pedras de toque

PEDRAS DE TOQUE (Descortinar)
por Tânia Du Bois

Beauchaille-Etive-Mor

Quando a poesia é especial, a vida ganha um toque de suavidade.

“… Do perdido tempo
Do passado tempo
escuto a voz das pedras:
volta… volta…
E os morros abriam para mim
imensos braços…”
Cora Coralina.

São palavras como essas que refletem a poesia. Pedras de toque, porque toca a todos. Pedra porque são concretas, palpáveis e não tem fim; fazem-nos refletir sobre o tempo em todas as dimensões; sobre o ato de criar a si mesma, como colocou Orídes Fontella: “A pedra é transparente: / o silêncio se vê/ em sua densidade.”

Leia toda a crônica-ensaio poético


E cada um de nós em sonhos, desafios e conquistas leva uma vida trepidante, questiona sobre o valor do tempo e o peso de sua escassez.


“Sou pedra lançada
contra o vento
… onde se perde o tempo
… de que vale a mim
pedra arremessada
através do tempo
como consciência
e crítica
se ao vento
não cabem palavras?”
Pedro Du Bois

Refletindo sobre o tempo, hoje, vejo pessoas correndo atrás de seus compromissos e que não dão atenção à palavra amiga; perdem a hora certa – um dia após o outro, e sempre com maior urgência… para quê? Sidney Muller já cantava: “Quem tem mais pressa que arranje um carro / Prá andar ligeiro, sem ter por que / Sem ter prá onde, pois é pra quê?”

Ao descortinar a pedra, pensamos na hora de começar a abrir mão ou jogar fora o que não é mais necessário. Mas, para isso, é preciso crescimento interior, onde hábitos do cotidiano possam ser simplificados e os relacionamentos tornem-se especiais.

“Andamos pela vida como seres de pedra
Habitamos as noites de vento
… o olhar parado em algum lugar vago
um rosto que passou…” Jorge Adelar Finatto

Lembrar que a transformação está nas pequenas coisas, como a leitura, o amor, a tolerância, a paz e a ética. Fica a sensação que você sabe das coisas, isso nos dá conforto e nos faz sentir a vida.

O grande desafio são as pedras no caminho, que podem ser esculpidas e desvendadas: é lidar com o tempo para agir agora; é fazer algo construtivo e amoroso; ter a capacidade de voltar a viver e amar.

Sonhar a liberdade em conexão com os ciclos da natureza, assim como são os fragmentos das pedras que revelam uma parte da nossa vida e que quer manter viva a dimensão da vida poética.

“A pedra
no peito
flor despetalada

Como contar o que
acontece
como dizer do peso encontrado

Como impedir que a flor
despetale

a flor
desempedrando
o peito.”
Pedro Du Bois

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