a sedução maligna, segundo capítulo em Interiores

2- A SEDUÇÃO MALIGNA E OS TRAUMAS ORIGINAIS
por Luiza Moura

Picasso.Guernica2

A base para o estabelecimento da compulsão à repetição com implicações mórbidas está nos primeiros contatos entre a criança e um mundo adulto não acolhedor.

E, neste sentido, a futura vítima e o futuro agressor tiveram experiências semelhantes. Refiro-me a vivências traumáticas arcaicas, que levaram a arranjos defensivos catastróficos.

Para Bollas (1992a), as ações traumatogênicas de adultos agressores geram o “enlodamento” do que ele chama de “pantalha em branco generadora” (1992a). Este autor faz uma relação entre este seu conceito de “pantalha em branco” com a concepção de uma inocência básica inerente à infância. Neste sentido, o “enlodamento da pantalha” consiste em uma invasão real traumática que leva a uma perda prematura da inocência da criança.

Eu entendo que esta “pantalha”, ou este espaço de inocência preservada, é potencialmente um lugar de recolhimento interno, onde a ilusão originária se manteria viva, e, a partir de onde, nasceria a confiança no próprio potencial criativo.

8537201677

Leiam o livro, leiam todo o artigo



Sugiro que a capacidade de suportar a complexização natural do desenvolvimento, cognitivo e emocional, depende diretamente da existência deste refúgio interno, onde é possível buscar um descanso que assegurará sempre o retorno.

Podemos pensar que, enquanto a intrusão traumática coloca a criança frente a uma complexidade insuportável, a correspondente reação defensiva interna, forja um novo arranjo psíquico onde o lugar de recolhimento, fonte de criatividade e de auto-confiança, será sacrificado.

Sob esta ótica, evidencia-se a potência devastadora do movimento intrapsíquico, desencadeado em resposta ao ato agressivo.
Este processo de ameaça ao local de refúgio interior traz em si fortes repercussões mórbidas. Estas pessoas terão, para sempre, grande dificuldade em tolerar a complexização comum ao ser e viver, e serão extremamente vulneráveis à promessa de simplificação que está na base da “sedução maligna”.

Nesta mesma direção, enfocando os arranjos internos que buscam dar conta da ação traumática externa, S. Ferenczi (1932) assinala que uma vez que, para as crianças, é praticamente impossível uma alteração aloplástica (no ambiente externo), o que se dará é uma catastrófica alteração autoplástica (no interior de um psiquismo incipiente).

Na tentativa de manter a situação traumática sob controle, o psiquismo processará uma identificação com o adulto agressor (Ferenczi, 1932); concomitantemente, ocorrerá uma cisão, visando manter intacta, ao menos, uma parcela do “eu”.

Podemos apontar uma aproximação entre o conceito de identificação com o agressor, que inevitavelmente contaminará a criança com a culpa que o adulto foi incapaz de sentir, e o conceito de enlodamento da pantalha ou perda (desapropriação) prematura da inocência infantil.

Ainda segundo Ferenczi, esta identificação poderá se dar tanto com a pessoa do agressor, como com o desejo do agressor (Ferenczi, 1932); o que acredito que será fundamental na definição futura dos dois diferentes e complementares perfis envolvidos na “sedução maligna” .

Penso que estes movimentos de identificação, com predominância ativa ou passiva, além de serem determinados por uma maior ou menor motilidade natural da criança, serão estabelecidos sob influência do nível de integridade do ambiente circundante, das suas mensagens explícitas ou veladas, e dos ganhos secundários surgidos no percurso pós-traumático, ou no transcorrer do traumático.

Assim, a vivência traumática, pontual ou continuada, e a forma como o ambiente irá receber a criança abusada (física e/ou psicologicamente) terá um papel fundamental na caracterização dos dois distintos perfis, contribuindo, inclusive, para a configuração de psicopatologias, algumas vezes, irreversíveis.

Nestes casos extremos, os ganhos secundários, acumulados através da história, irão soterrando as necessidades iniciais, e, inviabilizando o contato com as partes autênticas do “eu” que se partiu.

Deixe seu comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Untitled Document
Home | PhotoPoemas | Clube de Leituras | Projeto Vidráguas | Publicações | YouTube | Contato

Tivemos 6.324.885 visitas desde 14/01/2009
Todos os direitos reservados. Copyright ©
Analista de Sistemas Rúbia Formigheri

Rua Francisco Ferrer, 441/507.
Rio Branco - Porto Alegre / RS
Telefone (51) 3392 3727