Archive for maio 13th, 2010

já se ouve cantar o negro, Versos Cecílicos…

Romance VII ou Do Negro Nas Catas

sebastiao-salgado

Já se ouve cantar o negro,
mas inda vem longe o dia.
Será pela estrela d’alva,
com seus raios de alegria?
Será por algum diamante
a arder, na aurora tão fria?

Já se ouve cantar o negro,
pela agreste imensidão.
Seus donos estão dormindo:
quem sabe o que sonharão!
Mas os feitores espiam,
de olhos pregados no chão.

Já se ouve cantar o negro.
Que saudade, pela serra!
Os corpos, naquelas águas,
- as almas, por longe terra.
Em cada vida de escravo,
que surda, perdida guerra!

Já se ouve cantar o negro.
Por onde se encontrarão
essas estrelas sem jaça
que livram da escravidão,
pedras que, melhor que os homens,
trazem luz no coração?

Já se ouve cantar o negro.
Chora neblina, a alvorada.
Pedra miúda não vale:
liberdade é pedra grada…
(A terra toda mexida,
a água toda revirada…

Deus do céu, como é possível
penar tanto e não ter nada!)

Poema de Ceccília Meireles, p.p. 175 e 176, Romanceiro da Inconfidencia,Cecília Meireles Antologia Poética, Nova
Fronteira.

Fotografia: Sebastião Salgado

pensando a Poesia com Bárbara Lia

Barbara 3

O que é Poesia?

A poesia é o meu ar. Minha forma de expressão. Meu jeito de dizer e narrar e questionar e transformar a realidade ao redor e assim alumbrar almas. Manoel de Barros fala deste – deslumbrar – que a poesia deve causar. Para mim a poesia se apresentou com muitas faces e de diversas maneiras. Na infância era um assombro em forma de épicos que meu pai recitava pela casa bem como a mãe dele – minha avó fantasmagórica – que tinha o dramático atado ao ombro em fragmentos de Camões e versos de Alan Poe. Não me via capaz de escrever um épico. Eu jamais seria Castro Alves ou Gonçalves Dias, penso que isto distraiu meu destino. Confesso que sentia um fascínio incrível por aquilo e meu pensamento menino, a primeira idéia de – o que vou fazer quando crescer? – era mesmo ser escritora. Narrar belas histórias que tocasse as pessoas, como eu me sentia tocada pelos versos e livros. Décadas de sonho engavetado e a poesia veio ao meu encontro, eu já passava dos trinta e cinco anos – alguns versos rabiscados aos vinte se perderam, um único foi salvo por uma amiga que o guardou por 25 anos. Já vivi meio século e a poesia esteve sempre ao lado. A poesia está em lugares inimagináveis. Posso dizer que ela tornou minha vida suportável.
(O que é poesia? – Confraria do Vento/2009 – organização – Edson Cruz)

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Leiam todo o recorte, conheçam mais da Autora e sua Obra:

http://www.chaparaasborboletas.blogspot.com/

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hoje, um poema de Eugénio de Andrade

O caminho das dunas

DUNAS

Há um barco
há um homem nas areias.
Obscuramente aprende
a morrer onde as águas são mais duras.
Sei que é verão pelo hálito da loucura
o brilho em declínio das giestas
a caminho das dunas.
O homem adormecido
e a noite do poema eram de vidro.

Poema de Eugénio de Andrade.

Leiam mais poemas deste autor em O Sal da Língua:

http://saldalingua.wordpress.com/