Trip for Dylon, uma cartografia poética…

*Rossana, um beijo e obrigada pela companhia e a viagem em letras e imagens!!!

Trip for Dylan
por Rossana Basso Benevenutti

Expectativa a mil

Tudo teve início numa noite de trabalho, enquanto o rádio transmitia a programação cultural que estava por vir: Bob Dylan faria três shows na Itália. Todos eram bem pertinho de onde moro, Bologna. Naquele momento tive a certeza de que assistiria a algum deles, bastava contar com a boa vontade de algum colega que aceitasse trocar seu dia de folga pelo meu. As opções eram Padova, Parma ou Viareggio, e optei por este último, litoral de Lucca, na Toscana. Também para poder colocar os pés na praia em uma oportunidade como essa.

De bilhete na mao

Com o ingresso comprado, comecei a organizar o que chamei de “Trip for Dylan” – viagem para Dylan, por Dylan – era por ele que eu ia reservar um quarto de hotel, sair de casa cedinho, pegar um trem que faria várias paradas, caminhar sob o sol com uma mochila pesada nas costas e fazer tantas outras coisas com sabor de aventura.

Leia toda a cartográfia poética


Na noite anterior à partida, preparei a mochila. Foi um tanto complicado fazer entrar em um pequeno espaço tantos sonhos, desejos e planos para apenas 24 horas. Na tal mochila deveria caber roupa e apetrechos de praia, ipod e livros para os momentos dentro do trem e na beira da praia, bloco de anotações, caneta, duas máquinas fotográficas – uma grande e mais eficaz para o dia, durante o possível “magnífico dia de praia” e outra pequena para tirar fotos do show sem chamar muita atenção, caso fosse proibido fotografar – e notebook para a noite no hotel – imaginei fazer uma videoconferência com minha irmã no Brasil e contar todos os mínimos detalhes da Trip for Dylan – o que não aconteceu porque nem sequer tinha internet no hotel. A idéia era experimentar todos os pratos típicos da região, parar em um charmoso café para saborear um cremoso cappuccino, tomar um refrescante sorvete na praia. Tempo para tudo isso?

Acabei conseguindo fechar a mochila e também os olhos – foi difícil baixar a adrenalina, me sentia como uma adolescente prestes a fazer um intercâmbio em outro continente, com louca vontade de entrar no trem e partir ao encontro de Dylan.

Consegui chegar à estação em tempo de conferir o trilho de onde saia o trem e de escolher a poltrona certa para viajar ao som de Dylan, claro, olhando a paisagem da Toscana, plena de estufas de flores e casas perdidas no campo. Como é bom viajar! Na troca de trem, em Prato, uma cidadezinha perto de Firenze, conheci um rapaz que tinha abandonado tudo para fazer tripping, quando se escolhe um lugar ao acaso no mapa, se pega um trem e se parte! E dali, se faz a mesma coisa, e depois de novo e de novo até cansar. Viareggio, cheguei! Nem sombra da chuva que ameaçava o céu durante toda viagem. Fazia calor e tinha um agradável solzinho que se misturando ao aroma do mar, me deu a certeza de estar chegando ao paraíso. Meu único compromisso: o show. Me dirigi a um posto de informações na própria estação de trem, adquiri um mapa e fui encontrar o hotel. No caminho, aproveitei pra registrar algumas imagens da cidade – um amor: pequena na medida certa, silenciosa, repleta de árvores floridas e casinhas coloridas.

Achei o hotel, ficava á distância de uma praça da orla, cheia de restaurantes e estabelecimentos para aluguel de cadeiras de praia e guarda-sóis. Na recepção, com um pessoal muito cordial, me informei sobre as distâncias que teria que enfrentar logo em seguida para chegar ao show, em um local chamado Cittadela del Carnevale, onde todo ano fazem desfile de carnaval.

Com companhia

O sol já não estava tão forte quando me dirigi à praia, havia um vento danado, mas somente o fato de estar ali valia mais do que qualquer banho de sol ou de mar. Depois sai em busca de um belo almoço praiano: não resisti aos apelos de meu bom sangue brasileiro e me rendi a uma cestinha de frutos do mar fritos e a um belo copo de cerveja gelada – um banquete. Fiquei ali, sentindo o prazer daquele momento tranqüilo e saboroso, na companhia das inúmeras pombas que imploravam por um pedacinho de lula à milanesa. Depois, na beira da praia, ouvi música, li e tirei fotos, até voltar ao hotel e me preparar para o grande momento.

Eu queria sentar perto do palco, então, precisava chegar cedo. Embarquei, na frente do hotel, em um ônibus que me levou até a Cittadela del Carnevale Cheguei lá duas horas antes do show e a fila já era assustadora. Notei que ali estavam pessoas de diversas gerações, que dividiam a mesma paixão, e isso me arrepiou. Eu estava prestes a ver e ouvir um cara que revolucionou o modo de fazer música ao seu tempo, um gênio que soube aproveitar as oportunidades que a vida proporcionou e mais, alguém que foi atrás do que acreditava. Basta pensar na quantidade de canções que escreveu, no número de CDs que lançou e no tempo em que está na estrada, fazendo o que parece ser, literalmente, um “never ending tour”. O fato de estar prestes a ouvi-lo já me fez sentir conquistando um premio. Mas quando ele estava na minha frente, presenteando meus ouvidos, fez a imaginação voar e mais, muito mais.

Ele

Eu o enxergava relativamente de longe e por isso não era possível ver os detalhes de seu rosto, entretanto tinha a nítida impressão de estar vendo-o há 40 anos. Com a guitarra e o chapéu estilo cowboy, era a figura sem tirar nem botar da capa de Nashville Skyline, onde estava particularmente atraente. Consegui imaginar seu sorriso enigmático, a fresta que deixa escapar um pouco dos seus mistérios. E quando sua gaita entrava em cena, o mundo se derretia. Era um momento para ser colhido de olhos fechados, deixando o corpo livre pra se mover do jeito que preferisse. O público estava no céu. Muitos, assim que sentiram a sua entrada no palco, correram para a frente. Estes, e muitíssimos outros, como eu, permaneceram em pé durante todo o show, cantando e dançando. Outros aproveitaram o intervalo entre as músicas para pedir que o pessoal se sentasse, mas foi como pedir algo impraticável, não cedemos.

De gaita na boca


A banda que o acompanhava era fantástica, tocava muito bem. Todos estavam vestidos com uma espécie de uniforme, estilo banda antiga. O próprio Dylan disse uma vez que, mesmo jovenzinho, tinha algo de velho, cantava como um velho e se inspirava no que já era fora de moda. No show, Bob Dylan se dividiu entre teclado, guitarra e, obviamente, a gaita de boca. Ouvi pessoas comentando que “nesse show ele pode tocar guitarra, sinal que estava melhor dos problemas nas costas”. Não estamos falando de um menininho, de uma sensação do momento. Ele é Bob Dylan e tem 69 anos!

Ele cantou por duas horas e não ficou restrito a seus mega sucessos. Foi interessante notar como algumas canções se transformavam ao som da sua voz “atual”, envelhecida, rouca. E não era apenas a voz que estava diferente. Pode-se dizer que as músicas estavam sendo “revisitadas”, mas com uma liberdade de interpretação que não deixava em nada a desejar às versões originais. Em sua biografia, “Chronicles – volume 1”, ele conta que descobriu uma “técnica” para cantar qualquer uma de suas canções, mesmo aquelas com as quais não tinha contato há anos, sem ficar restrito ao mundo das palavras e transmitir o que para ele parecia ser um estado de transe. Sim, eu pude notar tudo isso. E como foi delicioso entrar em transe!

Essa foi a set list: Rainy Day Women #12 & 35; Señor (Tales Of Yankee Power); Stuck Inside Of Mobile With The Memphis Blues Again; Just Like A Woman; Rollin’ And Tumblin’; Shelter From The Storm; Honest With Me; Man In The Long Black Coat; Desolation Row; Highway 61 Revisited; Not Dark Yet; Thunder On The Mountain; Ballad Of A Thin Man; Bis; Like A Rolling Stone; Blowin’ In The Wind.

Uma maneira um tanto exagerada, mas sincera, de explicar o que senti, foi estar fazendo parte da história. É como se existisse um pedacinho vazio dentro mim que esperasse para ser preenchido por essa experiência. Nunca havia sentido isso antes, esse senso de divindade que algumas pessoas são capazes de emanar. Sentindo tudo isso, eu, pobre criatura (fazendo parte da história!), tentei imaginar o que se passava em sua cabeça: deve ser uma sensação muito particular dar-se conta de poder, quase, mover moinhos.



Voltei a pé do show. Acho que levitei por 3 km até chegar ao hotel. Dylan me acompanhou, suas canções retumbavam na minha cabeça. Eram ótimas sensações estranhas, um senso de abertura e ligação com o mundo. Uma ânsia por estar sempre conectada com aquilo que vem “blowing in the wind”.

Fotografias da autora.

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9 respostas para “Trip for Dylon, uma cartografia poética…”

  1. berenice sica lamas Says:

    genial, rossana… que experiencia estupenda, excelente texto e lindas fotos bacio berenice

  2. lorenzo Says:

    rocks!! que experiencia massa hein! vontade de estar por ai contigo e quem sabe sentir e viver também um pouco dessas histórias que muitas vezes apenas o velho mundo nos oferece… lindo texto e incrível tradução de momentos! beijos loren

  3. Sônia Alves Says:

    Oi Rossana!
    Que bom poder viajar contigo, em tua emoção, na realização dos teus sonhos e em tua imensa capacidade de expressá-los.
    Amei ver a tua foto nos presenteando com o teu lindo sorriso, nos mostrando que sempre é tempo de ir em busca do que acreditamos.
    As fotos do Show estão ótimas e obrigada por compartilhar as tuas alegrias que a partir de agora, passam a ser nossas.
    Tudo teve início no Colégio Israelita…
    Rossaninha, a tua vida é um show!!!
    Beijos da tua Morá Sônia

  4. Cris Says:

    Rox!!!!! Liiiindo o texto, vontade de ter estado aí contigo! Fico feliz em saber que tu estás tão feliz aí vivendo todos teus sonhos… beijos, cris!

  5. Graciette Says:

    Oi Rossana
    Adorei a tua aventura! Ótimo texto! Deu para viajar junto contigo. Parabéns pelas fotos tb!

  6. Egle,Zica e Camila Says:

    Rossaninha!

    Acabamos de aterrissar da Trip for Dylon,que” viagem” fantástica! Já sabíamos que viajar em tua companhia seria estupendo,mas conseguiste superar as expectativas! Foi realmente arrepiante,ouvindo a música,então…Só imaginamos o que deves ter sentido ao vivo…
    Estamos orgulhosas da nossa Rozinha que escreve tão lindo que nos faz “viajar na viagem”…Parabéns querida,ah,e as fotos estão lindas,nos sentimos literalmente lá,uma pena que na foto do trem não aparecemos, mas lá na fila a gente se viu contigo!.
    Beijos nossos,e obrigada pela possibilidade da viagem.A Zica manda um beijão bem grande!Nós também!

  7. Heloísa Says:

    Rossana,
    Adorei seu texto, sua narração demonstra toda emoção de estar lá e nos transporta junto. Enquanto relia pude curtir uma das belas músicas de Bob Dylone. Que bom ver vc na foto!!!
    Quanta experiëncia maravilhosa vc está tendo!!Bjão, Heloísa.

  8. Elzy Says:

    Rossana a mamãe coruja me enviou a tua bela estoria. Adorei e como os demais também viajei contigo, Um beijo.Elzy

  9. Dan Says:

    Hey Rô….perfeita a narrativa!
    Com estes ricos detalhes, seu texto conseguiu me levar contigo junto ao show!
    Cumpriu com excelencia seu papel de fã. Meus parabéns!
    Espero poder ler novas experiencias como esta….um beijo!
    Dan

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