a minha, a tua,
eu poderia dizê-la em duas
ou três palavras ou mesmo
numa
corpo
sem falar das amplas
horas iluminadas,
das exceções, das depressões
das missões,
dos canteiros destroçados feito a boca
que disse a esperança
fogo
sem adjetivar a pele
que rodeia a carne
os últimos verões que vivemos
a camisa de hidrogênio
com que a morte copula
(ou a ti, março, rasgado
no esqueleto dos santos)
Poderia escrever na pedra
meu nome
gullar
mas eu não sou uma data nem
uma trave no quadrante solar
Eu escrevo
facho
nos lábios da poeira
lepra
vertigem
cana
qualquer palavra que disfarça
e mostra o corpo esmerilado do tempo
Voltava da praia distraída, pensando no dizer tomo suas mãos nas minhas, uma despedida de Antón Tchecov e Olga Knipper, que também é uma peça teatral de Carol Rocamora com tradução e direção de Leila Hipólito e atuação de Roberto Bomtempo e Miriam Freeland, onde 400 cartas contextualizam a história de amor dos últimos seis anos do escritor com a atriz amada, quando miro uma camiseta amarela vindo em minha direção, reconheço os passos e sinto o cheiro da banda e na minha frente vejo a lenda: Chico Buarque…
Na hora contenho o arrepio e o impulso e sigo como se quem passasse fosse alguém comum e no Rio de Janeiro é, porque por cada esquina pode estar uma estrela, um mito, por isso se deve conter os disparos do coração, esquecer as máquinas fotográficas e arregalar bem os olhos para gravar a cena.
No entanto confesso que estes encontros me fazem desejar aprender a técnica de tropeçar nos astros desastradas, treinando o tombo, numa hora dessas num dia qualquer, quem sabe não seja despertada por um olê, olá?
É!
Aprender a cair pode ser uma arte, e isso presenciei em No Buraco, outra peça teatral que me fez repensar o espaço temporal do silêncio, um trabalho muito intrigante que se passa em uma hora, utilizando a técnica da pantominia e de mímica ilusória.
E os poetas escrevem. Como eu, os poetas escrevem.
Torrentes, catadupas de versos
e sinais
sem saber ao certo, onde, como, quem e quando
os poetas escrevem
e entulham as antologias com sua Flor de Romances finados
caindo na vala comum do Cancioneiro Geral
ou nem isso
como índio cantando
a derrocada de sua tribo e sua carne
es asediada, es aborrecida la ciudad de Huexotzinco
con armas fué cercada, com dardos fué punzada Huexotzinco
E assim despejam sobre a história o seu sentido
querendo nela reter-se
E os versos cruzam avenidas e paixões
se inscrevem no telex, banheiro e galpões
retomam com o amor do exílio e caem na marmita operária
e soturnos se mexem
e se agitam nos forros das consciências
como gambás noturnos
– pela morada do ser.
Houve um tempo
em que era fácil fazer poesia:
bastava eleger a forma
e preenchê-la
com mais ou menos habilidades.
Tudo codificado
e empacotado
na acadêmica memória
na audácia vanguardista
nos manifestos-receitas
num mutirão de escola
e assim
o poeta inventa a bossa
a forma
a glosa
moderna e airosa
causando inveja aos demais
Mas ninguém escreve por outro
Cada cabeça uma leitura
cada escrita um estória
cada invenção na sua hora.
– Então poesia é isso?
– Não tem espaço?
e nela o ontem é o hoje e o amanhã já era?
- Então poesia é o não-tempo do verbo?
o futuro do pretérito?
– e o incondicional presente?
- Então é isso a escrita do homem?
Um intervalo entre dois sons?
duas intercomidas fomes?
duas intercaladas falas?
um orgasmo perseguido
entre duas deitadas sombras?
- Que é poesia? Nenhum de nós pode pretender, lucidamente, apresentar, sobre isto, um conceito definitivo. O mais que podemos fazer é procurar estabelecer, discutindo o assunto por algum tempo, o que representa para nós, a esta altura, aquilo que chamamos de “poesia”. Jovens poetas que somos, em período de formação, não devemos frear nosso desenvolvimento com a construção de conceitos e definições pretensiosamente fixos e rígidos.
A beleza do mundo pode ser ou não ser, dependendo da habilidade do artista, captada através da música, da pintura, da escultura, da dança, ate da arquitetura que, felizmente para os arquitetos, é a arte menos sujeita a tais ingenuidades. Fixado esse ponto (em resumo: que não nos interessa, nesse momento, o conceito vulgar de “poesia” vagabunda, ave caprichosa pairando sobre o mundo, surgindo ou pousando neste ou naquele cenário ou objeto) podemos aproximarmo-nos um pouco mais de um conceito de poesia (arte poética, é claro) se dissermos que se trata antes de tudo de uma maneira de ser da literatura, ou seja, da arte da palavra, da arte de exprimir percepções através de palavras, organizando estas em padrões lógicos, musicais e visuais.
“…O poeta entende a poesia segundo seus próprios poemas…”
É provável que ele (Poe) acreditasse sinceramente que um poema podia ser escrito de fora para dentro; mas, embora vigiasse como poucos o processo de sua criação, escreveu os seus como todos os poetas, aceitando o que vinha pela ponte do indefinido e pondo em ordem estética, em criação rítmica de beleza, a outra ordem mais profunda e incompreensível.
Assim como o poeta não deve se propor a verdade como fim, nada tem tampouco que ver com a moral, com o dever. Sua finalidade não é moral alguma extraível do seu tema, e um poema não deve ser uma alegoria, a menos que esta aponte para fins meramente exaltadores. Mas não basta que um poema esteja livre de didatismo e de “mensagem”; é preciso, ainda, que não seja um produto da paixão. A paixão exalta os corações, mas não as almas, o humano do homem e não sua partícula imortal. O poeta não pode prescindir de suas paixões, mas as incorporará ao poema como estímulos imaginativos e, não, como paixões em si.
O poema visa, por via da beleza, a mostrar ao homem o paraíso perdido, a entreabrir as portas que a vida terrena mantém fechadas. A poesia, conforme a definirá finalmente, é a criação rítmica da beleza: a definição é funcional, pragmática, artística. É uma definição mais para uso do poeta do que para a iluminação de leitores de poética. Mas em seu tom deliberadamente técnico busca salvaguardar a liberdade da poesia, sua condição de produto puramente imaginativo; a idealidade – tal como a entendiam Poe e os frenólogos do seu tempo, ou seja, a faculdade puramente criadora do homem – é a única fada presente neste batismo da princesa Poesia.
Nem veículo doutrinário, nem artifício alegórico, nem arrebatamento apaixonado, o poema é um produto livre e desinteressado da imaginação do poeta. Poe o repete com bonito entusiasmo: “ A verdade é que, se nos atrevêssemos a olhar no fundo de nosso espírito, descobriríamos imediatamente que sob o sol não há nem pode haver uma obra mais digna nem de mais alta nobreza que esse poema, esse poema per se, esse poema que é um poema a nada mais, esse poema escrito somente pelo poema em si”.