pensando a Poesia com Dilan Camargo em Z.H. de hoje, imperdível!
A palavra poética em nossas vidas, por Dilan Camargo*
“De poeta e de louco, todos têm um pouco.” Quando falamos uma frase surpreendente e reveladora como essa, mas com rima, ritmo, e uma ideia, estamos fazendo arte com as palavras. Combinamos o som das palavras, damos um andamento melódico para elas, sugerimos uma imagem e comunicamos uma ideia. Temos diante de nós, uma frase, um chiste, um aforismo, ou um verso. Digamos que, nesse caso, temos um “verso” de sete sílabas, uma redondilha, com rima, ritmo e um significado sugerido: somos pessoas normais, mas também somos, saudavelmente, um pouco poetas e loucos. No mundo das palavras, quando falamos algo “fora do normal”, estamos criando, inventando uma nova linguagem.
Leia todo o artigo aqui ou no Jornal Zero Hora de hoje p.19
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Nesse instante, penetramos no mundo da poesia, em que as palavras assumem outros significados, além daqueles definidos nos dicionários. A palavra liberta-se do seu conceito racional. Ela não é mais nem racional, nem irracional. Torna-se suprarracional. Não se dirige nem à compreensão dos ditos razoáveis e nem à dos considerados dementes. Nessa nova natureza, a palavra nos convida a ler/ouvir/sentir com as asas da imaginação. Quando o poeta diz “tenho um coração maior que o mundo”, ele nos adverte que fala pelo coração, que sente, muito mais do que apenas raciocina. Ele nos convida a ler e a ouvir a sua palavra poética com outros olhos e outros ouvidos. Ele nos convida a iluminar as lentes do nosso olhar. A sintonizar nossos ouvidos noutra frequência. Ele nos convida a sentir as palavras.
E isto não é fácil e nem imediato. Estamos acostumados ao burburinho e à tagarelice das palavras do nosso dia a dia. Estamos envolvidos e ligados no automatismo da linguagem rotineira e cotidiana. Na linguagem instrumental do trabalho e das relações sociais. Nosso ouvido e nossa mente estão saturados e entulhados de palavras repetitivas. Das mesmas palavras de todos os dias, de todos os momentos. Estamos acostumados a falar e a ouvir, a trocar as mesmas palavras, com os mesmos interlocutores. E, às vezes, de modo inconsciente, nos condenamos a ouvir as mesmas palavras dos mesmos locutores e a ouvir as mesmas canções dos mesmos cantores. Não há momento nem espaço para a palavra poética, que nos proponha novas hipóteses de reinvenção da vida.
Sentir as palavras! “Tenho apenas duas mãos / e o sentimento do mundo”, escreveu o poeta. Sentimento não é sentimentalismo. O sentimentalismo é um estado de espírito ainda primário, uma exacerbação do espírito, uma agitação emocional descontrolada e superficial. Este sempre produz má poesia. O sentimento é um mergulho sereno na tristeza ou no regozijo. Através da poesia, o sentimento da palavra poética nos conduz a uma nova consciência sobre nós mesmos. Faz-nos sentir quem somos, em contato com a nossa íntima e secreta humanidade. Algumas pessoas preferem evitar esse encontro pela vida inteira. E, por esse medo emocional, podem perder a vida.
Nunca é tarde. Quando falamos, escrevemos, ou lemos poesia, através dela nos redescobrimos, nos reconstruímos com a substância da sua linguagem regeneradora. A palavra poética contém as células-tronco da nossa psique e da nossa alma.
*Poeta
agosto 29th, 2010 at 14:57
excelente e sensivel texto sobre a palavra poetica – muito lindo e reflexivo
berenice sica lamas
agosto 29th, 2010 at 19:16
Obrigada por teu comentário Berenice, realmente o texto é muito reflexivo!!
Um beijo.