rastros de um livro, vestígios de Lispector

Pensar é um ato, sentir é um fato.
Clarice Lispector
por Berenice Medeiros
Clarice Lispector surge em plena época da Guerra Fria, a qual se fez acompanhar de profundas transformações.Dentro de nossa literatura, ela e Guimarães Rosa desenvolvem formas anti-convencionais. Seus romances e contos tratam de um novo: o mundo interior dos personagens, expondo seus sentimentos e estados de alma. Para isso, a escritora serviu-se da análise psicológica e do monólogo interior.
Uma de suas grandes características é questionar-se sempre filosoficamente. Indagar é sua própria condição de existência: Não se perde por não entender ou: O que eu sinto não ajo, o que não ajo não penso, o que penso não sinto, do que sei sou ignorante, do que sinto não ignoro. Não me entendo e ajo como me entendesse.
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Ela tem necessidade de ultrapassar o banal pelo que se nota em seus pensamentos esparsos. Espírito inquieto, quer chegar ao transcendente: E descobri que não tenho um dia-a-dia. É uma vida-a vida. E que a vida é sobrenatural.
Clarice almeja por total liberdade para dar vazão à sua potencialidade: Por que é que um cão é tão livre? Por que ele é o mistério vivo que não se indaga?
É que sinto falta de um silêncio. Eu era silenciosa. E agora me comunico, mesmo sem falar. Mas falta uma coisa e vou tê-la. É uma espécie de liberdade, sem pedir licença a ninguém.
Não lhe faltam audácia e coragem para romper o equilíbrio da normalidade. Trata-se de um universo único em nossa literatura.
E
Lendo Feliz Aniversário.
A maior originalidade do conto é a de ter apresentado um clímax através da apresentação e diálogos entre os personagens. Mostra que nem sempre um encontro familiar é prazeroso. Trata-se de uma mãe que completava oitenta e nove anos numa época em que a mulher se dedicava exclusivamente à família.
Lembrando que a vida é uma arquitetura, seu ciclo que inicia na infância e passa por fases, na última etapa se volta à primeira. E assim, a aniversariante passa a ser não só uma criança, mas uma criança amarga. O conto parece deixar transparecer que essa mãe teria sido autoritária e que dava preferência a um neto (no caso Rodrigo), em detrimento de outros.
O pensamento:Será que hoje não vai ter jantar, finalmente mostra que a morte era seu maior mistério…
E
Poemando
Desejar, criar
antes e ainda algo maior…
gostaria que esse instante
durasse para sempre.
E como chamar a felicidade
um estado fugidio
que nos deixa o coração
inquieto e vazio?
agosto 5th, 2010 at 0:56
Indiquei a leitura a um amigo que gosta da Clarice Lispector.
agosto 5th, 2010 at 9:00
Carmen,
é bom ir conhecendo pessoas com vc. Poetas como vc. Repito o que já te disse em email: a web é uma benção, uma dádiva, uma… sei lá o quê…
digo isso pq jamais nos conheceríamos, nem trocaríamos idéias, poemas, elogios e afagos intelectuais.
Isso é algo surpreendentemente pós-moderno: a amizade virtual.
Cultivemo-la!
Abraço cordial.
agosto 5th, 2010 at 9:31
Clarisse é tão atual, é tão avançada,é tão profunda é tão mulher !!!!
agosto 6th, 2010 at 11:30
Berenice, segui teus rastros comentando Clarice Lispector e poetisando a partir de… Obrigada pelas palavras. Adoro Clarice, sua postura intimista, e Feliz Aniversário revela o rancor e a indiferença. Triste e real indiferença que corrói.
A propósito, te deixo um pouco de meus escritos nos rastro de Clarice:
“Pego o bilhete com aflição, temendo as lembranças, mas elas me condenam. não consigo afastar o sofrimento, tal o rancor que tento controlar com dificuldade, então me deixo penetrar pelo ódio, e me eximo de qualquer culpa de sentimento mau dirigido aos mortos, enquanto choro, de dor, de cansaço e raiva, muita raiva. Maldito.” – Dois no Espelho – Ed. Movimento – 2007
agosto 6th, 2010 at 11:42
Bem-vinda Jacira! Que bom ter tuas palavras aqui, estarei levando o comentário à Berenice Medeiros em nosso próximo encontro de leituras… Um beijo e a escritura em nós agradece.