avatar, s.o.s gaia II em Vidráguas
S.O.S. Gaia II
por Natália Setúbal
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AVATAR é um espetáculo visual belíssimo e envolvente, de tirar o fôlego. James Cameron – que desde Titanic e Alies já provou que é um senhor Diretor – conta agora uma história que se passa no futuro distante (ano 2154), quando um ex-fuzileiro naval paraplégico é enviado a um planeta chamado lua Pandora, de impressionante riqueza e estonteante biodiversidade. Pois esse lugar de flora e fauna exuberantes abriga uma raça humanóide exótica (N’avi) de feições felinas, delgados corpos azuis e cauda longilínea, com língua e culturas diferentes. Evidentemente, é gerado um conflito com os humanos que, gananciosamente, querem explorar as riquezas naturais de Pandora.
O filme de Cameron (sem ou com 3D) nos conduz a um mundo mágico, espetacular, além da imaginação. Trata-se de uma experiência visual indescritível e obrigatória de ser vista na tela, preferencialmente.
Mas esse novo campeão de bilheteria chama a atenção não só pela sua fotografia extraordinária e os efeitos especiais da tecnologia de ponta (devo dizer que sou fã é do cinema europeu, longe dos padrões com megaefeitos).
Avatar me fez a cabeça, me deixou tão impactada, ao ponto de eu me sentir, em plena poltrona da sala de cinema, totalmente borrifada com spray da mais pura e verdejante clorofila que sequer imaginei que existisse.
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Tudo é extraordinário no planeta Pandora. O filme não é um mero entretenimento: é um berro nos nossos ouvidos. Dentre a série de mensagens cifradas, há uma que salta aos olhos: o contundente apelo ecológico que nos inspira a meditar sobre esses tempos de desprezo à Natureza e de invasões bárbaras.
A raça humana desfruta o apogeu do avanço tecnológico (somos só civilização); contudo, nunca dantes fomos tão destrambelhados, predadores, perversos e gananciosos, com o planeta.
Pois não maltratamos Gaia até a Mão-Terra uivar de dor? E depois, com toda a desfaçatez que nos é própria, ousamos até reclamar do castigo divino, o que virou um vício esgotante.
Avatar vai mais longe: além de tecer uma fábula sobre a relação entre o homem e o meio ambiente, resgata valores esquecidos entre nós: respeito às diferenças. E fala também de tolerância, esse minguado produto com tão pouca saída entre nós hoje em dia.
Nesse viés, há um momento dos mais delicados no filme. É quando Neyriti sussurra ao mocinho do filme Jake Sully “Eu vejo você”. Para mim, quis James Cameron significar pelos lábios da exótica princesa de olhos-felinos e madeixas trançadas que só se “vê”, verdadeiramente, com o coração. Como queria Antoine de Saint-Exupéry no seu Pequeno Príncipe. Essa mensagem pode parecer piegas e clichê; contudo, a mesma nunca foi tão atual e oportuna.

O filme causa impacto e sensibiliza porque, se por um lado nos põe cara a cara com nossa quase total falta de conexão com a Natureza e com a nossa própria raça, ao fim e ao cabo remete a uma possibilidade de resgatarmos não só o equilíbrio ecológico, mas ficarmos menos longe de nosso coração selvagem.
Coincidentemente, Avatar chega entre nós em um momento em que estamos tristes e acachapados. E, sobretudo, assustados com a recente tragédia ocasionada pelas chuvas na virada do ano, justo num pedaço de litoral que lembra uma das portas de entrada do Paraíso.
E, sobretudo, porque nem bem se apagaram da nossa memória as cenas do dilúvio universal II, no ano transato, que vitimaram tantas pessoas no vizinho estado de Santa Catarina – tragédia que abalou o país inteiro – agora no acender das luzes de 2010 o palco da tragédia foi montado aqui no quintal do nosso pampa.
Ameaça ao meio ambiente e as tragédias que vêm com ela, são sempre lamentáveis e acachapantes. E nos deixam sobressaltados e comovidos.
Que é preciso socorrer Gaia ninguém duvida mais. Mas há de ser urgente, urgentíssimo. Com a pressa de quem vai tirar mãe, pai e a família inteira da forca: há um alerta intermitente piscando – e não é de hoje – no painel do meio ambiente do Planeta.
Ou vamos ficar todos – eu me incluo no pacote – praticamente de braços cruzados, só separando o nosso lixo pessoal pra ver reciclado e permitir que a luz vermelha do painel de Gaia acenda irremediavelmente?
*Natália Setúbal é advogada, especializanda em Direitos Fundamentais e do Consumidor. Também é ecologista e amante de cinema e literatura. Entre uma petição inicial e um recurso – e quando a inspiração bate à sua porta – deu pra cronicar, ultimamente.





