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o erro… do que eu sei

O ERRO

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Do que eu sei
que as palavras não podem
ser a negação de si próprias
porque trazem encravado um espelho
do que eu sei porque acordo
todas as manhãs com uma palavra
afiada encostada ao fígado
do que eu sei porque apanho de manhã
palavras como quem apanha o autocarro
que perfura a pele do dia em direcção
à serra e aos pinheiros que o fogo enegrece
e que tombam como corpos imolados
do que eu sei que os braços da terra são longos
e abraçam esses corpos para os agasalhar
do frio que o fogo gera
do que eu sei porque há um quarto
transparente como vidro nas palavras
que é uma construção do seu imo
e a obscuridade é uma forma de luz
do que eu sei porque as palavras
vão sempre no sentido errado
do sonho para a frente
e da frente para a morte
do que eu sei porque as palavras procuram
sempre a ramada exacta dos triângulos
e a sua exactidão é o seu erro
e por isso vão sempre no caminho errado
do que eu sei o erro esconde-se
no sentido inverso ao do caos

e esse é o erro do poema
não outro sem o sentido de uma luz.

Poema de António Amaral Tavares
Fotografia de Robert Parkeharrison

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http://acasaquecaminha.blogspot.com/

Os crocodilos do rio, poema de Portugal

João de Azevedo

OS CROCODILOS DO RIO

Os crocodilos do rio esperam famintos
a flor branca dos primeiros corpos que se
afundam na água dos próprios olhos
ao queimar do pano da tarde quando
dos cascos já não houver onde a erva verde. A morte

ama estas casas de gesso construídas
sobre a febre o alvoroço do movimento das patas
os registos de viagens remotas
estes gestos de barro tão velhos de
quem sempre atravessou este rio. A morte

insurrecta espalha pétalas muito brancas
sobre as suas águas como outro sinal de si
mas quer para ela toda a luz do breu.
Ah outras sombras que se inclinam
como uma asa e ali se perdem. A morte

ama estas casas turvas de lodo. Os gestos
de barro são da idade do rio
só ela é mais velha ela tem a idade
das primeiras poeiras a morte.

Insaciável desde então.

Poema de António Amaral Tavares
Arte de João de Azevedo

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da lei da vida, um poema de Portugal

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DA LEI DA VIDA

Sombra que fura o peito precário
e floresce na terra arenosa do tronco

por não ter outro lugar onde ser
senão na casa a que enfim chegar

nada existe que me encha a alma de presente
ou ido nada que a memória detenha

pode atravessar essa fina parede de gesso escrita
de um lado apenas se mesmo a alma vai vazia

isso de levar palavras comigo é coisa proibida
e guardar essa flor tão só é ainda querer

olhar caminhar pensar e viver
à margem da lei da vida.

Poema de António Amaral Tavares
Fotografia de Robert Parkeharrison

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os passos, um poema de António Amaral Tavares

*Leiam os Retratos de Nova York aqui e em A casa que caminha:
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OS PASSOS

(Lisette Model. Times Square. 1940)

Nada se sabe dos passos em redor

ocupam espaços que defendem
os silêncios desta cidade.

cidade distante, uma cartografia poética…

Tadeu
(Tadeu)

POEMA DA CIDADE DISTANTE
de António Amaral Tavares

Há um rio que une toda a cidade como um verso friamente queimando a memória
e que une a cidade ao mar como um cordão umbilical de mistério latente
os gatos habituaram-se à luz pontiaguda dos espelhos
e à noite vigiam a morte do cimo dos telhados e das árvores.
É uma das muitas cidades que se descobrem rumo a norte
com janelas iluminadas de quartos devorando a noite por dentro
as ervas parecem gostar deste vento frio que as une mais à terra
abrindo à navalha planaltos no olhar
há dias em que o meu coração tem a forma de uma serpente
e quando é assim as mãos procuram buracos e noites fechadas à chave
vivo assim desde que o medo arrombou portas e janelas como um furacão.

Leia toda a cartografia poética
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