dezembro 8th, 2010 in Poemas, Receitas de Poetas, Versos que Conversam | No Comments »

Canção
Era um rosto
na noite larga
de alta insônia
iluminada.
Seria um dia
vago retrato
de quem se diga
“o antepassado”.
Era um poema
cujas palavras
cresciam dentre
mistério e lágrimas.
Serão silêncio,
tempo sem rastro,
de esquecimentos
atravessado.
Disso é que sofre
a amargurada
flor da memória
que ao vento fala.
Cecília Meireles, p.112, Antologia Poética, Editora Nova Fronteira.
setembro 23rd, 2010 in Crônicas, Foto do Dia, Receitas Vidráguas, Versos que Conversam | 2 Comments »
Primavera
por Cecília Meireles

Fotografia:RuiS
A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.
Leia todo o recorte
Read more »
julho 6th, 2010 in conversando sobre literatura, Receitas Vidráguas, Versos que Conversam | No Comments »
PENSANDO A POESIA DOS DOZE NOTURNOS DA HOLANDA DE CECÍLIA MEIRELES COM DILETA SILVEIRA MARTINS
Interpretar é desvelar uma significância possível no texto dito poético. Nisso reside a sensibilidade do analista de extrair de um tipo particular de discurso – o poema – o conteúdo do ato criador e a reelaboração do processo linguístico, através de possibilidades múltiplas, consubstanciadas no próprio poema.
No poema Doze Noturnos da Holanda pressente-se, pela leitura global, que o título está ligado a uma visão panorâmica das noites insones, vivenciadas pela poeta, no país dos moinhos, dos diques e dos canais através de evocações, lirismo e musicalidade.
O conjunto poemático abre-se para uma significância que se cristaliza no título: Doze Noturnos, ou seja, as noites versificadas em doze composiçoes poéticas. Associa-se a isso a leveza polifônica dos versos como metáforas de vida e morte, debuxados em construções musicais de caráter evocativo e revelador: noturnos. Nos poemas Doze Noturnos da Holanda apreende-se, no encadeamento sêmico a consciência da fluidez do tempo, desvelada criativamente, numa relaçao nostálgica entre o humano e o temporal, expressa na universalidade e na condição efêmera da vida.
Leia todo o recorte
Read more »
maio 13th, 2010 in Foto do Dia, Poemas, Versos que Conversam | No Comments »
Romance VII ou Do Negro Nas Catas

Já se ouve cantar o negro,
mas inda vem longe o dia.
Será pela estrela d’alva,
com seus raios de alegria?
Será por algum diamante
a arder, na aurora tão fria?
Já se ouve cantar o negro,
pela agreste imensidão.
Seus donos estão dormindo:
quem sabe o que sonharão!
Mas os feitores espiam,
de olhos pregados no chão.
Já se ouve cantar o negro.
Que saudade, pela serra!
Os corpos, naquelas águas,
- as almas, por longe terra.
Em cada vida de escravo,
que surda, perdida guerra!
Já se ouve cantar o negro.
Por onde se encontrarão
essas estrelas sem jaça
que livram da escravidão,
pedras que, melhor que os homens,
trazem luz no coração?
Já se ouve cantar o negro.
Chora neblina, a alvorada.
Pedra miúda não vale:
liberdade é pedra grada…
(A terra toda mexida,
a água toda revirada…
Deus do céu, como é possível
penar tanto e não ter nada!)
Poema de Ceccília Meireles, p.p. 175 e 176, Romanceiro da Inconfidencia,Cecília Meireles Antologia Poética, Nova
Fronteira.
Fotografia: Sebastião Salgado
fevereiro 25th, 2010 in Poemas, Receitas de Poetas, Versos que Conversam | No Comments »

Solombra
Falo de ti como se um morto apaixonado
falasse ainda em seu amor, sobre a fronteira
onde as coroas desta vida se desmontam.
Sem nada ver, sigo por mapas de esperança:
vento sem braços, vou sonhando encontros certos;
água caída, penso-me em cristal segura.
Ah, meus caminhos, ah, meu rosto, audaz e grave!
O claro sol, as altas sombras, a onda inquieta
e o vasto olhar das grandes noites acordadas!
E abre-se o mundo por mil portas simultâneas.
Quem aparece? E outras mil portas sobre o mundo
se fecham. Tudo se revela tão perene
que eu é que sou translúcida morta.
Poema de Cecília Meireles, Antologia Poética, Inéditos, p.297, Editora Nova Fronteira.
* Tela: “O homem de sete cores, 1915-16, Anita Malfatti”, 2008,http://www.galerialeme.com/