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ARS na maratona cultural de Porto Alegre, aniversário da Cidade

SIGNIFICADOS

Comprava dicionários para compreender-me
como se colhesse os fios de uma rede.
Entre as palavras, no entanto,
a vida vazava como invisível água
enquanto me aumentava a sede.

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Poema: Affonso Romano de Sant’Anna
Fotografia: Ricardo Hegenbart

E é com esta sede infinita, que Affonso Romano de Sant’Anna conVersa, hoje, às 11 h, no Teatro Renascença sobre O Enigma da Cultura Contemporânea, dando início ao projeto 24 HORAS DE CULTURA da Prefeitura de Porto Alegre, em comemoração aos 238 anos da Cidade.

um poema e uma crônica de Pedro Du Bois na semana de Porto Alegre

VIADEIRO BORGES DE MEDUTO

Progresso e oportunidade
novo caminho: centro ao bairro

viaduto de cartão postal
brincadeiras em suas escadarias
(risos na inversão das letras).

Pétrea testemunha
do crescimento imóvel
na passagem das gerações.

Pedro Du Bois em Casa das Pedras.

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CECÍLIAS
por Pedro Du bois

As cecílias fecharam seus cadernos onde registravam, não em forma de diário, mas diariamente, seus poemas. Às cecílias é dado o direito e o poder de registrar poemas, trançando entre todos – se um dia pudessem ser reunidos – o que chamamos de poesia. Mas, na seqüência do que foi escrito, as cecílias haviam fechado seus cadernos, como gesto de abandono ou de desistência. Se as cecílias não mais escrevessem seus poemas e não os deixassem registrados em seus cadernos, a poesia sumiria das nossas vistas e nossas vidas não teriam mais a magia decorrente.

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Vidráguas a Porto Alegre, parabéns


O Mapa

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…

(E nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso…

Mário Quintana

entre duas cidades, Vidráguas na semana de Porto Alegre

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Foto: Ricardo Hegenbart, Detalhe do Centro de Porto Alegre.

Entre duas cidades, nome de uma flor. Pétala indígena enraizada à memória, recorte e nome de rio que banham minhas antigas margens. Sarandi, uma cidade, um tempo de pés descalços, onde os ventos da meninice ainda correm embalados pela voz de muitos recreios.
E intitulado o lugar. Prendo o tempo em minhas mãos e me dirijo ao velho pórtico da cidade.

Entremos!
Lá, na cidade de minha infância, tudo o que for do pé pode ser devorado… bergamotas, jabuticaba, pitanga, ariticum… um vertical mercado hortifrutigrangeiro que envasava nossas veias e tardes de inverno com enormes saladas de frutas ao natural. No verão, havia os sorvetes no Café Central e os famosos beijos frios de D. Vênus. Isto muito antes do esquibon… De lá, também vinham os famosos cigarros mentolados, um desafio ao desejo de imitar os maiores. É! Teve um tempo em que fumar era rito de passagem.

Bem… perdido o momento, colho com meus olhos o pó vermelho da estrada e atravesso a avenida principal para lembrar dos dias em que tudo era barro na rua Expedicionário que nos levava a longas esperas ao redor do fogão à lenha para vestir as congas ainda moles pelo calor da secadora improvisada.

Rio, quando, anos mais tarde, em férias na cidade revejo minhas filhas assustadas com o zunido estranhos dos bichos ao vivo, saídos dos livros diretamente para suas retinas. E rio mais ainda de suas perguntas que me seduziram na crença de entender que bergamota nasce em árvore. Que pomar é uma linda salada de fruta ao relento. Horta, um salpicão multiColorido. Que galinha, porco, cavalo, muito antes de serem refabulados, existiam no cotidiano das crianças. Que o leite, antes das caixinhas, nasciam em tetas de vaca e cabras e que até falar também somos um pouco bicho, olhares tristes a espera de um afago, de uma serventia…

Eh! … melhor retomar a rosa dos ventos… Entremos na praça municipal. Nela, toco o balanço. Sinto a roda próxima do escorregador. Furo o bolo de areia. Escuto a sineta de recolher. Termina o recreio. Em fila tipo gado, começa a inspeção. Uniforme, ok! Distintivo, ok! Livros, Ok! Temas, Ok! OK, Ok, Ok… e aos não Okeis, custariam folhas obsessivas de cópias tipo: devo fazer o tema todos os dias… não devo fazer isso ou aquilo e seguíamos a carga que nos impunham.

Imaginem, receber as notas em caderneta na missa de Domingo!? Só podíamos nos engasgar com a hóstia quando alguém não era chamado, já não bastava o olhar dos professores, adiante estavam os pais balançando os pés e mais adiante ainda uma mão inquisidora junto a todos os olhares. God!!!
Com o tempo surgia os campeonatos de vôlei. As reuniões dançantes, muito movimentadas com o chegar das férias, pelos que regressavam da Capital. Porém, entre tanto provincianismo, era sabido que depois de um nível escolar, deixaríamos o verde olhar para colher outros tempos.

O caminho era a Capital. Portanto, nascer no interior é pedir para nascer, culturalmente, duas vezes. Por que, chega um momento que se tem que escolher outra cidade. Esquecer de alguns cacoetes linguísticos, deixar de ser guri, esticar os carpins até as margens de outro sítio.
E o que era visita à Capital, tornou-se hábito. E a cidade que fora meu tapete, inverteu-se, em meu imaginário o rio passou a ser o Guaíba. As margens aumentaram. As flores se multiplicaram. As frutas ganharam a geladeira. Porém, vieram os recantos dos filmes, os espaços dos livros, o caminhar em muitos parques, o encontro com vários grupos e sarandienses e porto-alegrenses hoje se mesclam em minha memória.

Hoje minha cidade também é um Porto, um dique, um tempo de pés molhados por vários cafés, espaços e o lugar onde minha carne se enraíza junto a outros cantos que alegremente cantam: sou de porto alegre e tchau!

E como todo gaúcho, me digo fronteiriça. Uma corpo em memórias, mestiça entre interior e portos alegres, hoje, sou tipo uma flor vermelho-índigo em busca dos jacarandás, uma gaúcha híbrida de amor por Porto Alegre…

Carmen Silvia Presotto