reflexões de leituras
Pensando o medo com Freud
por Carmen Silvia Presotto

Em 1911, em Os Dois Princípios do Suceder Psíquico, Freud revela que toda a neurose tem como finalidade afastar o enfermo da vida real, tornando-lhe um estranho em frente a realidade. O que se pode entender que o neurótico se afasta da realidade, onde é um fragmento da mesma em virtude de não poder suportá-la… Porém, toda a neurose e todo o neurótico se conduz de modo idêntico a um fragmento da própria realidade. E isso não é exclusivo, é para todos.
Relendo Freud, novamente, surge um espelho entre o virtual e o sinistro e a tarefa em mim de investigar a trajetória da relação do neurótico e se neurótico somos todos, constatar isso dói… Talvez, por isso evitamos e protelamos essa dor psíquica que é a da separação e a colocamos em órgãos.
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Todos os humanos, mais cedo ou mais tarde, tendem a se enfrentar com essa realidade psíquica e não tangível, mas sim perceptível através de sensações e por saber que ela dói, às vezes colocamos viseiras, colocando-as nas gavetas, nas prateleiras, nas coisas e para retê-la usamos nosso corpo como escudo e assim mesmo, sinto dizer!, a acolhemos na carne em forma de doenças e dores físicas e racionais, porém quando começamos a perceber que há outro campo que é o CORPO DA LINGUAGEM, usaremos significantes menos sangrentos que nossa carne, usaremos palavras que nos inscrevam no REAL, porque então compreendemos que uma significação da psiquê busca um sentido, um caminho para se exteriorizar e ter ar no tempo em que sentimos e vivemos, mas se não trabalharmos por nossas carências, seremos presas fáceis do medo, da angústia, da insônia, de doenças e solidões.
Ao percebermos as bordas de uma escritura, algo se romperá do inconsciente para dizer dele e de seu funcionamento e dessa manifesta ação onde o eu e o isso pulsam, querendo circular, ganhar ar, é que poderá haver algum significante que nos ordene feito palavras, senão eles se inscreverão assim mesmo em ESCAPISMOS! FUGAS! ILUSÕES que tornam a vida um constante sonho, um vazio no concreto.
Se há uma escuta, se preenche esse vazio que nos constitui, mas nem sempre haverá meias palavras, metáforas, como nem sempre haverá deslocamentos, metonímias, rupturas. Às vezes, poderá haver pleonasmos, redundâncias, repetições, colagens, plágios, fixas ações que poderão ser cópias, simples cópias ou feridas tratadas. Células loucas, delirantes em busca de algo que as acalme, que as controle do medo e já que o desejo não tem porto definido, poderá ele se ancorar em provisórios objetos, em pedaços, em poções de um corpo, em um órgão que teme ter medo e por isso ENFORMA, enferma, adultera as convivências a um único sentido, onde pais, mães, família, igreja, estado as querem grandes e quadradas feito poema qualquer.
As querem uma criança natural dos tempos, criatura que já nasce envelopada antes que caia suas fraldas ou…
Enfrentamos o medo e passamos no vestibular da vida, aquele que nos diz mais verdadeiros e próximos de um desejo de viver que nos possibilita acreditar que o trabalho nos inventa, nos insere a uma nova realidade por acreditarmos que se temos medo, somos humanos.
Assim, sem sobressaltos. Sem exclusividades, perceberemos que o natural é temer o que ainda não conhecemos, a grande diferença é como e onde colocamos o nosso medo. Feito isso podemos compreender que “ALGO FICA PARA TRÁS QUANDO UM CAMINHO ADIANTE” nos dá medo.