Tranças de Carmen
uma receita poética transdisciplinar
Abre o jornal e lê
Abrê o micro
e lê
os blogues junto a ti
os outros
os e-mail
e responda
elimina os possíveis spams..
Depois, de tudo sublinhado
Anota num papel
e para deixar de pensar
escreve
Vai a Livrarias
visite livros
compra
e lê
Encontra amigos
Lê poeta
relê a vida
conVersa
e escreve
Caminha
Absorve a realidade
e escreve
Então espera uma data especial
Te vista de rainha
Inverta a banca doLar
e
Lê
Gumes
Lê
Games
Lê
Ganas
Lê
Desenhos
Te anima
e
Toma um Drinque Labaredas, come um Tomate Verde Frito, inventa outras receitas, brinca, bloga e escreve até seu google chegar…
Poema: Carmen Silvia Presotto
Arte: Américo Conte
* E aguardem logo, logo teremos outra receita: O Banquete de Platão e tudo isso gracias à Poesia que inventa , rompe feiras e bancas, revive e deixa viver.
a minha, a tua,
eu poderia dizê-la em duas
ou três palavras ou mesmo
numa
corpo
sem falar das amplas
horas iluminadas,
das exceções, das depressões
das missões,
dos canteiros destroçados feito a boca
que disse a esperança
fogo
sem adjetivar a pele
que rodeia a carne
os últimos verões que vivemos
a camisa de hidrogênio
com que a morte copula
(ou a ti, março, rasgado
no esqueleto dos santos)
Poderia escrever na pedra
meu nome
gullar
mas eu não sou uma data nem
uma trave no quadrante solar
Eu escrevo
facho
nos lábios da poeira
lepra
vertigem
cana
qualquer palavra que disfarça
e mostra o corpo esmerilado do tempo
E os poetas escrevem. Como eu, os poetas escrevem.
Torrentes, catadupas de versos
e sinais
sem saber ao certo, onde, como, quem e quando
os poetas escrevem
e entulham as antologias com sua Flor de Romances finados
caindo na vala comum do Cancioneiro Geral
ou nem isso
como índio cantando
a derrocada de sua tribo e sua carne
es asediada, es aborrecida la ciudad de Huexotzinco
con armas fué cercada, com dardos fué punzada Huexotzinco
E assim despejam sobre a história o seu sentido
querendo nela reter-se
E os versos cruzam avenidas e paixões
se inscrevem no telex, banheiro e galpões
retomam com o amor do exílio e caem na marmita operária
e soturnos se mexem
e se agitam nos forros das consciências
como gambás noturnos
– pela morada do ser.
Houve um tempo
em que era fácil fazer poesia:
bastava eleger a forma
e preenchê-la
com mais ou menos habilidades.
Tudo codificado
e empacotado
na acadêmica memória
na audácia vanguardista
nos manifestos-receitas
num mutirão de escola
e assim
o poeta inventa a bossa
a forma
a glosa
moderna e airosa
causando inveja aos demais
Mas ninguém escreve por outro
Cada cabeça uma leitura
cada escrita um estória
cada invenção na sua hora.
– Então poesia é isso?
– Não tem espaço?
e nela o ontem é o hoje e o amanhã já era?
- Então poesia é o não-tempo do verbo?
o futuro do pretérito?
– e o incondicional presente?
- Então é isso a escrita do homem?
Um intervalo entre dois sons?
duas intercomidas fomes?
duas intercaladas falas?
um orgasmo perseguido
entre duas deitadas sombras?