Brigite…
Brigite
por Fernanda Marra

Brigite de peitos fartos pensa que o mais relavante em envelhecer é as palavras irem ficando à ponta da língua, a sincronia da ideia com o que se pronuncia, tornar-se uma mulher mais tempestiva, menos alcorão. O que Brigite não sabe é onde alocar suas adequações num mundo tão assintosamente desajeitado. Ela obedece, age, busca o rumo e ainda se frustra por só ser ignorada. Faz como quem tem certeza, mas só de não conhecer razão.
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ou no blog da autora:
http://www.mareseressacas.blogspot.com/
Brigite abre o guarda-roupa, escolhe um vestido de estampa, um chapéu e um salto anão. Dispensa os acessórios, prefere seu corpo livre dos penduricalhos que balangam e tiram um pouco sua atenção. É uma mulher que espoca, muitos focos que exigem o suor dos nervos quando abraçam as terminações. Faz um gesto ao espelho, mira mais que admira a dislexia das cores, a absurda descombinação. Faz um plié para ajeitar o absorvente na calcinha, confere as axilas – ninguém vai notar – sai satisfeita com a marmota do cabelo e a dúvida com chapéu na mão.
Brigite vai longe e sem pressa, vai com o que é dela e não recusa empréstimos. Abre a porta da rua e o que sente é quase aconchego, é liberdade, é bem-estar. Muito a vontade com as calçadas desmontadas e o tamanho do cabelo, Brigite vibra com o tráfego a sua esquerda, sente prazer no meio das pernas com a trepidação. O que ela acredita, não abre mão de acreditar, é que finalmente arrumou lugar onde existir, ereta e apropriada, encontra seu prumo num prisma em que se multiplica, por vezes até sem se dividir. No passeio, veste o chapéu cobrindo as manchas da lobotomia e entorna até o não quando a luz se nega.
maio 29th, 2010 at 17:51
Carmen, obrigada, querida, eu adoro estar aqui!
Grande beijo!