pensando a Poesia de Cecília Meireles com Dileta Silveira Martins

PENSANDO A POESIA DOS DOZE NOTURNOS DA HOLANDA DE CECÍLIA MEIRELES COM DILETA SILVEIRA MARTINS

Interpretar é desvelar uma significância possível no texto dito poético. Nisso reside a sensibilidade do analista de extrair de um tipo particular de discurso – o poema – o conteúdo do ato criador e a reelaboração do processo linguístico, através de possibilidades múltiplas, consubstanciadas no próprio poema.

No poema Doze Noturnos da Holanda pressente-se, pela leitura global, que o título está ligado a uma visão panorâmica das noites insones, vivenciadas pela poeta, no país dos moinhos, dos diques e dos canais através de evocações, lirismo e musicalidade.

O conjunto poemático abre-se para uma significância que se cristaliza no título: Doze Noturnos, ou seja, as noites versificadas em doze composiçoes poéticas. Associa-se a isso a leveza polifônica dos versos como metáforas de vida e morte, debuxados em construções musicais de caráter evocativo e revelador: noturnos. Nos poemas Doze Noturnos da Holanda apreende-se, no encadeamento sêmico a consciência da fluidez do tempo, desvelada criativamente, numa relaçao nostálgica entre o humano e o temporal, expressa na universalidade e na condição efêmera da vida.

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Nisso instala-se uma dualidade eufêmica que posiciona,antiteticamente, dia X noite como equivalência de vida X morte. Passo a passo a poeta vai bordando a idéia da fugacidade da vida, instalada na negação ser-não-ser, como símbolo de DIA = VIDA X MORTE = NOITE. Ao mesmo tempo, há uma sintonia entre humano e inumano, que se incorpora no mundo individual e no mundo físico.

Assim fundem-se e confundem-se a fragilidade da existência e a materialização das coisas que, vertical e horizontalmente, desvelam a realidade sentida e negada pela poeta.

No desvelamento dos poemas Doze Noturnos da Holanda – Poema Oito, instaura-se uma estrutura lógico-significativa que emoldura um novo espaço de produção de sentido – o texto poético – aberto a um processo múltiplo de cruzamento de textos e do qual emerge a arte e a criatividade do poema ceciliano. Vertical e horizontalmente levantamos uma identidade sêmica que se entrecruza em todos os versos, desenhando na musicalidade e no lirismo da poeta todas as suas indagações, afirmativas e inquietudes existenciais.

Dessa forma o homem – condição primeira da mecânica do universo – símbolo de vida, inscreve-se numa dualidade que contorna, semanticamente, todas as apresentações poéticas: VIDA X MORTE. Dualismo esse que esparrama sua simbologia no mundo dos seres e das coisas e estabelece, na re-leitura do texto de Cecília Meireles, um matiz expressivo para a modernidade, haja vista a intensa valorização dos signos e o desequilíbrio das funções gramaticais, revitalizando a força do sema (*) comum nos noturnos da Holanda: efêmero.

(*) sema significa a unidade mínima de significaçao que integra o significado de uma forma linguística.

FONTE: MARTINS, Dileta Silveira Uma re-leitura da poesia ceciliana Revista Veritas – Porto Alegre, v.29, n° 113, março 1984, p. 85, 86, 87, 101, 102 (recortes) .

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