O verbo, a cura…
O verbo, a cura
por Abel Sidney
…a palavra também é cura, alguém me disse.
corri, pois, ao dicionário, para desvendar
todos os sentidos que tal verbo possa sustentar.
cura, além de vigário em alguma aldeia, povoado
é processo de tratamento para se apurar
para curtir, secar, enfim, algo melhorar
como tornar, no entanto, uma palavra curativo?
como colocá-la direto sobre a ferida?
eis que naquela madrugada, matutando
ouça uma resposta também em verso
de alguém que tinha noção do que dizia:
à palavra boa não basta estar alinhada
bem vestida, segundo a gramática regular
pois além da fina vestidura a revestir
ou da embalagem com o belo a estampar
há sentimentos que precisam se fazer sentir,
acionado pela vontade de acolher, de servir…
com estes últimos versos ainda vagueando
pus-me a me lembrar dos vínculos que se faz
do verbo em ação, cordial, com o algo mais
que poucos desejam, ousam expressar
lembrei-me de almofada, de cetim, de aconchegar
de ombro amigo, de fino trato, gentileza
mesmo de duras verdades , ditas com jeito
que curam se faladas com delicadeza…
não importará pois discutir ou nos debatermos
nos embaraços em torno da sintomatologia
pois ao conhecido, ao familiar ou amigo
pouco lhe dirá questões de geografia…
próximos ou distantes estejam eles
o certo é que as palavras que correm frouxas,
pelo correio, emeio ou qualquer canal
há de tocá-los, livrando-os de muito mal –
doenças imaginárias ou reais, seja o que for
de coceiras que pó-de-mico mental traz
a preocupações que o verbo amigo desfaz…
assim encerro este poema, conclamando
os amigos que de prosa e verso vissem se expressando:
há feridas a se curar aqui tão perto!
É isso.
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