há escritos que valem uma reedição,então, suspiros de Clara…
Suspiros de Clara
por Carmen Silvia Presotto

Ainda recordo vovó, enfileirando seus netos para trás do imenso fogão e os acomodando no velho caixão de lenha, enquanto preparava suas famosas receitas… Entre cravos, canelas e muitos suspiros, tecia histórias, impregnando na cozinha e em nossas vidas um contagiante aroma.
Épocas boas em que crianças se encontravam com seus velhos. Ao balanço das trocas, viviam mais equilibrados…
Minha avó era uma grande contadora de histórias. No entanto, hoje percebo, que com seus quitutes, além de nos engordar em quilos, também nos recheava de ideologias. Ela adorava os americanos e tudo que se referisse aos Estados Unidos. Não perdia um filme da Broadway e babava feito moça por Gary Cooper, Glen Ford e John Wayne.
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Isso dito, talvez torne redundante o que segue. Mas após algumas artes, como castigo ouvíamos: Olha que o russo vai te pegar! Olha que vou te colocar atrás da cortina de ferro… Mais tarde, entraram os japoneses para fazer companhia aos russos. E sempre que podia, nos ensinava um pouco de sapateado e algumas expressões em inglês. Além de preparar fabulosos bolos, para que juntos assistíssemos aos filmes de seus mocinhos americanos.
Na época do Vietnã, dizia-nos que a guerra era uma invenção tal qual um filme. E quando lhe pedíamos explicações do porquê dos índios sempre morrerem, ela dissimulava…
Enfim, ela morreu amando a América do Norte, dizendo-nos que de lá viria o progresso.
Não estava errada!
Só que crescemos e hoje vemos que o progresso dos Estados Unidos não aceita o Tratado de Kyoto.
Pobre vovó!
Se vivesse veria que os seus poderosos mocinhos desejam transformar o resto do mundo em sobras de suas necessidades. Portanto, não duvidemos! A Metro ou a Universal Studio já devem estar programando uma super-produção para que os sobreviventes do efeito estufa sejam os eternos heróis da neve.
Como diria vovó:tudo em grande estilo…
No entanto, esse gesto maquiavélico e principesco pode estar indicando o eterno ponto das ruínas circulares donde, às vezes, alguns ainda nem saíram, porque feito homens petrificados não percebem que, do início ao fim

os meios também se justificam e como diz o povo, água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
Então, mesmo que algumas vidas sejam mais valiosas que a soma de todos na Terra, faltará espaço, mãos, trens, barcos à vapor e automóveis em todos os universos. Nem mesmo as câmeras de Spilberg e WEB trarão conforto e bens e tais aos que aqui restarem desse grande dilúvio.
Imaginem, se o calor do planeta está derretendo até as neves do Kilimandjaro, esteja vovó onde estiver, deve ter desandado e talvez já nem suspire mais.
Enquanto isso, nós, os netos das claras, aguardamos ansiosos para que os primeiros mundistas não nos matem para depois chorar como sempre fazem os grandes hipócritas. O pior eles agora sabem: cedo ou tarde os sangues retornam para beber de suas fontes…
Mas, apesar de tantas mudanças, a montanha russa ainda causa um frio na barriga.Vá que por trás dos Balcãs, alguém apague o botão e fiquemos pendurados lá no alto?

É, vovó! Melhor que desandemos na chuva…