Nova Iorque, Nova Iorque, uma cartografia poética

* Obrigado António por esta Cartografia Poética, em imagens que conVersam sempre teremos ótimas viagens!!!

NOVA IORQUE NOVA IORQUE
por António Amaral Tavares

Mas há a distância, e a distância inventa cidades,
como muito bem sabemos.

José Cardoso Pires

Samuel Herman Gottscho _2
(Samuel Herman Gottscho)

Sem sair de casa acontece o encontro e poderia eu nunca ter saído da aldeia
mas olho aquele canavial para trás do qual ouço murmúrios de água
e vejo um vão escuro que a tempos se ilumina no clarão de algum olhar é assim um clarão Nova Iorque esse que vejo e vê quem desde sempre lá morou.

Sou um nova-iorquino de coração. Vou à janela de minha casa e vejo o rio Hudson
na sua viagem larga e poluída carregando a flor do tempo ferido como um rio quase no mar.

autor desconhecido_1
(autor desconhecido)

É manhã e vejo um falcão-peregrino sobrevoar a humidade das ruas onde a geada se demora
e a cidade que acorda e com o gesto largo de um braço traça uma rota de luz.

Vejo os navios estacionados no cais como pequenos dedos viajantes que de tempos
a tempos abandonam este corpo longo que tocam voltando para o mar.

Leiam toda a Cartografia Poética


Zbigniew Kosc_1
(Zbigniew Kosc)

Vejo a corrente de pessoas desembarcar em Manhattan vindo de Coney Island ou Brooklyn
a chama de cobre que os turistas da Estátua da Liberdade e teatros da Broadway procuram
e atravessar as ruas com os seus olhos de fumo e as suas mãos de papel
para quem olha do topo do Chrysler Building.

Vejo a corrente de automóveis e no meio Central Park como um peixe verde
ardendo em gasolina fábula de amantes de dia e de bandidos à noite lugar tão unido à cidade como a memória da água traz a sua voz unida à pedra.

amyandmacegreen
(Amyandmacegreen)

Na Primavera os jardins de terraço florescem onde há mãos dedicadas ao antigo amor
de entregar à terra o mistério de uma ave que não partisse nunca daquelas casas
e a cidade guarda estes espaços que da rua se não vêem como vozes de um canto
que não quer ser ouvido pelo movimento cego dos que passam
esses lugares de onde se avista o horizonte.

Zbigniew Kosc_2
(Zbigniew Kosc)

Há aqui quadros lendários. O da neve que não esquece a cidade.
As escadas de incêndio nos rostos em que a memória se encontra com a ferida.
New Jersey distante e próximo separado por um rio de Nova Iorque como o olhar do espelho em que se vê.
É uma cidade esboçada pelos rios que entardece e a sombra do falcão-peregrino
sobre a nudez das ruas lembra a todos a respiração una da terra.

lewis hine
(Lewis Hine)

À noite o lixo é recolhido e leva com ele a cicatriz do frio pálido dos espíritos e das ruas
dos vãos de escada na entrada para os prédios e nos corredores que separam as casas.

Os sem-abrigo longe no fundo do escuro habitam o mundo e para dormir
puxam para si a luz muito branca roubada aos pombos e com que se agasalham.

Eu queria falar a todo o custo de tudo o que nesta cidade guarda um espaço interior que se ocupa
seja uma pedra do rio uma janela fechada sobre a rua um gesto que acompanhe uma nuvem
se vejo o perfil da cidade a partir da baía
ou do passeio de Brooklyn penso que talvez
sejam fantásticas as pessoas que habitam uma cidade
que é uma escultura de cidade assim
e penso se elas existirão mesmo como em pequeno imaginava
a existência do super-homem ou do capitão-américa mais humano depois olho mais para o interior onde os edifícios se rendem mais à condição das mãos
e onde a neve por vezes é escura e vejo corações mais próximos das palavras
e caixas torácicas inevitáveis mas que nem por isso se perdem na meta do real.

Haverá porventura um espírito que guarda esta cidade.

Danny Lyon
(Danny Lyon)

Dizem-me que evite o Harlem ou o Bronx.
Dizem-me que frequente os táxis para ver os olhos amarelos dos taxistas.
Que frequente o metropolitano se quiser ver Nova Iorque de olhos fechados.
Que visite os mercados como um baptismo matinal e esses lugares
e ruas que me atravessam como irmãos espaços de mim.

autor desconhecido_2

Que atravesse o East River pela ponte de Brooklyn ou pelo ferry se quiser ver
atravessando as janelas as rotas marinhas dos grandes navios
e ver íntimo dentro de mim o mesmo rio que diariamente é de dentro dos milhares de pessoas que o atravessam e por si acende os portos numa deambulação de multidões e mercadorias.

O falcão-peregrino pousa agora nos ombros anoitecidos da cidade
para colher dos rios adormecidos o sangue verde prometido dos astros iniciais.
Falo da metrópole que habito escrevendo estas palavras em que me vejo passar através das suas ruas no ânimo do trânsito das montras
e das pessoas com que me cruzo assim caminho ao sol e à sombra
e me sento num café ou banco de jardim ouvindo como um nova-iorquino o âmago cardíaco da grande cidade.

Tenho um livro oferecido com poemas de Nova Iorque com o Empire State Building
na capa e na contra-capa numa imagem diurna e outra nocturna
e penso que a poesia pertence a Nova Iorque como o sagrado pertence ao rio Ganges.

fairchild aerial surveys inc

Ouve-se o rumor de uma cidade e sabe-se que lhe pertence como
se sabe que um rumor de asas pertence a uma ave ou um estampido a uma arma.

Samuel Herman Gottscho _1
(Samuel Herman Gottscho)

Vou à janela de minha casa e vejo uma cidade que cresceu à proporção
da distância ao canto dos pássaros que um dia se ouvirá.
E vejo o rio Hudson subir o leito rumo à nascente muito para o interior por ao olhar Nova Iorque e o Empire State no conjunto de arranha-céus ao redor
haver uma visão iluminada desse escuro vão como um olhar esclarecido sobre as águas
cujo rumor se lê no brilho pardo da cidade para a qual o tempo cavou em nós um buraco
a história que sem palavras se conta pela chama acesa dentro dos seixos polidos do rio.

Leiam mais poemas do autor em A casa que caminha:
http://acasaquecaminha.blogspot.com/

Tags: , , , , ,

uma resposta para “Nova Iorque, Nova Iorque, uma cartografia poética”

  1. Nydia Bonetti Says:

    a distância inventa mundos… vou correndo ler tudo! beijos, carmem.

deixe um recado