pensando a Poesia com Júlia Kristeva e Dileta Silveira Martins
PENSANDO A POESIA COM O TEXTO KRISTEVIANO E COM DILETA SILVEIRA MARTINS
Na Semiologia há uma preocupação com o signo e com o sujeito da comunicação, através do centramento desse mesmo sujeito, ao passo que na Semanálise descentra-se o sujeito e ocorre o deslocamento da superfície do signo, anulando a representatividade e inscrevendo-se o inconsciente. Configura-se, por isso, uma bipolaridade: de um lado, o discurso como estrutura finita e opaca; de outro, o texto dito poético como estrutura infinita e profunda – produtora de sentido. Assim, o texto inscreve-se na história e a história lê-se no mesmo. Texto emoldura uma operação translinguistica: dentro da língua e estranho à mesma.
De acordo com Julia Kristeva, o texto dito poético difere da linguagem de comunicação, porque, através de operações sintáticas e semânticas, produz-se um novo espaço poético. Essas ditas operações exercitam os conjuntos sêmicos que apagam, dissolvem as coerções dos limites das unidades lexicais, abrindo-se para outros significados. Da correlação entre o nível fônico-semântico emerge a aplicação das unidades sintáticas e semânticas. Ler um texto implica romper com as normas gramaticais e reconstruir a linguagem – como é o caso do poema moderno.
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A linguagem poética esta referenciada por um processo de desvelamento que reside na afirmação do não-existente e que instaura a oposição enquanto oposição, gerando um novo significado de que, antiteticamente, surge o positivo e o negativo, a norma e a anomalia e induz à negatividade. Dessa forma, o sentido binário que se descortina no texto dito poético transcende o próprio texto que não se exaure internamente, desdobrando-se para um espaço externo através da superposição de outros discursos e trazendo uma nova realidade ao universo poético. Nessa combinação, inscreve-se uma semiótica que propõe uma releitura contextual e da qual promana uma colagem da história.
Quando vários discursos convergem numa mesma leitura contextual, o enunciado poético instala-se num espaço polifônico que se abre para novos significados. Esses significados circunscrevem-se numa relação de negação uns com os outros. Opera-se então a retomada de outras falas através de um estranhamento gradual que se processa sob 3 aspectos: – a negação total pela reapropriação de outro discurso como negação absoluta do próprio discurso; – a negação simétrica quando o produtor assimila outro discurso e o nega parcialmente numa relação simétrica; – a negação parcial, ou seja, quando apenas alguns aspectos do discurso são rejeitados.
Desse modo, num processo que exercita uma pluralidade de códigos e manipula a língua como organismo vivo e dinâmico, o texto dito poético lê a história, a sociedade e o próprio homem, inserido nas mesmas.
O discurso poético remete e não remete a um referente; instala-se aí o ser e o não-ser. Desse modo, à primeira vista, o texto poético reveste-se de uma aparente representatividade que se fragmenta pela quebra da predicabilidade, ocorrendo assim a dualidade do significado poético.
FONTE: MARTINS, Dileta Silveira Uma re-leitura do texto kristeviano Revista Veritas – Porto Alegre, v. 104, dezembro 1981, p. 494, 495, 496, 499, 500, 501, 502 (recortes).