Para ler cliquem e ampliem a imagem, ou leia lá no blog de Luana Neres, autora de nossa arte.
E seguimos com nosso enredo de ler, escrever, compartilhar… nosso segundo webLivro já tem mais de mil leituras, confiram. Bom domingo, boa semana e seguimos…
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guarda-se o que se quer guardar.
as horas sobem apagando estrelas e é
madrugada
nas ruas do céu a luz anda espalhando poemas
na terra uma vela é
extinta a cidade
acorda
com uma canção em sua
boca tendo a morte em seus olhos
e é madrugada
o mundo
continua a assassinar os sonhos. . . .
vejo na rua em que homens
fortes cavam pão
e eu
vejo os rostos brutais das
pessoas contentes horríveis perdidas cruéis
felizes
e é dia,
no espelho
vejo um homem frágil
sonhando
sonhos
sonhos no espelho
e
é crespúsculo na terra
uma vela se acende
e é escuro.
as pessoas estão em casa
o homem frágil está na cama
a cidade
morre com a morte na boca tendo uma canção
nos olhos
as horas descem,
levando à cena estrelas. . . .
na rua do céu a noite anda espalhando poemas
e.e. cummings: “Impression IV” / “Impressão IV” -tradução de Antonio Cícero
O poeta e filósofo Antonio Cícero concedeu uma entrevista inédita ao blog dos Poemas no Ônibus, em que comenta o projeto de levar a poesia para além da página impressa em livro. O autor também comentou sobre as diferenças e aproximações entre poesia de livro e poesia da canção, duas áres em que atua fortemente.
Com certeza, as considerações de Antonio Cícero sobre o gênero são de grande importância para o tema poesia não apenas para o conteúdo desse blog como também para o debate possível acerca da poesia como expressão artística e cultural em nosso país. Antonio Cícero é autor de dois livros de poesia: Guardar (1996) e A cidade e os Livros (2002), e prepara um inédito para lançar ainda este ano. O autor também publicou ensaios de filosofia O Mundo desde o Fim (1991), e Finalidades sem Fim (2005), artigos e ensaios sobre poesia, arte e filosofia, que consta o seu indispensável ensaio em que aponta as diferenças entre poesia e poesia da canção, mencionadas também numa das respostas abaixo.
Cícero também tem robusta produção poética em suas letras de música, que contribui para o entendimento do valor musical e poético do nosso rock Brasil, através da parceria com Marina Lima, sua irmã. Muitos dos sucessos da cantora tem a assinatura da poesia de Antonio Cícero. Artistas como Adriana Calcanhotto, João Bosco, Gilberto Gil, Caetano Veloso (amigo que curiosamente o considera hiperracionalista), entre outros, foram parceiros de Cícero no âmbito da poesia cantada.