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de Portugal, seis estrofes em construção



SEIS ESTROFES EM CONSTRUÇÃO

1.

A boca é às vezes o deserto
vem da serra o ar como um clarão matar a sede
às pontas queimadas do silêncio.

2.

Obscuras palavras
que por promessa atravessaram
de corpo mudo a noite.
Luzem.

3.

Uma letra
uma sílaba que lhes falte
e as palavras assim prenhes de mistério
terão na tarde o seu florir.

4.

A solidão procura as árvores longe do mar
a pele seca queimada pelo frio
do vento ninguém saberá domar as vagas.

5.

Ainda do vento:
levou para o exílio as minhas mãos
cartas chegam de lá contando tudo sobre o rapto
foi tudo plano do esquecimento.

6.

Como se chovesse e o entardecer
não soubesse que a noite que vem
não é a que ele esperava.

Poema de António Amaral Tavares

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decantação, um poema de Portugal

DECANTAÇÃO
Poema de António Amaral Tavares
Fotografia de António Torres Sánch



I

Cobrir das algas a nudez
apenas com o mar
é da cidade
este silêncio precário.
O poema procura
a estrutura que o sustém:
ao encontro do rio
desce o monte
o tempo tardo
é no entanto
parco o silêncio para se construir
queima
a mercê da pele aos lagartos de areia
o estoiro dos cem assombros da serra
no meu canto eu não sei bem o que arde
porque o poema é às vezes ordem
ponte pensada
sobre o lodo
desde o banho do amanhecer
à última estrela da tarde.

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SMS de Portugal

SMS



Quando leres esta mensagem
que leves na mão um lápis carvão
para desenhares sombras brancas num planalto de trigo
pois é assim que se inicia o desenho do mundo
que leias esta corda em chamas a que me agarro e vem presa
a uma lua e que me esperes na beira de um rio
que seja como do tempo o cio a líquida mão
quero que acendas essa gema dentro das palavras
e que deixes a porta aberta a uma ave
que chegará junto ao entardecer voando decidida
em direcção à noite dourada
quero que sintas nos lábios o beijo húmido da
manhã para que te lembres do orvalho que se forma
nos meus pulmões ao escrever-te esta mensagem
quando leres esta mensagem quero que saibas
que o mistério das palavras lê-se na génese do mundo
e que escritas assim digitalmente são uma sua forma
de passarem mais perto de deus e que
iluminadas como vão são um anjo forte e puro que nos guarda
quando leres esta mensagem quero que saibas
que nela vão rios vão cordas em chamas e luas e trevas
sombras chuvas e vento lá fora e dedos em lume e que tudo isso
cabe à justa no infinito do teu coração que eu espero
entregues por breves segundos a essa tua pequena
estrela mensageira que trazes na mão.

Poema: António Amaral Tavares
Arte: Tchalé Figueira

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um lugar, um poema de A casa que caminha

UM LUGAR
(para T.)

Marc_Chagall_Blaue_Landschaft

Esse lugar mantém semelhanças
embrulham-se as mãos em
silêncio as palavras voltam
ao alto das serras como
no primeiro minuto da tarde
as pombas volteiam o teu peito
e todo o ar que gira na luz
da tua cintura sopra nos meus
lábios muito depois da noite
se dobrar numa esquina de mágoa
porque se assim não fosse
tudo do que estremecendo se mantém
sob o tecto do teu nome ao acordar
ruiria como uma casa velha por
perder o sentido de nela se morar.

Poema de António Amaral Tavares
Arte de Marc Chagall

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poema, de A casa que caminha

Vento[1]11

POEMA

Correr
à frente da treva
ser do fogo a flor
da luz a poeira
estampa no osso
barca no deserto
e pedra
ser uno com a terra
como a erva
crista de areia
ou espuma
cavalo ou ave.
Era o quê esta
forma em chamas
gelo
mutação
coração
que corria?
Era início de palavra
isso eu sei
mas pouco mais

só o vento
então sabia
só ele agora
a recorda.

Poema de António Amaral Tavares

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