Archive for abril 1st, 2010

a sereia, um poema de Portugal

A SEREIA

Certo é que metade dela era peixe
o seu ambiente era o da água
de que cada movimentação
é uma invenção de si própria
eram duas as partes que se queriam
e a metade dela que era mulher
receava pisar na água de que era
os objectos que a metade dela que era peixe
guardava fechados no silêncio
(o silêncio ao entrar na água)
nada em si era a metade dela que era mulher
que apanhasse do chão um quadrado
fechando sem saber a metade dela
que era peixe
e para que se nascesse e morresse
lentamente de se ser peixe
não tinha vagina mas sim escamas
uma por cada vez que nasceu
e eu não sabia e isso era o que eu sabia
que uma serpente haveria de me vestir
como veste as palavras definitivas
quando a metade dela que era mulher
pregou o silêncio no tronco de uma árvore
aquele que sobe à cruz das palavras
um súbito na mão a nuvem
subitamente cartão
um súbito partir das aves
como súbito é o ninho das serpentes
sabemos isso tão bem (as pessoas afixam as palavras
os peixes trocam-nas vivas por outras
sem plano prévio nem dicionário)
outra mulher que fosse seria
letra ossuda que se repete e afunda
como uma pedra no abecedário.

Poema de António Amaral Tavares

Leia mais poemas no blog do autor:

http://acasaquecaminha.blogspot.com/

meia-verdade, meia-mentira, Poesia…



juro dizer a meia-verdade
a meia-mentira
o centauro por inteiro

nada mais que a sedução da sereia
o passo em falso, verdadeiro
na beira de um desfiladeiro

juro com a mão direita
sobre a bíblia
e a mão esquerda abanando

em nome de Deus, de Zeus
de Oxalá ou da besta

juro que os que quiserem
somente a verdade
vão perder o melhor da festa

Ricardo Silvestrin, p.21, Palavra Mágica, Massao Ohno Editor, Instituto Estadual do Livro.

Leiam e saibam mais da obras do autor:

http://silvestrin.blogspot.com/

o que serve para mentir, também serve para dizer a verdade…

DIA DA MENTIRA
por Tânia Du Bois

“Na mentira / expressa / sua vontade / ou sonho / o outro lado / do desejo /de que tudo pudesse / ser diferente / como feito / com efeito / afeição.”
(Pedro Du Bois)


Du Bois, através do seu poema, mostra-nos como Carlos IX, rei da França, fez valer a sua vontade “com feito e efeito”. Segundo a lenda, o “dia da mentira” surgiu em 1564, quando o rei da França determinou a adoção do calendário gregoriano, passando o ano a ter início em janeiro. Antes o ano novo era comemorado em 1º de abril. Alguns franceses resistiram à mudança ou se esqueceram dela, abrindo caminho para que os brincalhões pregassem peças, como enviar presentes “esquisitos” e convites para festas, de mentira, em 1º de abril. A tradição se espalhou pela Europa e foi trazida para o Brasil pelos portugueses.

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