Clube de leituras

Caras participantes do CLUBE DE LEITURA “Rastros de um livro…”

Com o texto abaixo queremos desejar uma ótima pausa do Clube mas não de leituras, e provocar reflexões sobre o ato de ler de modo coletivo.
Bom verão a todas, Carmen e Berenice!



O SONHO DE BORGES E A MEMÓRIA IMPESSOAL
*Recortes/fragmentos do texto de Paulo M. Ferraz (psicólogo e mestre em psico social) e Edson Luiz de Sousa (psicanalista e professor da UFRGS)
Saibam mais sobre o trabalho do autor:
http://paulofernandomonteiroferraz.blogspot.com/

“ Os livros condensam a herança de nossa espécie, porque alojam em suas páginas os traços da civilização. A leitura enaltece o homem, porque lhe dá um rosto, o diferencia do ordinário – assim o definiu a ética de Aristóteles. Ler e escrever são modos de criar a própria memória.

… a escrita transmite a modulação de uma voz ausente, que sensibiliza, humaniza e nos inspira civilidade, e todos que consagram a vida à escrita intuem isso. Louis Marin (1973), grande estudioso das utopias, afirma que a utopia inicialmente é um livro: “Em efeito, a leitura de um romance, de uma novela, de uma narrativa, mesmo de um conto ou de um mito é a reativação, evocação e a provocação a uma forma de existência particular daquilo que, antes da leitura, é um simples traço morto.

O homem precisa da literatura para se ligar ao insólito, para fazer contato com aquilo que desconhece em seus abismos. As palavras têm o poder de aguçar a sensibilidade, de batizar o que nos acomete sem que o saibamos. Não é à toa que abrimos um livro em busca do que o cotidiano não nos fornece, de respostas para o que julgamos além de nossas possibilidades. O livro guarda em sua etimologia a liberdade. É ele quem nos arranca da inércia; que imprime ao espírito o desejo de prosperar, de se exprimir com a linguagem e com o afeto. Uma sociedade afásica ou ágrafa sucumbiria à barbárie. As palavras deflagram as paixões recônditas que abrasam os seres.

A leitura edifica o caráter, instaura uma ética, lapida a moral e exacerba o que há de melhor em cada um (assim se espera) Não que isso seja a panaceia para os males mundanos. Um poema belamente escrito jamais irá conjurar a miséria que envolve o mundo. Nem mesmo os discursos mais eloquentes, que exaltam o heroísmo e que fazem chamejar no peito dos indivíduos os ideais, são capazes de abrandar a brutalidade e a crueza de algumas existências subjugadas ao limite do sofrimento.

A literatura não evitará que a espada de Dâmocles fique suspensa sobre nossas cabeças, não erradicará a fome, não debelará as enfermidades, não nos tornará mais dignos e nem mais felizes. No entanto, neste mundo em que grassam injustiças e terrores à revelia, em que as pessoas padecem de uma necessidade mórbida de triunfo e de consumo, é ela quem conspira contra a resignação endêmica que nos abate e que atiça nos cidadãos a capacidade reivindicativa e de protesto.

A leitura é um processo ativo de abstração: reescrevemos as obras, misturando-as às idiossincrasias que nos concernem, pois nos identificamos com as personagens e com as alegorias que cada trama agrega em seu núcleo. Além de nossas vidas, precisamos de vidas de celulose, virtuais, em que heróis e vilões têm autorização para desenhar em seus atos o que nos foi privado. Aí se dá um tipo de catarse: a concreção alucinatória dos desejos, posto que nos tornamos vários. O eu, ilusoriamente, se esboroa no processo de ler e o milagre da multiplicação da personalidade, ou melhor, do polimorfismo sexual se dá nas páginas de um romance, de um conto, de uma crônica etc.

Há um quê de arcaico e de metafísico na leitura: a necessidade de domínio. Entre alguns indígenas, pairava a crença de que a ingestão de carne humana povoaria a vacuidade de seus espíritos com os atributos dos bravos guerreiros, mortos em batalhas. Assim como a antropofagia visava se assenhorear da essência mais nobre do outro, a leitura procura enriquecer-nos com ontologias diversas às que subsistem em nós.

Os olhos, ao piscar, mastigam e deglutem as letras e transmitem ao eu a magia do outro, porque a escrita reúne tudo o que somos, e o que a linguagem professa repercute na estrutura que nos rege. A coisa, o real, a utopia, a formulação absoluta para as questões sem respostas são os elementos que nos movem, que nos incitam a caminhar ao encalço do que jamais se terá, mas que, mesmo assim, se ambiciona.

Quem sabe o segredo de tudo não reside nisso: talvez sejamos as sobras do barro do universo criado por Deus e queiramos visitar outras galáxias e desbravar o que nos é obscuro para conhecermos a origem do que esteve sempre em nós: o desejo de ser em outras paragens, no não-lugar, no prometido e tão aclamado Paraíso? Nunca o saberemos, e em razão disso que o ente é, porque busca e rebusca o que crê lhe faltar.

Alguns livros, depois de fechados, se prolongam na consciência; chegamos a recriar de cabeça trechos e circunstâncias contidas ali. Ao imaginário somam-se outros matizes, formas e impressões que fazem a criatividade vicejar. As histórias encontram-se lastreadas com os mesmos embates da humanidade. Amiúde, reconhecemos a nossa própria imagem nas cenas inventadas pelos autores, “porque nós, leitores, como Narciso, gostamos de acreditar que o texto para o qual olhamos nos reflete” (Manguel, 1997). Às vezes, até restituímos o equilíbrio a partir do desenlace de algumas narrativas ficcionais. Eis, então, o que Marcel Proust escreveu: “A verdadeira vida, a vida por fim esclarecida e descoberta, a única vida, portanto, plenamente vivida, é a literatura.”

Untitled Document
Home | PhotoPoemas | Clube de Leituras | Projeto Vidráguas | Publicações | YouTube | Contato

Tivemos 9.981.510 visitas desde 14/01/2009
Todos os direitos reservados. Copyright ©
Analista de Sistemas Rúbia Formigheri

Rua Francisco Ferrer, 441/507.
Rio Branco - Porto Alegre / RS
Telefone (51) 3392 3727