nada acontece duas vezes, poema de Wislawa Szymborska

Nada acontece duas vezes
e nem acontecerá. Por este motivo
nasceremos sem prática
e morreremos sem rotina.
Mesmo que fossemos os mais estúpidos
alunos do mundo na escola,
não vamos repetir
nenhum inverno, nenhum verão.
Nenhum dia se repete,
não há duas noites iguais,
dois beijos do mesmo jeito,
duas mesmas trocas de olhar.
Ontem, que alguém pronunciou
teu nome alto perto de mim,
foi como se uma rosa me tivessem
atirado por uma janela aberta.
Hoje, que estamos juntos,
virei o rosto para a parede.
Rosa? Como é uma rosa?
É uma flor? Talvez uma pedra?
Por que tu, hora ruim,
te confundes com um medo desnecessário?
Se és – então tens de passar.
Se passarás – então será bela.
Sorridentes, abraçados,
tentaremos buscar um acordo,
mesmo que sejamos diferentes
como dois pingo de água limpa.
Poema de Wislawa Szymborska, tradução de Tiago Hallewicz do poema original em polonês Nic dwa razy, Memória Cultural Polonesa.
Fotografia: Tadeu Vilani
agosto 16th, 2010 at 19:43
Mais um excelente poema de Wislawa Szymborka, onde a claridade parece ser o caminho para o entendimento. E é-o de facto mas isso não implica que não haja um discurso oculto entre palavras. A memória, na arte, vem por vezes de muito longe.
Obrigado, Carmen, Por este belo poema.
Abraços
António
setembro 18th, 2010 at 1:11
“Por que tu, hora ruim,
te confundes com um medo desnecessário?”
Fico com essa, que parece ser escrita especialmente para mim…
Se “ele” soubesse que seria a última vez que a viria, teria dado um beijo na testa…
Teria… muitas coisas”
Parabéns