fevereiro 25th, 2010 in Poemas, Receitas de Poetas, Versos que Conversam | No Comments »

Solombra
Falo de ti como se um morto apaixonado
falasse ainda em seu amor, sobre a fronteira
onde as coroas desta vida se desmontam.
Sem nada ver, sigo por mapas de esperança:
vento sem braços, vou sonhando encontros certos;
água caída, penso-me em cristal segura.
Ah, meus caminhos, ah, meu rosto, audaz e grave!
O claro sol, as altas sombras, a onda inquieta
e o vasto olhar das grandes noites acordadas!
E abre-se o mundo por mil portas simultâneas.
Quem aparece? E outras mil portas sobre o mundo
se fecham. Tudo se revela tão perene
que eu é que sou translúcida morta.
Poema de Cecília Meireles, Antologia Poética, Inéditos, p.297, Editora Nova Fronteira.
* Tela: “O homem de sete cores, 1915-16, Anita Malfatti”, 2008,http://www.galerialeme.com/
novembro 10th, 2009 in Poemas, Versos que Conversam, Videos | No Comments »
Video: Nick Knight – www.showstudio.com
I
a Cecília Meireles
Tuas memórias
vibram em cada pétala
que feito um dedo em flor
me pincela espinhos
Em tuas teias
aquarelas
cristalina e sonoras
ramo de rosa poética
me emolduro
e por desfolhar-me é que não tenho fim...
II
Enquanto na janela voam neurônios
nas folhas, feito persiana de rua
tudo em nada me esvazia
amanhece
entardece
anoiteço
meus olhos engolem o pólen da primavera
e enverdeço a sombra do tempo…
Carmen Silvia Presotto
setembro 29th, 2009 in Poemas, Versos que Conversam | No Comments »
REINVENÇÃO
A vida só é possível
reinventada.
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas…
Ah! tudo bolhas
que vêm de fundas piscinas
de ilusionismo… — mais nada.
Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcanço…
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Cecília Meireles
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junho 28th, 2009 in Poemas, Versos que Conversam | No Comments »
Nadador
O que me encanta é a linha alada
das tuas espáduas, e a curva
que descreves, pássaro da água!
É a tua fina, ágil, cintura,
e esse adeus da tua garganta
para cemitérios de espuma!
É a despedida, que me encanta,
quando te desprendes ao vento,
fiel à queda, rápida e branda.
E apenas por estar prevendo,
longe, na eternidade da água,
sobreviver teu movimento…
Cecília Meireles, Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século, pag. 137, Seleção: Italo Moriconi, Editora Objetiva.