Archive for the ‘Entrevistas’ Category

pensando a Poesia com Ferreira Gullar



Vida

a minha, a tua,
eu poderia dizê-la em duas
ou três palavras ou mesmo
numa

corpo

sem falar das amplas
horas iluminadas,
das exceções, das depressões
das missões,
dos canteiros destroçados feito a boca
que disse a esperança

fogo

sem adjetivar a pele
que rodeia a carne
os últimos verões que vivemos
a camisa de hidrogênio
com que a morte copula
(ou a ti, março, rasgado
no esqueleto dos santos)

Poderia escrever na pedra
meu nome

gullar

mas eu não sou uma data nem
uma trave no quadrante solar
Eu escrevo

facho
nos lábios da poeira

lepra
vertigem
cana

qualquer palavra que disfarça
e mostra o corpo esmerilado do tempo

câncer
vento
laranjal

Ferreira Gullar, poema do livro O Vil Metal

pensando a Poesia com Eucanaã Ferraz



saiba mais no site do autor:http://eucanaaferraz.com.br/

pensando a Poesia com Ricardo Silvestrin e Nei Duclós

SILVESTRIN

No domingo 17 de janeiro de 2010, em vez de falar da vida alheia, Ricardo Silvestrin dá início ao Projeto Diálogos, uma conVersa com poetas que admira…
Diálogos é uma idéia genial, que venha para ficar!
A série foi criada para o seu blog Poesia Alheia (http://www.silvestrin.blogspot.com/), que também está sendo compartilhada no Vidráguas.

O primeiro encontro, que girou até um arco-íris na praia dos Ingleses foi com Nei Duclós.

Nei_duclos
Jornalista desde 1970, autor de sete livros publicados de poesia, romance, crônicas e literatura infanto-juvenil e alguns inéditos de ensaios e contos. Formado em História pela USP. Nasceu em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, em 1948.

Ricardo:
“Quem tomba primeiro ensina a tombar”?
Nei:
Sim, dá o mau exemplo. Tombar é um verbo muito caro a nós, poetas daqueles idos de 1969, tempo de guerra. O Marco Celso tem um poema belíssimo que termina assim: “Tombam os primeiros homens nos trigais”, que serviu de título para nosso primeiro livro, uma antologia, seleta de poemas do Celso e meus, mais os contos da Mariza Scopel. A partir desse “tombam” original fiz o “quem tomba primeiro ensina a tombar”, que é um apelo à resistência. Gosto do verbo, gosto do seu som de tambor, de corpo que bate no chão, faz barulho, convoca, alerta, reclama. Agora eu pergunto: Você é um poeta estranho, presta uma atenção danada no que os outros escrevem, rema contra o autocentrismo tão comum no nosso ofício. Quem te deu régua e compasso para seres assim, completamente diferente dos teus pares? Como aconteceu esse milagre?

Ricardo:
Tombar e tambor. Belo anagrama. Lia esse verso do teu poema também pelo lado positivo. Claro, fora do sentido político, de luta, que, como disseste, era preciso não tombar, resistir. Mas vejo também pelo lado humano, de aprendizado de vida. Quem cai primeiro, e todo mundo cai e levanta na vida, ensina a cair. É preciso saber cair pra saber se levantar. A gente não acha que possa cair, até que cai. Então, é preciso saber que se cai, que é assim mesmo. Quem cai primeiro avisa e vamos juntos, uns ajudando os outros a se levantar. Não era a tua leitura, mas li isso na tua escrita. Quanta a sair do autocentrismo, comecei a gostar de escrever poesia depois de ler aos 15 anos a Antologia Poética do Manuel Bandeira. Foi uma descoberta. E segui descobrindo, Drummond, Mario de Andrade, Oswald, Nei Duclós com o Outubro e continuo descobrindo até hoje. Ganhei de presente no mês passado em São Paulo o livro do Carlos Felipe Moisés, Noite Nula. Era um evento na Casa das Rosas. É um livro maravilhoso. Há poemas excelentes como um dedicado a um lutador de boxe americano. Adoro ler boa poesia. Meus amigos João Angelo Salvadori, Ricardo Portugal, Alexandre Brito, Ronald Augusto, meu irmão Roberto, o compositor Ênio Filho (o Foca), fomos juntos escrevendo e mostrando uns para os outros durante os últimos vinte anos. Daí surgiram a Coolírica, a coleção Petit Poa, a ameopoema, as bandas Os 3 Poetas, os poETs. Fomos a Manaus com os poETs a convite do ótimo poeta Aníbal Beça, gente finíssima que morreu há pouco. Fomos a Brasília e convivemos com Nicolas Behr, Turiba, Paco Cac, Fred Maia, Portugal. Há anos visito a Alice Ruiz e ela me visita. O bom da arte e da vida é compartilhar. É bom lembrar que a gente está vivo por um tempo. Se não aproveitar, perdeu a viagem. Pergunto: vejo na tua poesia e na tua geração uma aguçada visão dos jogos de poder. Não são bobos de hoje. Farejam um canalha a quilômetros de distância. Isso foi aprendido na prática, é marca de um tempo, é bossa de geração? Essa visão de vocês faz muita falta hoje.

Leiam seus livros
capalivro

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Leiam todo o Dialógo aqui ou nos blogs dos autores:
http://outubro.blogspot.com/
e
http://www.silvestrin.blogspot.com/

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pensando a Poesia com Manoel de Barros

Poeta é um ser escaleno.
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“Tudo, creio, já foi pensado e dito por tantos e tontos. Ou quase tudo. Ou quase tontos. De modo que não há novidades debaixo do sol – e isso também já foi dito. “Os temas do mundo são pouco numerosos e os arranjos são infinitos” – falou Barthes. Então, o que se pode fazer de melhor é dizer de outra forma. É des-ter o assunto. Se for para tirar gosto poético, vai bem perverter a linguagem. Não bastam as licenças poéticas, é preciso ir às licenciosidades. Temos de molecar o idioma para que ele não morra de clichês. Subverter a sintaxe até a castidade: isto quer dizer: até obter um texto casto. Um texto virgem que o tempo e o homem ainda não tenham espolegado.

O nosso paladar de ler anda com tédio. É preciso propor novos enlaces para as palavras. Injetar insanidade nos verbos para que transmitam aos nomes seus delírios. Há que se encontrar a primeira vez de uma frase para ser-se poeta nela. Mas tudo isso é tal antigo como menino mijar na parede. Só que foi dito de outra maneira.

manoel de barros

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a concha vazia, poema inédito de Paulo Neves

A concha vazia

Refugo do mar jogado na areia.
Vento em rodopio nas suas volutas.
Refúgio do mar, canto de sereia
que o tempo esculpiu. A forma da escuta.

Poema de Paulo Neves, lido e copiado do Jornal ZH de sábado (19/12/2009), Caderno Cultura.

Paulo Neves é autor do livro Viagem, espera, editado pela Companhia das Letras.

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E vale acompanhar sua entrevista, aqui ou no Caderno Cultura- Jornal ZH de 19/11/2009, sobre o ofício do poeta

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