nós mesmos. O duplo como o oculto, outra face da pessoa, percurso fantasmático do desejo. A pessoa se reinventa no meio virtual, adota uma personagem de ideal de ego. No cinema atualmente o duplo ficcional mais famoso é o avatar – e é azul de olhos meigos.
Julio Cortazar “A distante”, resolução da divisão interna e busca da unidade. Jorge Luis Borges “O outro”, faces do eu no tempo. “O sósia” de Dostoievski – exemplos na literatura não faltam – Otto Rank “O duplo” – “O retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde – também um clássico – Stevenson, Shelley, Fernando Pessoa. Modernamente o duplo simboliza busca de auto compreensão – representa uma fissura interna – revela-se em diferentes tempos-espaços vertendo inesperadas e surpreendentes facetas. Mario Vargas Llosa “A orgia perpétua”, estuda o fenômeno do duplo em Madame Bovary de Flaubert, também considerado um romance de sistema binário. O escritor é dois: o homem que vivia e o que criava. Vargas Llosa chama de a “lei mágica da dualidade”. Freud “O estranho” compreende a vivência do estranho como um íntimo familiar reprimido quando se liberta da repressão – unheimlich – estranho e familiar a um só tempo.
“Aquele que caminha ao lado, o companheiro de estrada”: o doppelganger – termo consagrado pelo Romantismo. A declaração
mais conhecida sobre o duplo da literatura – de Arthur Rimbaud: “je est un autre” – eu é um outro. Ser múltiplo e ninguém é próprio da condição humana, conforme Nicole Bravo. O tema do duplo fascina: o homem à procura de si mesmo.
*Arte Guernica de Picasso