Hey, era para ser toda a semana, mas por motivos de viagens, saltamos uma… e seguimos com nosso enRedo poético, rumo ao terceiro webLivros, onde estaremos cantando, lendo e conVersando com a Poesia Portuguesa.
O encontro de hoje é com Eugénio de Andrade, o da semana que passou foi com Natália Correia… bom domingo, boa semana a todos por aqui.
Nocturno da água
Pergunto se não morre esta secreta
música de tanto olhar a água,
pergunto se não arde
de alegria ou mágoa
este florir do ser na noite aberta.
Eugénio de Andrade, Ostinato Rigore (1964) e POESIA
Sobre as sílabas
O assédio do verão, as rolas
dos pinheiros, a risca de sal
das areias; às vezes
chovia – então um barco
de borco era o abrigo,
era o amigo; a chuva abria
o aroma dos fenos, não tardava
o sol em cada sílaba.
Eugénio de Andrade, POESIA e Rente ao Dizer (1992)
efêmeros
são o céu enluarado
os dias claros
a paz
que me consola
efêmera
é a tua voz
que vem do nada
que nada ingrata
na escuridão vazia
efêmero
é o teu tocar
meu corpo desnudo
que se arrepia
e morre de frio
na ausência
que vem depois
efêmero
é o teu sorriso branco
que me guia
na noite escura
nas efemérides da solidão
na distãcia longíqua
das tuas mãos
Poema de Cristina DeSouza, autora de Uns Poucos Versos e que escreve conosco no grupo Vidráguas em redes sociais. Leiam mais poemas em seu blog MiX-tura.
Dokąd biegnie ta napisana sarna przez napisany las?
Czy z napisanej wody pić,
która jej pyszczek odbije jak kalka?
Dlaczego łeb podnosi, czy coś słyszy?
Na pożyczonych z prawdy czterech nóżkach wsparta
spod moich palców uchem strzyże.
Cisza – ten wyraz tez szeleści po papierze i rozgarnia
spowodowane slowem “las” gałęzie.
Nad białą kartką czają się do skoku
litery, które mogą ułożyć się źle,
zdania osaczające,
przed którymi nie będzie ratunku.
Jest w kropli atramentu spory zapas
myśliwych z przymrużonym okiem,
gotowych zbiec po stromym piórze w dół,
otoczyc sarnę, złożyć się do strzału.
Zapominają, że tu nie jest życie.
Inne, czarno na białym, panują tu prawa.
Okamgnienie trwać będzie tak długo, jak zechce,
pozwoli się podzielić na małe wieczności
pełne wstrzymanych w locie kul.
Na zawsze, jesli każę, nic się tu nie stanie.
A alegria da escrita
Tradução de Tiago Halewicz
Para onde corre esta cerva escrita na floresta que escrevi?
Para beber da água escrita,
que imprime seu focinho como se fosse folha de papel?
Por que ela ergue a cabeça, escutou algo?
Sobre as quatro patas emprestadas da realidade
ela levanta a orelha sob meus dedos.
Silêncio—esse termo murmura sobre o papel e afasta
os galhos que surgem com a palavra “floresta”.
Sobre a folha em branco agacham-se para um pulo
letras que podem se dar mal,
formando frases ameaçadoras
das quais nada escapa.
Em cada gota de tinta há um bom estoque
de caçadores de olho na mira,
prontos a descer pela caneta íngreme,
cercar a cerva e apontar as armas.
Esquecem que aqui não há vida.
Preto e branco, aqui reinam outras leis.
Um piscar de olhos será tão longo quanto eu quiser
e poderá ser dividido em pequenas eternidades,
cada uma com o chumbo suspenso em pleno vôo.
Aqui nada acontecerá sem meu aval.
Contra minha vontade, nenhuma folha cairá
e nenhuma grama se dobrará sob o casco da cerva.
Então existe um mundo assim,
sobre o qual exerce um destino independente?
Tempo, que eu teço com uma corrente de sinais?
Existência que, a meu comando, não terá fim?
A alegria da escrita.
O poder da consolidação.
A Vingança de uma mão mortal.
Tradução de Tiago Halewicz do poema original em polonês Radość Pisania, extraído de Wislawa Szymborska, Sto Pociech (Kraków: Wydawinictwo Literackie, 2007), em Memória Cultural Polonesa, p.p., 86.87, 88, 89., edição em parceria Vidráguas, StudioClio e Rodycz & Ordakowski Editores – 2008.