Em Vidráguas, cartografia poética com Rubens Jardim

Psiu! Dois dias atrás li este texto escrito na juventude do Poeta Rubem Jardim, inspirado na forte repercussão de Liberdade, Liberdade, datado dos anos 60 em pleno movimento da Catequese Poética. O texto foi escrito para ser , levado aos palcos, aos colégios e faculdades, enquanto isso, leiamos aqui em uma cartografia poética.

As palavras podem abrir, revelar, dividir emoções
Por Rubem Jardim

RUBENS_JARDIM

Poeta 1
Bom dia, minha vida, minha luta!
Bom dia bandeira, bom dia escudo,
Palma, enterrada flexa, bom dia.
Bom dia pedra dura, fixa na onda da serra.
Bom dia minhas mãos, minha colher, minha sopa,
Meu escritório, minha casa e meu sonho.
Bom dia meu arroz, meu milho, meus sapatos, minha roupa.
Bom dia meu campo, meu livro, meu sol e meu sangue sem dono.

Poeta 2
Bom dia minha pátria de domingo vestida,
Bom dia senhor e senhora,
Poetas, bom dia,
Desfiles, canções, estandartes, bom dia.
Bom dia altas donzelas puras como canas


Poeta 1
Bom dia, oh terra de minhas veias,
Apertada maçaroca de punhos, cascavel da vitória


Leiam toda a crônica poética criada pela Catequese Poética e passada a nós por Rubens Jardim, um dos poetas do grupo


Poeta 3
O campo rescende a chuva recente.
Uma cabeça negra e outra loira juntas seguem o mesmo caminho
Coroadas por um mesmo fraterno laurel
Bom dia minha vida, minha luta



Grupo todo
Bom dia liberdade, minha cara, minha amada liberdade.
Bom dia!

Poeta 2
As palavras que acabamos de ouvir são do poeta cubano Nicolas Guillén. Mas para falar do homem, seus sonhos e sentimentos não bastaria um único autor. Por isso resolvemos recolher textos de diversos autores de diferentes épocas e partes do mundo.


Poeta 1



Cecília Meireles, Garcia Lorca, Sófocles, Vinícius de Morais

Poeta 3
Jorge de Lima, Manuel Bandeira, Nietzsche, Lindolf Bell.


Poeta 2
Shakespeare, Hilda Hilst, Hermann Hesse, Cassiano Ricardo, Ferreira Gullar


Poeta 1
Camões, Wagner, Saint Exupéry, Carlos Drummond de Andrade


Poeta 3
Augusto dos Anjos


Poeta 2
Isaias, Augusto Frederico Schmidt, Pablo Neruda, Iraci Gentile


Poeta 1
Tagore, Murilo Mendes, Moacyr Félix, Luiz Carlos Mattos


Poeta 3
Nicolas Guillén, maiakovski, Jesus Cristo, Rubens Jardim


Poeta 2
Gibran Kalil Gibran, Erich Froom, Rainer Maria Rilke


Poeta 1
Walt Witman, Ronald Carvalho, Guimarães Rosa


Poeta 3
Kierkgaard, Huxley, Fernando Pessoa


Poeta 2
E quando estivermos dizendo essas palavras – estaremos dedicando estes textos a todos aqueles que sonham e trabalham por um mundo melhor, libertado para sempre do ódio e do medo, do apodrecimento da alegria pela miséria física e do falecimento da beleza pela miséria moral. E de todos os sentimentos que fazem da vida uma enfermidade e do homem um arremedo do homem.


Poeta 3
Meu pai, o que é liberdade?

Poeta 1

É um homem morto na cruz por ele própria plantada, é a luz que sua morte expande pontuda como uma espada. São quatro cavalos brancos, quatro bússolas de sangue, e mais Felipe dos Santos, de pé a cuspir nos mantos do medo que a morte indica.


Grupo
É a blusa aberta do povo. Bandeira branca atirada num jardim de estrelas de sangue.


Poeta 2


É Frederico em Granada


Grupo

É o homem morto na cruz por ele próprio plantada.
É a luz que sua morte expande, pontuda como uma espada.


Poeta 1
Muerto cayó Frederico
Sobre a terra de Granada.


Grupo
La tierra del inocente,
No la tierra del culpable.


Poeta 1
Nos olhos que tinha abertos, numa infinita mirada
Em meio a flores de sangue, a expressão se conservara
Como a segregar-me: A morte é simples, de madrugada.


Poeta 2
Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
Y el caballo em la montana.
Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas

Poeta 3
Muerto cayó Frederico.


Grupo
Não morrerão porém tuas sementes.


Poeta 1
Tuas sementes viverão no meu corpo
E os brotos de teus amanhãs florescerão no meu coração.


Poeta 2
E teu perfume será meu hálito.


Grupo


E, juntos, regozijaremos em todas as estações.


Poeta 1
A aparência das coisas coagulou-se em desesperado hiato.
Não há passos, nem mãos, nem olhar, nem nada. Nem o som de sua fala, nem a lembrança vaga de seus traços, nem tua voz, meu Deus, para acordá-la. (J. Lima)


Poeta 2
Vede cidadãos de minha própria pátria
Vede-me partindo para a última viagem, contemplando a última luz do sol, depois nada.


Poeta 1
Mas os passos deste mundo pisam tudo, tudo, tudo… Morte certa.


Poeta 2
Duas vezes se morre: Primeiro na carne, depois no nome. A carne desaparece, o nome persiste – mas esvaziando-se de seu conteúdo casto.


Poeta 3
Tantos gestos, palavras, silêncios… até que um dia sentimos como uma pancada de espanto (ou de remorso) que o nome querido já nos soa como os outros.


Poeta 1
Ai que nomes têm as coisas! Que nomes tendes? São vossas fontes copiosas, mas outras são as minhas sedes.


Poeta2
É preciso falar-se das criaturas, verdadeiras criaturas animadas, das vivências totais, arbítrio e tudo; alma, corpo funesto e imortal perpetuidade. Além, Deus nas alturas, nomes de terra e nomes eternados, anjos, demônios, sonhos acordados e as profecias, fúrias, posses.


Poeta 3
Tudo que um poema pode ter
Pois só aspiro poesia,
Poesia e silêncio.


Poeta 1


Dai-me o silêncio, a água, a esperança.
Dai-me a luta, o ferro e os vulcões. Prendei a mim os corpos como imãs.


Poeta 2
Atendei às minhas veias.


Poeta 3
E à minha boca


Grupo
Falai por minhas palavras e por meu sangue.


Poeta 1
Nem sempre há de falar-vos um poeta.


Poeta 2
E ainda que a minha voz não seja ouvida,
A tudo direi sim sem nenhuma importância.


Poeta 3



Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre, nem sou triste: sou porta.(C. Meireles)


Poeta 1
Essa criatura sem equivalência, a transbordar de seus limites humanos, em vício ou virtude.


Poeta 2
A exceder a multidão comedida que o contempla ou não contempla, entende ou não entende, combate ou glorifica,

Grupo
Mas não pode deixar de saber que está presente.


Poeta 3
Displicente descobridor de rotas que não ficarão sendo suas, minicioso artífice de pequenos jogos que entre seus dedos lhe quebrarão.


Poeta 1
(O pensamento a transportá-lo por florestas confusas, brumas oceânicas, labirintos de cidades, firmamentos, subterrâneos, a arrastá-lo como palpitante cometa, a submete-lo à experiência cósmica, a fazê-lo participante de cada grau do Zodíaco…)


Poeta 2


O Poeta – esse acontecimento inefável. (A alma a imclinar-se por cima de sucessivos muros… até onde? Até onde? Até onde é possível sofrer.)


Poeta 3
Que é o Poeta senão o burlador das fronteiras da vida, o constante figitivo das dimensões do mundo, o prodigioso funâmulo, a dançar em cascatas e labaredas?


Poeta 1
Quem lhe segredou que era Poeta?


Poeta 2
Quando o soube?


Poeta 3
Que Sibila remota lho anunciou?


Grupo
Não pode explicar, não pode explicar.


Poeta 1
É uma espécie de dor, em luz e sombra, porque já não é humanos, e ainda é humano; negam-lhe e exigem-lhe tudo, e todos lhe apresentam tributos terrenos, e está cheio de dívidas anônimas,


Poeta 2
É o execrado amante, que coroam e apedrejam. Por isso, o que, entre as coisas solenes, da invisível pátria, familiar e natural vagueia; segue cabisbaixo, entre coisas concretas, e como culpado.


Poeta 3


Que é o poeta senão o ouvido que melhor ouve o apagado e esquecido e recolhe sua informulada queixa e seu cântico longínquo?


Poeta 1
O olho que mais longe avista, até onde as formas ainda são simples esquemas, onde tudo que parece o mais simples se desdobra e entrelaça em trama profunda.

Poeta 2
Sem se Deus, nem profeta, nem sábio, mas tudo isso, imperfeita e amargante, porque é apenas um poeta.
E poeta é mesmo assim.


Poeta 3
Múltiplo,




Poeta 1
Complexo,


Poeta 2
Contraditório


Poeta 3


Solitário e plural


Poeta 1
Humilde megalômano


Poeta 2
Desgraçado feliz




Poeta 3
Audaz e tímido

Poeta 1
Antinômico



Grupo
Poliedro de cristal com a luz diferente em casa aresta

Poeta 2
Glorioso


Poeta 3
Cínico


Poeta 1
Histriônico




Poeta 2
a embalar em silêncio, no coração de sombra absoluta,

Poeta 3
Hermético e inviolável


Grupo
A face da Deusa em repouso,
A face da deusa em delírio,


Poeta 1



Personagem de enigmas alheios e próprios,
Fazendo em si o mundo,
Em si e de si,
Fazendo-se no mundo, gastando-se, perdendo-se, recuperando-se


Poeta 2
Personagem absurdo e excêntrico, entre personagens classificados.
Ao mesmo tempo, ato a fábula, descoberto e reinventado, aprendiz de Criador, a exercitar-se no maravilhoso e duro ofício , descontente de seus triunfos, satisfeito em seus erros, subitamente coberto de Graça e logo hipnotizado de inverossímil. (C. Meireles)


Poeta 3
Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar sozinho.(F.Pessoa)


Poeta 1
O que eu queria era ser menino, mas agora, naquela hora, se eu pudesse possível. (Guimarães Rosa)


Poeta 2
Desde aquele tempo eu já achava que a vida da gente vai em erros, como um relato sem pés nem cabeça, por falta de sisudez e alegria. (Rosa)




Poeta 3
Vida devia de ser como na sala de teatro, cada um inteiro fazendo com forte gosto seu papel, desempenho. Era o que eu acho, é o que eu achava. (Rosa)


Grupo
Escrevo para no povo, mesmo que ele não possa ler minha poesia com seus olhos rurais. (Neruda)

Poeta 1
Eu insulto o burguesa! O burguês níquel, o burguês-burguês! A digestão bem feita de São Paulo! O homem-curva! O homem-nádegas! O homem que sendo francês, brasileiro, italiano, é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!


Poeta 2
Eu insulto o burguês funesto! O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições! Fora os que algarismam os amanhãs! Olha a vida dos nossos setembros! Fará sol? Choverá? Arlequinal!


Poeta 3
Morte à gordura! Morte às adiposidades cerebrais! Morte ao burguês mensal! Ao burguês cinema! Ao burguês tílburi!




Poeta 1
Come! Come-te a ti mesmo, oh gelatina pasma! Oh purée de batatas morais! Oh cabelos nas ventas! Oh carecas! Ódio aos temperamentos regulares! Ódio aos relógios musculares! Morte e infâmia! Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados! Ódios aos sem desfalecimentos nem arrependimentos, sempiternamente as mesmices convencionais! De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia! Dois a dois! Primeira posição! Marcha!Todos para a Central do meu rancor inebriante! Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio! Morte ao burguês de giolhos , chrirando a religião e que não crê em Deus! Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico! Ódio fundamental, sem perdão! Fora! Fú! Fora bom burguês! (M. Andrade)

Poeta 2
Camaradas, inventai uma arte nova que arranque a República da lama. (Maiakovski)



Poeta 2
O que chamamos princípio é quase sempre o fim. E alcançar um fim é alcançar um princípio. Cada frase e cada sentença são um fim e um princípio. E aqui é Inglaterra e parte alguma. Nunca e sempre. (T.S. Elliot)



Poeta 3
Quando ontem adormeci, Na noite de São João, havia alegria e rumor,c estrondos de bombas luzes de Bengala, Vozes cantigas e risos ao pé das fogueiras acesas.


Poeta 1
No meio da noite despertei. Não ouvi mais vozes nem risos. Apenas balões passavam errantes, silenciosamente. Apenas de vez em quando o ruído de um bonde cortava o silêncio como um túnel. Onde estavam os que há pouco dançavam cantavam e riam ao pé das fogueiras acesas?


Poeta 2
-Estavam todos dormindo. Estavam todos deitados. Dormindo. Profundamente.

Poeta 3
Quando eu tinha seis anos não pude ver o fim da festa de São João porque adormeci. Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo. Minha avó. Meu avô Totônio Rodrigues. Tomásia Rosa. Onde estão todos eles?


Grupo
Estão todos dormindo. Estão todos deitados. Dormindo. Profundamente.


Poeta 1
Todo homem tem seu lugar natural; nem o orgulho nem o valor lhe fixam a altitude: a infância é o que decide. E eu comecei minha vida como hei de acabá-la, sem dúvida: no meio dos livros. Fui preparado desde cedo a tratar o magistério como um sacerdócio e a literatura como uma paixão. Eu não sabia ainda ler, mas já era bastante esnobe para exigir os meus livros. Nunca fucei na terra, nem farejei ninhos, nem joguei pedras nos passarinhos e meus ninhos, meus animais domésticos, meu estábulo e meu campo. Foram deles que eu extraí minha fantasmagoria mais íntima: o otimismo. Dócil por condição, por gosto, por costume, cheguei, mais tarde, à rebelião apenas por ter levado a submissão ao extremo. (Sartre)



Poeta 2
Isso me afligia: eu me armara para defender a humanidade contra terríveis perigos, e todo mundo me assegurava que ela se encaminhava docemente para a perfeição. Tornei-me traidor e continuei a sê-lo. Em vão me ponho de corpo inteiro no que empreendo, entrego-me sem reserva ao trabalho, à cólera, à amizade; num instante eu me renegarei, eu o sei, eu o quero e eu me traio já em plena paixão, pelo pressentimento jubiloso de minha traição futura. Em geral, mantenho os meus compromissos; constante em meus afetos e em minha conduta, sou infiel às minhas emoções. Mas admiro a vontade das pessoas que buscam permanecer as mesmas em meio da mudança, de salvar sua memória, de levar para a morte uma primeira boneca, um dente de leite, um primeiro amor. A cultura não salva nada, nem ninguém, ela não justifica. Mas é um produto do homem: ele se proteja, se reconhece nela; só esse espelho crítico lhe oferece a própria imagem. Eu não alimento rancores e confesso tudo, complacentemente: sou dotado para a autocrítica, desde que não a queiram me impor. (Sartre)




Poeta 3
Embarco no avião com meu apanágio de inseto civilizado. Olho pelo quadrado da janela o punhado de mãos acenando e a paisagem com as perspectivas de tantas direções. Pesa-me o mundo com seu fardo de Ocidente a Oriente. E meu ódio assoma do coração bateria. E vai como corrente elétrica de Kruchev a Kennedy. Contra a disputa da humanidade como um osso na boca de cães raivosos. Contra o jogo de futebol como unidade do planeta. Contra a lenta invenção da angústia e do medo e do nada – enquanto o desfecho pode ser um sorriso ou uma lágrima. (L. Bell)


Poeta 1
Caramba: a saudade começa, a saudade da vida. Continuei-me de ternura. Até quando haverá lugar para a esperança com seu orgasmo de prostituta cansada?
Deus é um poste onde os homens urinam. E a paz, a sacerdotisa cega, com pupilas de capitalismo e comunismo e, aos pés da sacerdotiza, os povinhos adorando a liberdade numa gaiola sem portas.


Poeta 2
Ai dos ululadores dos fabricantes da paz, dos desfazedores de nossos horrores, de nossa morte natural e lírica sem uma só de todas as atômicas presenças. Não! Reis, cientistas, chefes, presidentes, deuses: ninguém vive sem a flor e sem o amor


Poeta 3
Suportam-nos como um mal necessário. E estimam-nos, os donos dos mares e dos ares, como rodas que rangem sob a carroça.


Grupo
E nós, os de calças curtas, sequer fazemos a ciranda do protesto. Parecemos velhas atrás de vidraças olhando tempestades e o florir da bomba de cobalto de uma erva do campo. E quando tudo passa, como num parto sem criança, caímos de bruços –nós os machos, nós os puros, nós os anjos, nós os do reino dos céus que apenas sabemos dizer: graças a Deus, graças a Deus (Bell)


Poeta 1
De minha experiência com milhares de pacientes, convenci-me de que o problema psicológico de hoje é um problema espiritual, um problema religioso. A ciência disse-lhe que não existe Deus, que tudo o que existe é matéria. Isso privou a humanidade de sua floração plena, de sua sensação de bem-estar e de segurança num mundo confiável.(Jung)


Poeta 2
Num mundo em que você não conhece o sim e o não de nada, em que não há lei moral ou intelectual, em que tudo é permitido, em que não há nada a esperar e nada a perder, em que o mal não traz punição e o bem não traz recompensa, num tal mundo não há drama porque não há luta, e não há luta porque nada existe que valha a pena.(Claudel)



Poeta 3

O mundo conhece esta heróica e trágica história. Alberti não só escreveu sonetos épicos, não só os leu nos quartéis e no front, como foi quem inventou a guerrilha poética, a guerra poética contra a guerra. Inventou as canções que criaram asas sob o estampido da artilharia, canções que depois vão voando sobre toda a terra. Esse poeta de puríssima estirpe ensinou a utilidade pública da poesia, num momento crítico do mundo. Nisso se assemelha a Maiakovski. Esta utilidade pública da poesia se baseia na força, na ternura, na alegria e na essência verdadeira.Alberti canta sempre. (Neruda)


Poeta 1
Quando a dúvida desaparece, a crença também desaparece. Fé não é crença. Fé é amor. Fé não é crença porque não é metade –é total. Fé não é racionalização: não é contra, nem a favor disto ou daquilo. Ter fé é ter confiança, uma confiança profunda, amor. Não encontrarás racionalização para isso: simplesmente é assim. Então, que fazer? Não cries crenças contra a fé. Sê indiferente a ambas, crença e dúvida –e leva tuas energias em direção ao amor. Ama mais e incondicionalmente. Não ames a mim apenas, porque isso não é possível: se amas, simplesmente amas. A vida existe sem argumento algum e a verdade não necessita de provas –necessita apenas do teu coração. Não de argumentos, mas do teu amor, da tua confiança, da tua disponibilidade para receber.(Rajneesh)


Grupo
Compartilha, mas não comercies. Não faça barganhas. O céu não é para comerciantes. O céu é para os que celebram.(Rajneesh)


Poeta 3
O homem é uma corda atada entre o animal e o além do homem. Uma corda sobre um abismo. Perigosa travessia, perigoso olhar para trás, perigoso arrepiar-se e parar. (Nietzsche)


Poeta 1
O que é grande no homem é que ele é uma ponte e não um fim. O que pode ser amado no homem é que ele é um passar e um sucumbir.(Niet)


Poeta 2
Amo aqueles que não sabem viver a não ser como os que sucumbem, pois são os que atravessam.(Niet)


Poeta 1
Amo aquele que a alma se esbanja, que não quer gratidão e que não devolve: pois ele sempre dá e não quer poupar-se.(Niet)


Poeta 2
Amo aquele que se envergonha quando o dado cai em seu favor, e que então pergunta:sou um jogador desleal? – pois quer ir ao fundo. (Niet)


Grupo
Eu anuncio coisas novas, ilhas catai um novo canto. (jorge de lima)


Poeta 3
Quem se eu gritasse entre os anjos me ouviria? E mesmo que um deles me tornasse inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo senão o grau do Terrível que ainda suportamos e que admiramos porque, impassível, desdenha destruir-nos? (rilke)




Grupo
Todo anjo é terrível

Poeta 1
Eu me contenho e reprimo o apelo de meu soluço obscuro.


Grupo
Ai, quem nos poderia valer?

Poeta 2
Nem anjos, nem homens e o intuitivo animal logo adverte que para nós não há amparo neste mundo definido.


Poeta 3
Resta-nos, quem sabe, a árvore de alguma colina, que podemos rever cada dia; resta-nos a rua de ontem e o apego cotidiano de algum hábito que se afeiçou a nós e permaneceu.


Poeta 1
E a noite, a noite, quando o vento pleno de espaços do mundo desgasta-nos a face – a quem se furtaria ela, a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o coração solitário? Será mais leve para os que se amam?
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino. Não o sabias?


Poeta 2
Arroja o vácuo aprisionado em teus braços para os espaços que respiramos – talvez os pássaros sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.


Poeta 3
Sim as primaveras precisavam de ti. Muitas estrelas queriam ser percebidas. Do passado profundo afluía uma vaga, ou quando passavas sob uma janela aberta, uma viola d’amore se abandonava. Tudo isto era missão. Acaso a cumpriste?


Poeta 1
Não estavas sempre distraído, à espera, como se tudo anunciasse a amada?


Poeta 2
Onde queres abrigá-la, se grandes e estranhos pensamentos vão e vem dentro de ti e, muitas vezes, se demoram nas noites?


Poeta 3
E, se a nostalgia vier, canta as amantes; ainda não é o bastante imortal sua celebrada ternura.




Poeta 1
Vozes, vozes.


Poeta 2
Vozes, vozes.


Poeta 3
Vozes, vozes.


Grupo
Vozes, vozes.


Poeta 1
Ouve meu coração, como outrora apenas os santos ouviam, quando o imenso chamado os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados, os prodigioso, e nada percebiam, tão absortos ouviam


Poeta 2
Não que possas suportar a voz de Deus, longe disso. Mas ouve essa aragem, a incessante mensagem que gera o silêncio.


Poeta 3
É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra, abandonar os hábitos longamente aprendidos, às rosas e outras coisas singularmente promissoras. Não atribuir mais o sentido do vir a ser humano; o que se era, entre mãos trêmulas, medrosas.


Poeta 1
Não mais o ser. Abandonar até mesmo o próprio nome como se abandona um brinquedo partido.

Poeta 2
Estranho, não desajar mais nossos desejos. Estranho ver no espaço tudo quanto se encadeava, esvoaçar, desligado.


Poeta 3
E o estar morto é penoso e quantas tentativas até encontrar em seu sio um vestígio de eternidade. (rilke)


Poeta 1
Essa rua é minha rua. Essa casa é minha casa. Esse é o povo que eu amo e que traí tanto tempo. Esse céu de madrugadas, essas vozes da cidade, essas ruas que anoitecem sonhos, mortes, serenatas. Tudo isso eu vivo em mim, tudo isso me pertence. (ronald zomignan de carvalho)



Poeta 2
Essa rua é minha rua, em que desfilo meus sonhos, em que me vejo menino correndo atrás de uma bola. Em que me vejo poeta correndo atrás do meu sonho, em que me vejo sonhando a liberdade de um dia. Tudo isso eu entendo, é minha língua que falam. O mais é estrangeiro e quase nem me pertence.


Poeta 3
Essa rua é minha rua, nessa calçada eu amei, nessa rua me criei, chorei, brinquei, morrerei. O mais é muito distante. Minha luta é aqui, minha pátria é aqui, e aqui o meu povo que sofre. Aqui tenho minha luta, minha flauta, minha roupa. Minha verdade amanhã.


Poeta 1
Essa rua é minha rua, nela que eu luto e trabalho, nela eu ensino e discurso, nela eu faço meus poemas, nela eu tenho namorada, o pai, a mãe, a esperança. Nela se resume tudo o que eu tenho pra mim. Minha rua companheiro, com meu povo companheiro, minha idéia e destino.


Poeta 2
Essa rua é minha rua, de cores e amores cheia




Poeta 3
Essa casa é minha casa, de livros e sonhos cheia. Essas coisas livres todas é meu sonho de um dia, a liberdade sonhada para essa rua e esse povo, é tudo que eu hoje tenho. É minha luta e me basta.


Poeta 1
Esses últimos versos são do poeta Ronald Zomignan de Carvalho, que disse certa vez: Eu sou um homem simples, e disso decorrem as coisas que escrevo, que não são nem alegres nem tristes.São apenas eu: um homem irremediavelmente preso à seu tempo e à sua gente, à revolta construtora de sua geração. Que reconhece apenas três valores: o amor, a poesia e a luta.

Poeta 2
Quje pode umas criatura senão entre criaturas, amar? Amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar? Sempre, e até de olhos vidrados, amar? (drummond)


Poeta 3
Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar?


Poeta 1
Amar o que o mar traz às praias, o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Poeta 2
Amar solenemente as palmas do deserto, o que é entrega, ou adoração expectante, e amar o inóspito, o áspero, um vaso sem flor, um chão de ferro, e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.


Grupo
Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na concha vazia do amor a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor..


Poeta 2
Amar a nossa falta mesma de amor e na secura nossa amar a água implícita e o beijo tácito, e a sede infinita.(drummond)


Poeta 1
Mas que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luiz do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos e pais dentro de um enigma? (GULLAR)


Poeta 2
Mas que importa um nome debaixo desse teto de telhas encardidas vigas à mostra entre cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um armário diante de garfos e facas e pratos louças que se quebraram já

Poeta 3
Um prato de louça ordinária não dura tanto e as facas se perdem e os grafos se perdem pela vida caem pelas falhas do assoalho e vão conviver com ratos e baratas ou enferrujam no quintal esquecidos entre os pés de erva cidreira e as grossas orelhas de hortelã


Grupo
Quanta coisa se perde nesta vida


Poeta 1
Como se perdeu o que eles falavam ali, mastigando, misturando feijão com farinha e nacos de carne assada


Poeta 2
E diziam coisas tão reais como a toalha bordada ou a tosse da tia no quarto e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente à nossa janela


Poeta 3
Tão reais que se apagaram para sempre. Ou não?


Poeta 1
Não sei de que tecido é feita minha carne e essa vertigem que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros de gás e mijo a me consumir como um facho-corpo sem chama


Poeta 2
Ou dentro de um ônibus. Ou no bojo de um Boeing 707 acima do Atlântico, acima do arco-iris, perfeitamente fora do rigor cronológico, sonhando.


Poeta 3
Garfos enferrujados, facas cegas, cadeiras furadas, mesas gastas, balcões de quitanda, pedras da Rua da Alegria, beirais de casas cobertos de limo, muro de musgos, palavras ditas à mesa do jantar, voais comigo sobre continente e mares.


Poeta 1
E também rastejais comigo pelos túneis das noites clandestinas, sob o céu constelado do país, entre fulgor e lepra, debaixo de lençóis de lama e de terror. Vos esgueirais comigo, mesas velhas, aramários obsoletos, gavetas perfumadas de passado, dobrais comigo as esquinas do susto e esperais, esperais que o dia venha


Poeta 2
Enquanto vou entre automóveis e ônibus, entre vitrinas de roupas, nas livrarias, nos bares, tic tac tic tac pulsando há 45 anos esse coração oculto pulsando no meio da noite, da neve, da chuva, debaixo da capa, do paletó, da camisa, debaixo da pele, da carne, combatente clandestino, aliado da classe operária –meu coração de menino. (gulllar)


Poeta 3
E existem muitas maneiras de amar e lutar fazendo poesia.


Poeta 1
Há 43 anos surgia em São Paulo a Catequese Poética – movimento em que poetas, a exemplo do que já aconteceu no passado em várias partes do mundo, levavam ao povo seu próprio canto. Centenas de apresentações foram feitas em colégios, faculdades, teatros, clubes, livrarias, sindicatos, bares e até boates.


Poeta 2
Também as praças e as ruas não ficaram de fora desse roteiro que procurava acabar com a repressão lírica e com o confinamento do poema e do poeta. A Catequese Poética acreditava e acredita que o lugar do poema é onde possa inquietar. O poema é o dilema. O poeta é o que projeta. O lugar do poema é onde possa inaugurar. O lugar do poeta são todos os lugares.


Poeta 3
É nessa direção que aconteceu o Sermão do Viaduto –realizado no Viaduto do Chá em julho de 1964 –com a participação de Álvaro Alves de Faria, Lindolf Bell, Eduardo Alves da Costa e Clarice Jacy.



Poeta 1
Pouco tempo depois, em 1965, o Comício Poético da Praça da Sé reuniu novamente alguns desses poetas e também Rubens Jardim, que naquela oportunidade leu este poema:


Poeta 2
Já cantam os profetas a última cançãol e nós trazemos a esta Praça nossa única verdade: os homens são irmãos! E se renegam sua irmandade é nossa missão denunciá-la


Poeta 3
Eu tenho sangue nos olhos e sangue no ventre


Poeta 1
Eu tenho no sangue o último soldado na última batalha


Poeta 2
Eu tenho no sangue a última guerra

Poeta 3
A última pátria


Poeta 1
O último planeta, a última estrela

Poeta 2
Euj tenho no sangue o acervo de todas as mortes e o testemunho de todas as vidas


Poeta 3
Eu tenho no sangue os últimos lobos, os últimos cordeiros, a última fera, o último pássaro, o último homem.

Poeta 1
Eu tenho no sangue a última viagem interplanetária, o último megaton, a última angústia, o último suicida.


Poeta 3
Eu tenho no sangue a perspectiva da última paz, da última praça, do último povo, do único povo

Grupo
E eu planto aqui – no cerne de cada coração – o ultimatum da minha última esperança.


Poeta 2
E eu planto aqui – no cerne de cada coração – o ultimatum da minha última esperança.


Poeta 3
Minha poesia não rejeitou nada do que pôde trazer em seu caudal; aceitou a paixão, desenvolveu o mistério e abriu caminho entre os corações do povo. Coube a mim sofrer e lutar, amar e cantar; couberam-me na partilha do mundo, o triunfo e a derrota, provei o gosto do pão e do sangue. Que mais quer um poeta? E todas as alternativas, desde o pranto até os beijos, desde a solidão até o povo, perduram em minha poesia, atuam nela porque vivi para a minha poesia e minha poesia sustentou minhas lutas. E se muitos prêmios alcancei, alcancei um prêmio maior , um prêmio que muitos desdenham mas que na realidade é inatingível para muitos. Cheguei, através de uma dura lição estética e de busca, através dos labirintos da palavra escrita, a ser poeta de meu povo. Meu prêmio é esse momento grave de minha vida, quando do fundo da mina de carvão de Lota, sob o sol a pino da salitreira abrasada subiu um homem como se ascendesse do inferno e, estendendo-me a mão calejada, essa mão que leva o mapa do pampa em suas calosidades e em suas rugas, disse-me com olhos brilhantes: “Eu o conhecia há muito tempo, irmão.” Esse é o laurel de minha poesia. (Neruda)

Poeta 1
Convirá tantas vezes morrer, tantas vezes fluir, tantas vezes amar, tantas vezes viver com a vida entre os dentes como um sabre? Convirá crescer para a possibilidade de sermos podados? Convirá a pungência das horas amargas, das horas comuns? (bell)


Poeta 2
Talvez nos convenhamos assim, com a grande paisagem a ser construída – paisagem bruta e de pureza.


Poeta 3
Sim, assim nos conviremos, cheios de arestas e dilemas, encravados na praça interior dos brinquedos de metal.


Poeta 1
Aceitar e passar a existir sem tréguas. Aguardar com cicatrizes um ao outro para surpreender.


Poeta 2
Convirá viver não do que se vive, mas do que se conquista? Convirá viver não do maldito tempo e do bendito tempo – mas do tempo que nasce para nascer?


Poeta 3
Eu abençôo porque nada se acresce em vão. Nem o mútuo roubo das redomas(vestígios de noite, reencontros, memórias e ventos) nem o trauma de caminhos interrompidos e o silo de coisas perdidas que pouco a pouco fecha o seu portal.


Poeta 1
Sentir o peso das abóbodas e não sucumbir. Sacudir a árvore com o vento nascido de dentro para que pássaro nenhum se agasalhe e o verde de fruto nenhum permaneça em estagnação.


Poeta 2
Drenar o presente como um passaporte. Parir contra a fachada dos muros para o pânico esplender como uma barco se asas ou uma creisálida dentro do cérebro fingindo voar.


Poeta 3
Convirá isto que nos comprime para fora, este quase inteiro, este infinitamente multiplicado em pedaços, este ter uma vara nas mãos para buscar água e ser caminheiro no reino das passagens a vau?


Poeta 1
Assim nos conviremos. Nunca mais o fingir para caber no porto e saber das dores todas do nascer com anos, águas e sedas


Poeta 2
Oh! Convém, inteiramente convém, convém viver, convém viver com inconseqüência, convém viver como convém ter membros e sangue, convém viver e confluir com nenhuma sobra, com nenhuma senha.(L. Bell)


Poeta 3
Quero cantar a canção do companheirismo, escreverei o poema evangelho do amor e dos camaradas, pois quem a não ser eu entenderia o amor com toda a sua mágoa e alegria?


Poeta 1
Eu falarei de todas as ternuras que te pertenceriam.


Poeta 2
Eu falarei das flores e dos frutos que abrigarias nos dedos.


Poeta 3
Eu falarei de todas as canções que ouvirias crescer.


Poeta 1
Eu falarei das paisagens, muitas que se abririam claras para ti


Poeta 2
Eu sou a testemunha que chega para visitar vossa morada. Oferecei-me a paz e o vinho.


Poeta 3
Não nasci no começo deste século. Nasci no plano do eterno. Nasci de mil vidas superpostas. Nasci de mil ternuras desdobradas.

Poeta 1
Vim para conhecer o mal e o bem. E para separar o mal do bem.


Poeta 2
Vim para amar e ser desamado.


Poeta 3
Vim para ignorar os grandes e consolar os pequenos.

Poeta 1
Não vim para construir minha própria riqueza, nem para destruir a riqueza dos outros.

Poeta 2
Vim para reprimir o choro formidável que as gerações anteriores me transmitiram.


Poeta 3
Vim para experimentar dúvidas e contradições.


Poeta 1
Vim para sofrer as influencias do tempo e para afirmar o principio eterno de onde vim.


Poeta 2
Vim para distribuir inspiração às musas.

Poeta 3
Vim para anunciar que a voz dos homens abafará a voz das sirenas e da máquina. E que a palavra essencial de Jesus Cristo, dominará as palavras do patrão e do operário.


Poeta 1
Vim para conhecer Deus meu criador, pouco a pouco, pois se O visse de repente, sem preparo, morreria.(jorge de lima)


Poeta 2
O que penso eu do mundo? Sei lá o que penso do mundo! Se adoecesse pensaria nisso. Que idéia eu tenho das cousas? Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos? Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma e sobre a criação do mundo? Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos e não pensar. É correr as cortinas da mina janela(mas ela não tem cortinas?) O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! O único mistério é haver quem pense no mistério.(F. Pessoa)


Poeta 3
O único sentido íntimo das cousas é elas terem sentido íntimo nenhum. (F. Pessoa)


Grupo
Bem aventurados os que choram, porque eles serão consolados. Bem aventurados os mansos porque eles herdarão a terra. Bem aventurados os pacificadores porque eles serão chamados de filhos de Deus. Exultai e alegrai-vos. (J. Cristo)


Poeta 3
Quando o amor vos chamar – segui-o, embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados; e quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe, embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos; e quando ele vos falar, acreditai nele, embora sua vox possa despedaçar vossos sonhos como o vento devasta o jardim.


Poeta 1
Pois da mesma forma que o amor vos coroa, ele vos crucifica. E da mesma forma que ele contribuiu para vosso crescimento, ele trabalha para vossa poda. E da mesma forma que ele sobe à vossa altura e acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol. Assim também ele desce até vossas raízes e as cacode no seu apego à terra. Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração. Ele vos debulha para expor a vossa nudez. Ele vos peneira para libertar-vos das palhas. Ele vos mói até a extrema brancura. Ele vos amassa até que vos torneia maleáveis. Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma no pão místico do banquete divino.

Poeta 2
Todas essas coisas o amor operará em vós para que conheçais os segredos de vossos corações e, com esse conhecimento, vos convertais no pão místico do banquete.

Poeta 3
Mas o amor é um fenômeno marginal em nossos dias. Aqueles que se preocupam seriamente com o amor como a única resposta ao problema da existência humana devem chegar a conclusão de que são necessários radicais mudanças em nossa estrutura social para que o amor se torne um fenômeno social e não um fenômeno individualista e marginal. Nossa sociedade é uma burocracia gerencial de políticos profissionais. O povo é motivado pela sugestão da massa. Seu alvo é produzir mais e consumir mais. Todas as atividades se subordinam a metas econômicas. Os meios se tornaram fins.


Poeta 1
O homem moderno está efetivamente próximo daquele quadro que Huxley descreve em seu Admirável Mundo Novo:


Poeta 2
Bem alimentado


Poeta 3
Bem trajado


Poeta 1
Sexualmente satisfeito

Poeta 2
E contudo sem personalidade. Sem qualquer contato com seus semelhantes a não ser o mais superficial, guiados pelos lemas que Huxley, formulou tão sucintamente como estes:


Poeta 3
Quando o indivíduo sente a comunidade vacila


Poeta 1
Nunca deixes para amanhã o prazer que podes ter hoje


Poeta 2
Ou como afirmativa culminante:


Grupo
Todos agora são felizes.


Poeta 3
A felicidade do homem, hoje em dia, consiste em divertir-se.


Poeta 1
E divertir-se consiste na satisfação de consumir e obter


Poeta 2
Artigos


Poeta 3
Panoramas


Poeta 1
Alimentos


Poeta 2
Bebidas


Poeta 3
Cigarros


Poeta 1
Gente

Poeta 2
Conferências

Poeta 3


Poeta 1
Filmes


Poeta 2

Tudo é consumido. Engolido. O mundo é um grande objeto de nosso apetite. Uma grande maçã. Uma grande garrafa. Um grande seio.

Poeta 3
E nós somos os sugadores. Os eternamente em expectativa. Os esperançosos e os eternamente decepcionados.


Poeta 1
Mas eu creio no homem como um pescador crê no mar. E eu vou ao homem como um pescador vai ao mar. (R. Jardim)

Poeta 2
É claro que uma geração pode aprender com a outra. Porém aquilo que é exatamente humano, nenhuma pode aprender daquela que a antecedeu.


Poeta 3
Cada geração reinicia como se se tratasse da primeira. Nenhuma possui missão nova além da anterior, e não vai mais longe, a não ser que tenha atraiçoado a sua obra, que se tenha iludido a si própria.

Poeta 1
O que eu denomino propriamente humano é a paixão, por meio da qual cada geração entende completamente a outra e entende a si mesma.
Deste modo, no que tange ao amor, nenhuma geração aprenderá a amar com outras, nenhuma principia senão do inicio. E se não quer, como as anteriores, contentar-se em amar, e pretende ir mais longe, não passou de inúteis e censuráveis palavras.


Poeta 2
Palavras, palavras palavras… (Shakespeare)



Poeta 3
Gastei uma hora pensando um verso que a pena não quer escrever. No entanto ele está cá dentro, inquieto, vivo. Ele está cá dentro e não quer sair. Mas a poesia deste instante inunda minha vida inteira. (Drummond)

Poeta 1
Entre o artista plástico e o músico – está o poeta, que se avizinha do artista plástico com sua produção consciente, enquanto atinge as possibilidades do músico no fundo obscuro do inconsciente.


Poeta 2
Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o. sou místico, mas só com o corpo. A minha alma é simples e não pensa. O meu misticismo é não querer saber. É viver e não pensar nisso. (pessoa)


Poeta 3
Só a desordem nos une. Ceticamente. Barbaramente. Sexualmente. Nós nos manifestamos contra a aurora pelo crepúsculo, contra o tênis pelo box, contra as cegonhas pelos gambás, contra as responsabilidades pelas sensações, contra os ovos cartesianos pelo óleo de Rícino, contra o governo por uma convenção de cozinheiros, contra a mente pelo corpo, contra o céu pela terra, contra a lógica pela magia, contra o cordeiro pelo lobo, contra o regulamento pela compulsão, contra o meio dia pela meia-noite.


Poeta 1
Esse é o vale e esta a mão que o desmancha para que ainda maior seja a identidade entre os guardiões e os guardados.(E. M. Muller)


Poeta 2
Eu cantarei de amor tão docemente, por uns tempos em si tão concertados, que dois mil acidentes namorados faça sentir ao peito que não sente. (camões)


Poeta 3
A minha canção será como um par de asas para teus sonhos. E quando a minha voz emudecer na morte, a minha canção falará no teu coração vivo.


Poeta 1
A linguagem parece outra mas é a mesma tradução. Mesma viagem presa e fluente, e a ansiedade da canção.


Poeta 2
Os outros que cantem passo por passo: eu morro ontem, nasço amanhã, ando aonde há espaços. Meu tempo é quando. (Vinicius)

Poeta 3
Algum dia uma última rotação desesperada, extrema e quem sabe – a cidade de todos, meu poema.

Poeta 1
Não faço versos de guerra. Não faço porque não sei. Mas num torpedo suicida darei de bom grado a vida, na luta que não lutei.


Poeta 2
Não posso cruzar os braços diante destes naufrágios.


Poeta 3
Tu que aí choras, dize em verdade, o que fizeste da mocidade?


Poeta 1
Foi poeta, sonhou e amou na vida. (Álvares de azevedo)



Poeta 2
Eu sou aquele que ficou sozinho, cantando sobre os ossos do caminho a poesia de tudo quanto é morto.


Poeta 3
Ou a gente mete uma bala na cabeça ou entre redemoinho vital para dizer e denunciar. (bell)


Poeta 1
Eu não irei às praças distribuir migalhas aos pombos. Irei ao alto do monte mais alto mostrar a imensidão aos falcões que precisam de espaço.


Poeta 2
No livro do tempo não foram cantadas as mil páginas da revolução. Para a rua tambores, poetas…


Poeta 3
Recolhamo-nos meus irmãos que já é tarde e há lá fora hienas que gostam de sangue.

Poeta 1
Encontraremos a bem-amada quando a noite passar. Eu vos anuncio a bem –amada.


Poeta 2
Até a consumação dos séculos os nossos irmãos que nascerem se reunirão como nós.


Poeta 3
Os profetas se reunirão como nós.


Poeta 1
Nós somos elos apenas.


Poeta 2
Eu vos anuncio a consolação.


Poeta 3
As nossas vozes intempestivas atraem as hienas lá fora.


Poeta 1
Nós não temos armas.


Poetas 2 e 3
Os uivos aumentam


Grupo
Adeus, meus irmãos!

14 Comentários

  1. berenice sica lamas
    maio 12, 2011

    uma das cartografias poeticas mais tocantes e instigantes ja apresentadas e compartilhadas em vidraguas – viva a poesia ! vivam os/as poetas! cumprimentos estelares, abç berenice

  2. carmen silvia presotto
    maio 13, 2011

    E vivam e revivam os poetas, penso que é bom estar com eles aqui em mais um Cartografia Poética, também gostei muito. Beijos e obrigada Brerenice.

  3. Wilson Caritta
    maio 5, 2013

    vou ler tudo isso com muita atenção!! …
    abraços.

  4. carmen
    maio 6, 2013

    Que bom e seguimos, Wilson.

    Beijos,

    Carmen.

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