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pensando a Poesia de Cecília Meireles com Dileta Silveira Martins

PENSANDO A POESIA DOS DOZE NOTURNOS DA HOLANDA DE CECÍLIA MEIRELES COM DILETA SILVEIRA MARTINS

doze noturnos de holanda_Cecília Meireles

Interpretar é desvelar uma significância possível no texto dito poético. Nisso reside a sensibilidade do analista de extrair de um tipo particular de discurso – o poema – o conteúdo do ato criador e a reelaboração do processo linguístico, através de possibilidades múltiplas, consubstanciadas no próprio poema.

No poema Doze Noturnos da Holanda pressente-se, pela leitura global, que o título está ligado a uma visão panorâmica das noites insones, vivenciadas pela poeta, no país dos moinhos, dos diques e dos canais através de evocações, lirismo e musicalidade.

O conjunto poemático abre-se para uma significância que se cristaliza no título: Doze Noturnos, ou seja, as noites versificadas em doze composiçoes poéticas. Associa-se a isso a leveza polifônica dos versos como metáforas de vida e morte, debuxados em construções musicais de caráter evocativo e revelador: noturnos. Nos poemas Doze Noturnos da Holanda apreende-se, no encadeamento sêmico a consciência da fluidez do tempo, desvelada criativamente, numa relaçao nostálgica entre o humano e o temporal, expressa na universalidade e na condição efêmera da vida.

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já se ouve cantar o negro, Versos Cecílicos…

Romance VII ou Do Negro Nas Catas
sebastiao-salgado-2

Já se ouve cantar o negro,
mas inda vem longe o dia.
Será pela estrela d’alva,
com seus raios de alegria?
Será por algum diamante
a arder, na aurora tão fria?

Já se ouve cantar o negro,
pela agreste imensidão.
Seus donos estão dormindo:
quem sabe o que sonharão!
Mas os feitores espiam,
de olhos pregados no chão.

Já se ouve cantar o negro.
Que saudade, pela serra!
Os corpos, naquelas águas,
- as almas, por longe terra.
Em cada vida de escravo,
que surda, perdida guerra!

Já se ouve cantar o negro.
Por onde se encontrarão
essas estrelas sem jaça
que livram da escravidão,
pedras que, melhor que os homens,
trazem luz no coração?

Já se ouve cantar o negro.
Chora neblina, a alvorada.
Pedra miúda não vale:
liberdade é pedra grada…
(A terra toda mexida,
a água toda revirada…

Deus do céu, como é possível
penar tanto e não ter nada!)

Poema de Ceccília Meireles, p.p. 175 e 176, Romanceiro da Inconfidencia,Cecília Meireles Antologia Poética, Nova
Fronteira.

Fotografia: Sebastião Salgado

solombra(s) de Cecília Meireles

102_2003

Solombra

Falo de ti como se um morto apaixonado
falasse ainda em seu amor, sobre a fronteira
onde as coroas desta vida se desmontam.

Sem nada ver, sigo por mapas de esperança:
vento sem braços, vou sonhando encontros certos;
água caída, penso-me em cristal segura.

Ah, meus caminhos, ah, meu rosto, audaz e grave!
O claro sol, as altas sombras, a onda inquieta
e o vasto olhar das grandes noites acordadas!

E abre-se o mundo por mil portas simultâneas.
Quem aparece? E outras mil portas sobre o mundo
se fecham. Tudo se revela tão perene

que eu é que sou translúcida morta.

Poema de Cecília Meireles, Antologia Poética, Inéditos, p.297, Editora Nova Fronteira.

* Tela: “O homem de sete cores, 1915-16, Anita Malfatti”, 2008,http://www.galerialeme.com/

retrato, um poema de Cecília Meireles

e por desfolhar-me é que não tenho fim


Video: Nick Knight – www.showstudio.com


I

a Cecília Meireles

Tuas memórias
vibram em cada pétala
que feito um dedo em flor
me pincela espinhos

Em tuas teias
aquarelas
cristalina e sonoras
ramo de rosa poética
me emolduro

e por desfolhar-me é que não tenho fim...

II

Enquanto na janela voam neurônios
nas folhas, feito persiana de rua
tudo em nada me esvazia

amanhece
entardece
anoiteço

meus olhos engolem o pólen da primavera
e enverdeço a sombra do tempo…

Carmen Silvia Presotto