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solombra(s) de Cecília Meireles

102_2003

Solombra

Falo de ti como se um morto apaixonado
falasse ainda em seu amor, sobre a fronteira
onde as coroas desta vida se desmontam.

Sem nada ver, sigo por mapas de esperança:
vento sem braços, vou sonhando encontros certos;
água caída, penso-me em cristal segura.

Ah, meus caminhos, ah, meu rosto, audaz e grave!
O claro sol, as altas sombras, a onda inquieta
e o vasto olhar das grandes noites acordadas!

E abre-se o mundo por mil portas simultâneas.
Quem aparece? E outras mil portas sobre o mundo
se fecham. Tudo se revela tão perene

que eu é que sou translúcida morta.

Poema de Cecília Meireles, Antologia Poética, Inéditos, p.297, Editora Nova Fronteira.

* Tela: “O homem de sete cores, 1915-16, Anita Malfatti”, 2008,http://www.galerialeme.com/

retrato, um poema de Cecília Meireles

e por desfolhar-me é que não tenho fim


Video: Nick Knight – www.showstudio.com


I

a Cecília Meireles

Tuas memórias
vibram em cada pétala
que feito um dedo em flor
me pincela espinhos

Em tuas teias
aquarelas
cristalina e sonoras
ramo de rosa poética
me emolduro

e por desfolhar-me é que não tenho fim...

II

Enquanto na janela voam neurônios
nas folhas, feito persiana de rua
tudo em nada me esvazia

amanhece
entardece
anoiteço

meus olhos engolem o pólen da primavera
e enverdeço a sombra do tempo…

Carmen Silvia Presotto

viajando com Cecília…

REINVENÇÃO

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas…
Ah! tudo bolhas
que vêm de fundas piscinas
de ilusionismo… — mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço…
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.

Só — na treva,
fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Cecília Meireles
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nadador

Nadador

O que me encanta é a linha alada
das tuas espáduas, e a curva
que descreves, pássaro da água!

É a tua fina, ágil, cintura,
e esse adeus da tua garganta
para cemitérios de espuma!

É a despedida, que me encanta,
quando te desprendes ao vento,
fiel à queda, rápida e branda.

E apenas por estar prevendo,
longe, na eternidade da água,
sobreviver teu movimento…

Cecília Meireles, Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século, pag. 137, Seleção: Italo Moriconi, Editora Objetiva.