Nos Passos de Mrs. Dalloway

Em Londres, quando os plátanos largam suas folhas ao vento e dobram suas raízes ao tempo, outona… e neste desfolhar de momentos, trocamos as estações, lambuzados pelo morno hálito de um lindo sol literário: Clarissa Dalloway.
Clarissa Dalloway é a protagonista e o título do Romance de Virginia Woolf, publicado em 1925, que nos eventos de um único dia nos apresenta a história de uma Senhora da alta burguesia londrina, que por aqui nos chegou traduzido através das mãos de Mario Quintana, driblando o próprio e o nosso tempo com o compasso do relógio,.
E que relógio: O Big Ben!
As Horas, originalmente seria o nome deste romance que visitamos hoje, mas foi através de Michael Cunninghan, em 1998, que por saber disso, nos anuncia outras horas em um novo romance, homenagem, que, em 2002, termina no filme de sucesso, estrelado por Nicole Kidman e dirigido por Stephen Daldry.
Michael Cunninghan sabia e nós também sabemos, que sem As Horas de Virginia Woolf, não haveriam outras! Por isso, colocamos os pés a caminhar com os olhos para que a memória nos leve a meados de junho de 1923, onde um único dia transformou os passos de quem lê e escreve, pois sabemos que depois de Virginia Woolf nunca mais as horas, nem a memória, muito menos nós, poderemos viver sem fluxos de consciência.
Grande Virgínia Woolf, em altura e escritura, e que Escritura!

Nosso roteiro e homenagem, começa por onde começa a vida de Londres. No Metrô.
Eram 11 da manhã do dia 25 de outubro de 2009, quando tomamos o metrô em Canadá Water para chegar ao marco de nossos passos: Westminster Station, início e fim do romance, área social e política e mundo de Clarissa Dalloway.
Lá chegamos, às 14 e 30 e parece que conosco uma turba de gente, querendo desvendar outros passos e feitos, já que ali está muito da história da cidade.

Nossa mira era Mrs. Dalloway, mas vacilamos perante o Sthefans da Taverna, nome de solteiro de Virginia, logo desistimos do chope e feito bons twitteiros de Clarissa, com o sol por testemunha, atravessamos a rua em sentido à Westeminster Abbey. Ao contrário da ficção, naquele dia não saímos para comprar flores nem luvas francesas como aparecia em seu primeiro escrito, que está em Contos Completos da COSACNAIFY, e sim para viver este dia como uma comunhão literária.


Sabíamos que à noite haveria um jantar, e, conforme o romance , estávamos duas horas atrasados, o que para Londres é uma tremenda gafe, por isso apressamos o passo, deixando a Westminster Abbey e o rush londrino a nossas costas, seguimos até os portões da Dean’s Yard –SW1,cruzamos a fachada de gerânios vitorianos e entramos…

O contraste era flagrante, pois bastou passar um portão para logo nos sentirmos em outro mundo. Absortos pelo verde de intensas árvores, seguimos o imaculado tapete verde ao centro, onde hoje crianças jogam e se divertem, para percorremos o recorte da distinta arquitetura com casas, reconhecidamente, Georgianas cujas portas esculturais luziam. Atravessar estes portões, foi como rasgar o tempo para vivenciar o clima do romance, onde Mrs. Dalloway, supostamente, teria vivido para escrever sua festa…

Chegamos à Great College Street, lá as portas nos confundiram, todas azuis!

No entanto, caminhando uns passos a mais, atravessamos a esquina e chegamos à Barton Street, depois de passarmos pela casa de Lawrence da Arábia, outra História Política e Literária de Londres, avistamos as janelas que logo nos mostrariam as vidraças de nossa leitura, de onde visualizamos Clarissa, mulher de Richard Dalloway, Membro Conservador do Parlamento, que entre tantas outras coisas a pensar, estava inquieta, começando a preparar o jantar em que toda a alta sociedade londrina, inclusive o Primeiro Ministro estariam presentes.

Lá, folhamos o livro e a vimos reparar seu vestido verde, a dar ordens a sua ajudante sobre onde colocar as flores e reencontrar a Peter, seu amigo chegado da Índia, que a surpreendera, pois o esperava tanto, mas não justo no dia em que daria uma festa, porque com ele chegariam os famosos flash-backs, os monólogos interiores que, além de reavivar o passado e mudar os tempos dos personagens, mudariam a narrativa ficcional e também os olhares de seus leitores…

Lá, também não pudemos esquecer de Septimus Warren Smith, um veterano de guerra, personagem do romance que em contraste com Mrs. Dalloway nos aponta o outro lado do espelho desta vida social, formal, brilhante e espalhafatosa. Com ele, chega a loucura e a crítica social que V. Woolf faz questão de nos apresentar…

Seguimos pela Cowley Street, passeando com a vida dos que ali hoje trabalham, dobramos na Lord Reith Street, onde o azul calipso de uma porta nos chamou a atenção pela beleza do sol refletindo-se nela, quando escutamos uma turma de colegiais vindo em nossa direção em companhia de seu Mestre que, provavelmente, discorria uma aula a céu aberto sobre Virgínia Woolf.
E que céu!!!

Ao escutar o Big Ben insistir em seus badalos, despertamos para a ordem do dia e feito Clarissa Dalloway saímos para comprar flores, atravessamos a rua, despertamos e seguimos em direção à Victoria Street, cruzando a avenida em direção ao St. James Park, onde novamente as sirenes e a vida agitada de Londres nos esperava…
Tendo vivido em Westminster – há quantos anos agora? mais de vinte – sente-se até no meio do tráfego, ou quando se desperta à noite, Clarissa bem o sabia, um particular silêncio, ou solenidade; uma indescritível pausa; aquela suspensão ( ou seria do seu coração, que diziam afetado pela influenza?) antes que batesse o Big Ben. Agora! Já vibrava. Primeiro um aviso musical; depois a hora, irrevogável. Os pesados círculos dissolviam-se no ar. Que louco somos, pensava ela, atravessando a Victoria Street.
No caminho, passamos por lojas e pelo mercado de rua na Strutton Ground SW1, já baixando suas cortinas, ou esvaziando suas bancas, denunciando-nos o avançar das horas. Seguimos pela Victoria Street, em busca da loja Army and Navy Store, onde Elizabeth, filha de Clarissa, fazia suas compras e tomava chá com Miss Doris Kilman, mas em vão, parece que a loja não existe mais.

Vencidos, desistimos da busca e paramos, numa das poucas lojas abertas, para nos abastecer para um piquinique no Parque. Mas antes de chegarmos ao cruzamento do Buckingham Palace com St. James Park, enquanto passávamos pelo Caxton Hall, vimos que ali estivera Churchill conversando, mais uma vez nos demos conta do tempo transcorrido e paramos quando lemos Clarissa, ao encontrar Hugh Whitbread, seu velho amigo, gritar: – Gosto de passear por Londres. Sempre é melhor do que passear pelo campo.
É! Clarissa ama a vida da Cidade!
Despede-se de Hugh, que logo deveria estar despachando junto a Royal Arms e segue seus passos.

Feito Clarissa, numa tarde, ensolarada voltamos em meio de St. James Park, e em meio a árvores, relva, também nos interessamos por música e poesia, tivemos nosso piquinique, sem que pudéssemo nos furtar das divagações sobre liberdade junto a fonte do jardim…
As árvore desenhando o outono
o lago iluminando o semblante
um ninho de gente anunciando vida,
enquanto no olhar de uma raposa nos chega, novamente, a finita realidade,
logo escureceria, os portões se fechariam, restariam as rosas, os livros e a escritura…
e o eco
… Não, agora nunca mais diria, de ninguém neste mundo, que eram isto ou aquilo… Passava como uma navalha através de tudo; e ao mesmo tempo ficava de fora, olhando. Tinha a perpétua sensação, enquanto olhava os carros, de estar fora longe e sozinha no meio do mar; sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse… mas como absorvia aquilo, os carros passando… e não diria de si mesma: sou isto, sou aquilo…O seu único dom era conhecer as criaturas quase por instinto, pensava, seguindo seu caminho…

Novamente, fechamos o livro, deixamos a raposa e as rosas estendidas ao vento e atravessamos o parque em direção ao Green Park, seguindo o caminho do sol…

E de repente, alguém no parque, sentando em um banco qualquer nos retorna aos delírios de Septimus Warren Smith , um veterano de guerra que surge para nos lembrar da guerra, da loucura, da tristeza de Virginia Woolf, vivendo em uma sociedade patriarcal, autoritária, onde a mulher custava a escutar sua voz. Ambos desejavam outra vida, desejavam fugir da coerção e mesmo assim, consciente dos vazios de sua vida social, Clarissa segue capaz tanto de lirismo quanto de tristeza ao caminho de suas flores.
Junho fizera brotar todas as folhas nas árvores. As mães de Pimlico amamentavam os filhos. Transmitiam-se mensagens da Frota para o Almirantado. Arlington Street e Piccadilly pareciam amornar o próprio ar do Parque e alçar-lhes as folhas ardentemente, luminosamente, nas ondas dessa divina vitalidade que Clarissa amava. Dançar, cavalgar, tinha adorado tudo isso…
Para nós eram 16 horas, início de outono, momento em que as folhas começam a se espreguiçar no solo, quando chegamos aos portões do Parque,como Clarissa, nos detivemos um momento olhando os ônibus de Piccadilly e atravessando o movimento de Londres ao findar da tarde.
O dia ainda estava radiante, e ainda com o sol por testemunha, ziguezagueamos entre muitos cabs, passantes, ônibus vermelhos de dois andares, símbolo de Londres em direção à Bond Street no coração de Mayfair.
Caminhamos em busca da vitrina de Hatchard a cata de livros para sonhar, mas não encontramos, então seguimos à Piccadilly e na altura do Hotel Ritz, atravessamos em direção a Bond Street.

Seguimos nossa caminhada, comentando que Clarissa, hoje, passeando por lá, certamente levaria um susto, mas também se sentiria orgulhosa por todas as lojas que lá se encontram. Passamos por muitas lojas de roupas, no entanto não reconhecemos a loja que, por 50 anos seu pai costumava freqüentar, menos ainda encontramos os salmões abrigados em barra de gelo. No entanto, as bandeiras das lojas seguem tremulando…

E que lojas!!!


A loja de flores que Mrs. Dalloway comprava não existe mais. Mas, fica claro que elas deixaram rastros e aromas. É! Os tempos mudaram, mas certamente, hoje as flores de Clarissa são outras e devem seguir perfumando muitas festas…

E quando nos deparamos com uma tela, lembramos de Clarissa em frente a uma tela holandesa:
Oh! Se pudesse viver de novo! pensou, ao pisar a rua, como não havia de ser diferente!Antes de tudo, seria morena como Lady Bexborough, serena, imponente… era verdade que estava em forma; e tinha lindas mãos e lindos pés; e vestia-se bem, considerando o pouco que gastava. Mas muitas vezes aquele corpo que habitava, aquele corpo, com toda a sua consistência, não parecia nada – absolutamente nada. Tinha a esquisita sensação de estar invisível, despercebida; desconhecida; de não ser mais casada, não ter mais filhos agora, apenas aquela espantosa e um tanto solene marcha com os demais, por Bond Street, ser esta Mrs. Dalloway; nem mais Clarissa: Mrs. Dalloway somente.

Seguimos mais uns passos pela New Bond Sreet, além de muitas sirenes, ao colocar o pé na rua, antes de atravessarmos, escutamos o ruído de um motor, retornamos à calçada e pela placa da rua percebemos que estávamos na Brook Street , onde Lady Burton mora e onde Richard Dalloway e Hugh Whitbread estiveram almoçando com Lady Burton.

Nesse momento, percebemos o adiantar da hora, olhamos o relógio e retomamos o caminho, atravessamos a Piccadilly em direção à St. James Street até The London Library para devolver o livro à Virgínia Woolf.

Rumamos para o Ritz Hotel, trocamos de roupa e seguimos para a Festa de Clarissa Dalloway…
Crônica: Carmen Silvia Presotto
Fotografia: Ricardo Hegenbart
abril 23rd, 2010 at 12:46
Carmen, que delícia de passeio!!! Que sonho, quero muito conhecer essa Londres que você nos apresenta!! Sou muito fã desse romance(?) de Virginia Wolf, uma delícia.
Um beijo pra você.
abril 23rd, 2010 at 13:14
Fernanda, olhares como o teu é que nos levam a passear e registrar os momentos de Clarissa Dalloway.
Um beijo amigo e companheiro e obrigada pela companhia.
Carmen Silvia Presotto
abril 23rd, 2010 at 13:22
lindo, lindo, lindo demais! saudades infinitas de londres…
beijos pra vocês!
andréia
abril 23rd, 2010 at 15:37
Oi Carmen, lindas palavras, acabei de passear com voces em Londres….gracias
abril 23rd, 2010 at 16:56
Lindas fotos e texto! deu vontade de caminhar contigo (e com Clarissa) pelas ruas de Londres.
Mara
agosto 18th, 2010 at 22:22
Carmem,
Que passei nostálgico…
Foi como uma linda ilusão…
A medida que lia…
Me senti nas páginas do livro…
Como esta experiência teve ter sido maravilhosa pra você!
Obrigada por dividí-la…
Virginia Wolf, sondava as mentes… E a nossa mente.
julho 3rd, 2011 at 23:47
Eu fiquei toda arrepiada com sua crônica, imaginei o cheiro do lugar, senti-me dentro do livro
muito encantador ..realmente Carmen ela sondava nossas mentes tanto que as vezes ela consegue me assustar ( no bom sentido )ela é esplêndida e você é muito contagiente também bjos
fiquei muito grata por ter me apresentado
julho 4th, 2011 at 16:34
Yanna que bom seguir os passos de Virgia Woolf sempre, fico feliz com tua leitura, um beijo e boa semana.
Carmen.
julho 4th, 2011 at 16:35
Yanna que bom seguir os passos de Virginia Woolf sempre, fico feliz com tua leitura, um beijo e boa semana.
Carmen.