pensando a Poesia com Nei Duclós
EM BUSCA DA IDENTIDADE PERDIDA DA LINGUAGEM
por Nei Duclós
A poesia é a linguagem em busca da sua identidade. Para cumprir seu destino, deixou de lado o amplo espectro dos temas e concentrou-se na sua própria ciência: modernidade pelo avesso, já que o único exercício é recuperar a magia perdida ou dispersa na selva minada pelo jornalismo, a publicidade, a mídia eletrônica, a diplomacia, a advocacia, o cinema ou a música. Não é buscar a fórmula exata, mas a palavra-chave, reinstauradora do verbo.
Pois no caos – que podemos batizar de discurso, linguagem em ruínas – fazer poesia é inventar a carne. Morder, por enquanto – nessa transição de signos -, a “carne intermediária”, de que nos fala Paulo Henriques Britto no livro Mínima Lírica .Aquela que existe entre a “casca e o caroço” da vida, em que “a língua elabora a doce palavra”. Ou promover o “curto-circuito da frase”, opção de Rubens Rodrigues Torres Filho em Poros. Trata-se de uma luta de arma branca: a poesia não encontra nos mísseis sua metáfora mais contundente, mas na faca, na lâmina. O corte fala melhor do que a bomba. Por isso os poetas não apertam botões, eles ainda afiam espadas e continuam carregando os mesmos detritos: “Há algum tempo coleciono cadáveres” (Britto); “Longas, frias, vazias – certas letras somem ao olho que tombado cai” (Torres Filho).
Leia todo o ensaio aqui ou no blog do autor:
http://outubro.blogspot.com/
Mas cada poeta briga de maneira diferente pelo seu pedaço, instaura estruturas expostas, territórios ocultos. Torres Filho, por exemplo, procura infeccionar a linguagem com um tom épico, exatamente para diferenciá-la da selva selvaggia: “São ágeis palavras circundando fatos ariscos e permeáveis lunetas onde se aninham os astros imponderáveis” ( em Certos Momentos). Ou: “Entornas a âncora das viagens que te desenham na água”. Britto prefere outro caminho, o do desencanto feito revelação: “Por isso não tive Pátria, só discos” (Geração Paissandu). Ou: “Nem tudo o que fui se aproveita” (Queima de Arquivo).
Mas os dois poetas tem um ponto em comum: o da esgrima exausta com o discurso, a busca da fibra luminosa na armadilhas montadas pela morte da linguagem. Sobram exemplos: para Britto, a poesia é a “fala esquiva, oblíqua, angulosa – do que resiste à retidão da prosa”; ou “a palavra é coisa feita, de uma matéria turva e densa, impura”. E para Torres Filho, o “ocioso exercício” é “marcar, assim o signo papel, maculá-lo com a letra incruenta”; ou “o poema só quer ser feio e não dar nenhum recado”.
O resultado deste embate, sua síntese, é absolutamente impossível dentro da jaula de um livro. Acuado, o poeta propõe sua própria saída: “Escrever, sim, mas como quem grafita”, diz Britto. E para Torres Filho, que enche sua poesia de tambores, o resultado só pode ser este: “Cai o poema, filigrana grave, precipitado na página alvura”. A gravidade do trabalho poético ganha uma dimensão própria no Brasil, onde destruir a linguagem passa por dois corredores: o excesso de oferta do discurso – obsessivo e redundante – e o deboche em relação ao poema.
Na terra do repente e do improviso, dos poetas incuravelmente românticos, do vazio sinfônico do niilismo temperado pelo talento, sobra espaço para a construção de pequenas pontes, da invenção de espelhos ao longo da estrada – para que o discurso se parta diante da própria imagem -, da convivência com a armadura da linguagem – carne difícil em meio ao mar de falsidades.
Sobra espaço também para a crítica, que pode selecionar uma rota de inúmeros sinais colocados pelos poetas. A função da crítica é de absoluta traição: não se render às facilidades do discurso, a quem pertence, como espólio de guerra – e, como o poeta, expor-se na construção do verbo. Subversão também exposta ao deboche, às sobras do discurso. Só assim a crítica poderá iniciar sua própria luta: a de descobrir a identidade perdida da sua linguagem.
*Ensaio publicado na seção Leitura, página 6 de Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo, do dia 29 de junho de 1989. O editor do Caderno 2, na época, era José Onofre. 2. Os dois livros fazem parte da coleção Claro Enigma, editada pelo poeta e crítico Augusto Massi.