quando os versos conVersam ampliamos a Poesia…

Uma leitura em Espiral, poemas de Luiz Otávio Oliani
por António Amaral Tavares (Portugal)http://acasaquecaminha.blogspot.com/

CAPA ESPIRAL, LUIZ OTVIO OLIANI
“Na poesia de Luiz Otávio Oliani, não se ouve o escopro ou o cinzel trabalhando a pedra, nem o polir da madeira ou o cortar das sebes. Abafa-se esse ruído. Esse é de bastidores, de mãos a trabalhar, de um progredir de ideias.

Na sua poesia as palavras saiem para a rua limpas de sangue e de poeiras de oficina ou de caminhar, para que nada desvie a atenção do leitor do núcleo do poema. Exige para isso, economia nas palavras e síntese nas emoções. E por acreditar que o leitor é inteligente, liberta o poema de pontuação excessiva, grafismos ou palavras supérfluas, holofotes que lhes apontem a primazia de uma face, uma estrada, uma parede do poema; na pele do poema não se vêem marcas de esforço ou cicatrizes da luta com o poeta, pelo que as palavras aparentam não terem a importância que realmente têm e que uma leitura atenta atestará.

Os poemas de Oliani são curtos, não por toda esta economia linguística, mas porque, na maior parte das vezes, o poeta procura a luz indivisível dos elementos que lhe compõem a colheita. Não encontrarão vastos lamaçais na poesia de Oliani.

E os poemas de Oliani são curtos, não porque o poeta se faça ouvir no silêncio entre as palavras (essa é uma tarefa mais para o leitor), mas porque as palavras que escreve são varas incontornáveis no caminho do poema: “a poesia não dorme / enquanto o verbo não sacia / a fome louca de gritar” (Enigma).”

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* Enigma
Luiz Otávio Oliani

a poesia não dorme
enquanto o verbo não sacia
a fome louca de gritar

a poesia é grito
feito em surdina

clausura
nascida das mãos

sinônimo
do silêncio
entrecortado em raízes

lenitivo,
espera, soluço:
é tudo que não se define

* In: Espiral, Editora da Palavra, Rio de Janeiro, 2009.

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