julho 9th, 2009 in Poemas, Versos que Conversam | No Comments »
O DESTINO DO ALVISSAREIRO
O poeta sofre o ridículo
de passear na cidade
com a coroa de louros.
Salve, ‘cantor de multidões’!
Assim o saúda o tolo,
com picardia e desdém.
Amém, ele responde, amém, amém,
desespero impossível,
amor não correspondido,
ainda assim amém,
cruz sobre a terra plantada.
Eis que os ossos são brancos,
eis que são belos também,
eis que este anúncio me mata
e esta dor me confina,
mas ainda que o mundo acabe
esta canção não termina.
Adélia Prado, A Faca no peito, pag.11,Editora Record.
maio 11th, 2009 in Poemas, Versos que Conversam | No Comments »
A FORMALÍSTICA

O poeta cerebral tomou café sem açúcar
e foi pro gabinete concentrar-se.
Seu lápis é um bisturi
que ele afia na pedra,
na pedra calcinada das palavras,
imagem que elegeu porque ama a dificuldade,
o efeito respeitoso que produz
seu trato com o dicionário.
Faz três horas que já estuma as musas.
O dia arde. Seu prepúcio coça.
Daqui a pouco começam fosforescer coisas no mato.
A serva de Deus sai de sua cela à noite
e caminha na estrada,
passeia porque Deus quis passear
e ela caminha.
O jovem poeta,
fedendo a suicídio e glória,
rouba de todos nós e nem assina:
‘Deus é impecável.’
As rãs pularam sobressaltadas
e o pelejador não entende,
quer escrever as coisas com as palavras.
Adélia Prado, A Faca No Peito,, pag.13, editora Record.