cidade distante, uma cartografia poética…

Tadeu
(Tadeu)

POEMA DA CIDADE DISTANTE
de António Amaral Tavares

Há um rio que une toda a cidade como um verso friamente queimando a memória
e que une a cidade ao mar como um cordão umbilical de mistério latente
os gatos habituaram-se à luz pontiaguda dos espelhos
e à noite vigiam a morte do cimo dos telhados e das árvores.
É uma das muitas cidades que se descobrem rumo a norte
com janelas iluminadas de quartos devorando a noite por dentro
as ervas parecem gostar deste vento frio que as une mais à terra
abrindo à navalha planaltos no olhar
há dias em que o meu coração tem a forma de uma serpente
e quando é assim as mãos procuram buracos e noites fechadas à chave
vivo assim desde que o medo arrombou portas e janelas como um furacão.

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Vasco Casquilho2
( Vasco Casquilho )

Não é minha esta cidade onde vivo porque pertence à estrada e aos mapas
venho de uma outra onde cresci com uma frase escrita na pele
que a chuva fazia brilhar como num muro na paisagem
percorria como um diamante riscando o ar as ruas e os túneis do metropolitano
lugares assim geradores de formas interiores que se apalpam
mercados de peixe de um prateado sem culpa medindo distâncias
e flores exuberantes deitadas na sombra dourada do mármore
quase grotescas de tão belas pela manhã
a escrita própria do marulhar dos automóveis
aquele rio que era o eixo principal da construção da cidade e do contrabando
de marfim tabaco e chuva entre os dois hemisférios do homem
pilotos da barra do medo rebocando navios cegos para mar seguro

popolo
(popolo)

os cais que desencadeiam a cidade como são dela a congregação
espuma em vaga que deambuleia
capitães do tempo na ponte dos relógios à deriva
aguardente nas gargantas como nas sarjetas da cor da chuva e das pedras do rio
o cheiro a maré vazia das cervejarias
aqueles elevadores eléctricos entre quartos de luz no mapa vertical
cidade que se oferece a si mesma em varandas
negros indianos e chineses com sílabas exóticas no olhar
a grande finança e as mãos dos operários e dos artistas
personagens abraçadas pela noite a cada lua com todo o amor e bebendo-lhe o álcool
desaguando terríveis como anjos caídos nos primeiros autocarros da manhã
eram lugares conquistados no campo de batalha
passava à frente dos edifícios ao tombar do seu silêncio
como irmãos de sangue navegantes endurecidos numa consciência única
compreendia os lugares como se rios comuns nos fizessem encontrar
e toda a vida tivessem esperado por mim como por um filho
mesmo quando já ambos cidade e eu bastante adultos e de coração independente
e já a idade nos tinha arrefecido a erupção das máscaras
eu apenas um homem e ela uma cidade como as outras
com movimento de gente ruas planas e casas desinteressadas
sem fantasmas nos telhados nem pássaros à partida dos comboios
apenas ainda da noite ou de um olhar
havia um sentido para este meu cansaço de circum-navegador que olha
ancorado num umbral de espuma
as noites tinham uma dimensão marinha povoada com peixes mudos
brilhando solitários no escuro
eram criaturas minúsculas mergulhando extraordinárias na cidade espessa
e a travessia das pontes atordoava as palavras
como acontece quando se tomam os caminhos do sul.

autor desconhecido23
( autor desconhecido )

Fica distante esta cidade dessa outra a preço de sangue
as serras ao longe lembram vislumbres já passados
mas de um real menos alucinante e sem o assombro febril das outras
aqui a mudez do alcatrão contrasta com as grandes histórias de aventura
contadas pela estrada do norte
as ruas terminam todas num silêncio de pássaros

Maria Avelino
( Maria Avelino )

no entanto as noites possuem às vezes o brilho frágil do vidro
quando a lua inunda de luz as árvores mais escuras e a boca vadia dos cães
e a chuva queima os olhos das estátuas como se fossem de bronze
e o seu coração uma erva.

anaPaipita
( AnaPaipita )

Há noites em que poderia viajar como um amante de janela em janela
com a minha vela nocturna insuflada de luar
porque aqui a janela amada fica à curta distância de uma estrela
como outrora ficava das luzes reflectidas da cidade no estuário do seu rio
que as exibia como se fossem suas.

Lisboa_-_Terreiro_do_Paço
( Lisboa Terreiro do Paço )

E há dias em que o mar sobe rio acima e as duas cidades tornam-se quase irmãs
cidade e mar assim unidos fazem estoirar de água por dentro as árvores.
Também aqui há braços de vento que empurram os homens das torres mais altas
como se fossem vómitos da madrugada
e homens com lâminas no lugar dos pés e caminhando assim sobre a terra
como anjos malditos numa esquina de rua subitamente

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