de quantas gotas se farão as águas…

ARTE em MOVIMENTO
por Tânia Du Bois

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“De quantas gotas se farão as águas…” (Ernani Rosas)


Águas são artes em movimento, representam mudanças de rumo na produção literária, como nos poemas de Carmen Presotto:


“Vidráguas // Porque chove / Tudo é água / que empoça e ambacia /
Tudo é lágrima / que sublima, condensa e lava // Porque choro /
Chovo mais que o céu / Transbordo-me / Parto palavras /
Como se ossos se liquefizessem… “


e de Lindolfo Bell:

“Águas entre águas // Em outras águas. / As chamadas entreáguas. /
Onde a dor liquefaz o homem e o derrama em lágrima / sobre
a própria face. ////… Em águas / vindas de inesperadas vindimas
da constatação / o homem se vê / no espelho das águas /
e vê mais do que o espelho pode ver.”


São poemas em transição, isto é, suas águas têm movimentos que renovam a palavra, não as repetem e têm como característica a descontinuidade, passando pelo processo de transformação, mas sempre conservando sua unidade.

Leia toda a crônica-ensaio


Digo que vão além, o que significa que vão mais fundo, que são levados pelas correntes literárias mais avançadas. No entanto são transparentes ao significante como natureza poética.


Vejo nos poemas de Carmen e Lindolfo o compromisso para com a sensibilidade e, ao mesmo tempo, em textos despojados, revelam uma criação poética com grande questionamento no campo da estética e da linguagem.

A ponte entre eles são as águas pensadas como alvo, que contam através da poesia a trajetória dos momentos marcantes às margens da arte, como jogo de sons em que se pode sentir o desejo da liberdade, provocando modificações expressivas: concordo que há sempre movimentos de correntes subterrâneas – e subjacentes – que mantém o equilíbrio entre a percepção e a beleza das palavras, mesmo que saturadas de significados.

No movimento das águas temos o encontro cultural entre fontes da poesia, capazes de condensarem as aspirações com que as palavras ganham ressonância em nossa memória.


“As águas do tempo refletem as paisagens da alma.” (Dora Ferreira da Silva)

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2 respostas para “de quantas gotas se farão as águas…”

  1. António Amaral Tavares Says:

    O que me parece é que, o que falta é descrever a água tal como ela é na realidade e que lhe dá o poder de ser a metáfora fecundante que é, embora não saiba muito bem como acabará o exercício. Até lá, vamos falando dela de forma a que o leitor a ouça e beba e se molhe, como me parece que a autora do texto a quer exaltar. Para dizer a verdade é a única forma de lhe guardar o mistério. Será isto que a autora quiz dizer?

  2. carmen silvia presotto Says:

    Um beijo António, obrigada por tuas leituras e palavras… talvez o mistério esteja no estilo, este não-ser-mistério que indica a voz, os goles, as leituras, os versos de cada um, para juntos seguirmos conVersando.

    Gracias!!!

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