Archive for abril 3rd, 2010

poema

DA INJUSTIÇA
*por Pedro Du Bois

Amaldiçoado em lágrimas
rasgo olhos ao horizonte
poente
inutilizo a noite
na chegada
em refúgio

(os cães ladram)

rememoro a hora
da notícia transmitida
palavra por palavra
revejo minha imagem
cristalizada
no congelamento
da lágrima depositada

(os cães farejam)

as dores se afastam
no distanciamento
necessário ao medo
o corpo estremece
ao se pertencer em dores
no horizonte hostil
da janela aberta
o futuro se depara
com a impertinência
do presente

(os cães comem)

afasto suas mãos das minhas:
o contato é lucidez
inoportuna na desesperança
a oração despercebida
rompe o silêncio
e se perpetua
afago o deslizar da hora
em horas subsequentes

(os cães se defendem)

murmuro o nada acontecido
e desacordo em sonhos
o retorno convive
com o fato
desproporcionado
revivo o outono em folhas
pelo chão
recupero a sanidade
e me faço cristal
de rocha esfacelado

(os cães se diferenciam)

sofro o instante
e gesto
o silêncio
o emudecer transmite
a incerteza da pergunta
na vastidão ampliada
da insensibilidade

(os cães desfazem)

posso perguntar
o que bem entendo:
mas não entendo
posso exprimir
a minha raiva:
mas não pretendo
posso aproximar
os olhos à fotografia:
mas não enxergo

(os cães confundem)

calendários dizem que os anos passam
o exercício diuturno de recuperar
o inconsciente e o aguardar
refulgente: recomposto
o exército lancinante dos ataques
distribuí ossos que estalam

(os cães apavoram)

um dia destaco na pedra
o sinal: acordo
um dia acordo e na pedra
destaco o sinal
um sinal na pedra
é destaque quando acordo

(os cães se acovardam)

olho e enxergo
ouço e escuto
pego e sinto
levo à boca
e o sal amarga
o recesso de onde retirado
avaros dias de permanências
permanentes signos
aparentes esboços
o processo desarruma o fato
em procedimentos

(os cães arfam)

ouvidas as testemunhas
os peritos dizem
das especialidades
nada
nada
a improvável condenação
confundida em versos
na reversão da realidade

(os cães obedecem)

choro atravessar o espaço
desconsolado em fatuidades
remoço a fotografia
e me instalo diante
da orfandade
perder significa atos
ao despropósito
de continuar vivo

(os cães silenciam).

*poema inétito. Leiam mais poemas no blog do autor:

http://pedrodubois.blogspot.com

pensando a poesia com Maria Carpi

“quero ser, da poesia, o bicho mais bravio”
7275017

Se o homem é transcendência, a poesia é barco. Se o homem é presença, a poesia é corpo. Espaço e tempo, através da poesia, tornam-se ritmo e imagem. Não há distância entre a mão que escreve e a que abre as páginas. O lugar da metáfora é o corpo. Não apenas o coração, mas o corpo, com todos os sentidos. A metáfora necessita dos poros da pele, das papilas da gustação, das vibrações da retina às cores e ao claro-escuro e, também, da sua retração e do fechar das pálpebras; da agudeza do ouvido para o tom e o timbre dos rios exteriores e interior, desde a foz do silêncio. É o corpo parado que caminha. É o corpo caminhante que repousa. O corpo cheira a palavra quando fruta madura. E esfola os joelhos nas rampas e rampas dos altos morros.

Todas as figuras de linguagem são corporificações. E os sonhos nos demovem e consomem os dias porque são reais, são carne de nossa carne. Há duas maneiras de falar, como há duas maneiras de pensar: uma poética e outra lógica. Há duas maneiras de existir, como há duas maneiras de amar: uma poética e outra prática. Há várias maneiras da pólis organizar-se, mas só uma é poética: o encontro dialógico, a comunidade.

A poesia não deve ser vista como um fenômeno anormal, etéreo. Ela não baixa como uma exceção, um êxtase temporário. Tornamo-nos íntimos do mistério. E passamos a entender que a poesia não desaparece ou surge. Às vezes espreguiça-se ao sol, em ramadas de figos; outras instala-se em nossa pele, para armazenar-se de sombras.
O cotidiano, em sua integridade poética, deve ser saboreado na possibilidade do diálogo. Inclusive, quando não estamos preparados para ouvir poesia.

O HERÓI DESVALIDO

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