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leiam, leiam, relançamento de Que País é Este?

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saibam mais no site do autor:
http://www.affonsoromano.com.br/blog/

pensando a poesia com Affonso Romano de Sant’Anna

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E os poetas escrevem. Como eu, os poetas escrevem.
Torrentes, catadupas de versos
e sinais
sem saber ao certo, onde, como, quem e quando
os poetas escrevem
e entulham as antologias com sua Flor de Romances finados
caindo na vala comum do Cancioneiro Geral
ou nem isso
como índio cantando
a derrocada de sua tribo e sua carne

es asediada, es aborrecida la ciudad de Huexotzinco
con armas fué cercada, com dardos fué punzada Huexotzinco

E assim despejam sobre a história o seu sentido
querendo nela reter-se
E os versos cruzam avenidas e paixões
se inscrevem no telex, banheiro e galpões
retomam com o amor do exílio e caem na marmita operária
e soturnos se mexem
e se agitam nos forros das consciências
como gambás noturnos
– pela morada do ser.

Houve um tempo
em que era fácil fazer poesia:
bastava eleger a forma
e preenchê-la
com mais ou menos habilidades.

Tudo codificado
e empacotado
na acadêmica memória
na audácia vanguardista
nos manifestos-receitas
num mutirão de escola
e assim
o poeta inventa a bossa
a forma
a glosa
moderna e airosa
causando inveja aos demais

Mas ninguém escreve por outro
Cada cabeça uma leitura
cada escrita um estória
cada invenção na sua hora.

– Então poesia é isso?
– Não tem espaço?
e nela o ontem é o hoje e o amanhã já era?

- Então poesia é o não-tempo do verbo?
o futuro do pretérito?
– e o incondicional presente?

- Então é isso a escrita do homem?

Um intervalo entre dois sons?
duas intercomidas fomes?
duas intercaladas falas?
um orgasmo perseguido
entre duas deitadas sombras?

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leiam toda a poesia reflexão
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onde está o Haiti?!

NÃO É TÃO LONGE O HAITI
por Affonso Romano de Sant’Anna

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Essa rebelião no Haiti, a derrubada de Aristides, o país patrulhado por marines americanos, os rebeldes desfilando com metralhadoras em jipes, gente saqueando e celebrando essa rebelião, esse golpe e essa baderna, coincidiram com a leitura que fazia de um livro onde o Haiti é muito citado: História ilustrada da escravidão, de Milton Meltzer(Ediouro).

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É um livro leve, o quanto terrivelmente leve pode ser um livro sobre a escravidão, que começa lembrando que para alguns historiadores a escravidão é um passo a frente no desenvolvimento da civilização, pois houve um tempo de barbárie ainda mais atroz, em que, nas guerras, os prisioneiros eram simplesmente mortos, porque não havia alimentos de caça para todos, enquanto em outro período, já com a agricultura se desenvolvendo, descobriu-se que os vencidos podiam ser utilizados como escravos para ajudar no sustento das tribos e propiciar o ócio aos vencedores.

Leia toda a crônica colada aqui ou no blog do autor:http://www.affonsoromano.com.br/blog/
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VAI, ANO VELHO, VEM ANO ANO

VAI, ANO VELHO

1

Vai, ano velho, vai de vez
vai com tuas dívidas
e dúvidas, vai, dobra a ex-
quina da sorte, e no trinta e um
à meia-noite, esgota o copo
e a culpa do que nem me lembro
e me cravou entre janeiro e dezembro.

Vai, leva tudo: destroços,
ossos, fotos de presidentes,
beijos de atrizes, enchentes,
secas, suspiros, jornais.
Vade retrum , prá trás,
leva pra escuridão
quem me assaltou o carro,,
a casa e o coração.

Não quero te ver mais,
só daqui a anos, nos anais,
nas fotos do nunca-mais.


2

Vem Ano Novo, vem veloz
vem em quadrigas, aladas, antigas
ou jatos de luz, moderna, vem,
paira, desce, habita em nós,
vem com cavalhadas, folias, reisados,
fitas multicores, rebecas,
vem com uva e mel e desperta
em nosso corpo a alegria,
escancara a alma, a poesia,
e, por um instante, estanca
o verso real, perverso
e sacia em nós a fome
-de utopia.

Vem na areia da ampulheta como a
semente que contivesse outra se-
mente que contivesse ou-
tra semente ou pérola
na casca da ostra
como se

se

outra se-

mente pudesse

nascer do corpo e mente

ou do umbigo da gente como o ovo

o Sol da gema no Ano Novo que rompesse

a placenta da noite em viva flor luminescente.

3

Adeus, tristeza: a vida
é uma caixa chinesa
de onde brota a manhã.

Agora
é recomeçar.
A utopia é urgente.

Entre flores de urânio
é permitido sonhar.

Affonso de Romano Sant’Anna
http://www.affonsoromano.com.br/

posteridade

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Ele vão nos achar ridículos, os pósteros.
Nos examinarão
com extrema curiosidade
e um tardio afeto.
Mas vão nos achar ridículos, os pósteros.

Olhado de lá
tudo aqui
será mais claro
para eles
que nos verão
inteiramente diversos
do que somos,
bem mais exóticos
do que somos.

- Como esses primitivos
ousam se chamar de modernos?
Farão simpósios, debaterão
e chegarão a bizarras conclusões.

Assim entraremos para a história deles
como outros para a nossa entraram:
não como o que somos
mas como reflexo de uma reflexão.

Affonso Romano de Sant’Anna, p.18, Intervalo Amoroso, L&PM POCKET

Foto: Ricardo Hegenbart, Londres – 2009