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uma canção de Cecília Meireles



Canção

Era um rosto
na noite larga
de alta insônia
iluminada.

Seria um dia
vago retrato
de quem se diga
“o antepassado”.

Era um poema
cujas palavras
cresciam dentre
mistério e lágrimas.

Serão silêncio,
tempo sem rastro,
de esquecimentos
atravessado.

Disso é que sofre
a amargurada
flor da memória
que ao vento fala.

Cecília Meireles, p.112, Antologia Poética, Editora Nova Fronteira.

a primavera chegará, mesmo que ninguém saiba seu nome

Primavera
por Cecília Meireles

prima11
Fotografia:RuiS

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

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pensando a Poesia de Cecília Meireles com Dileta Silveira Martins

PENSANDO A POESIA DOS DOZE NOTURNOS DA HOLANDA DE CECÍLIA MEIRELES COM DILETA SILVEIRA MARTINS

Interpretar é desvelar uma significância possível no texto dito poético. Nisso reside a sensibilidade do analista de extrair de um tipo particular de discurso – o poema – o conteúdo do ato criador e a reelaboração do processo linguístico, através de possibilidades múltiplas, consubstanciadas no próprio poema.

No poema Doze Noturnos da Holanda pressente-se, pela leitura global, que o título está ligado a uma visão panorâmica das noites insones, vivenciadas pela poeta, no país dos moinhos, dos diques e dos canais através de evocações, lirismo e musicalidade.

O conjunto poemático abre-se para uma significância que se cristaliza no título: Doze Noturnos, ou seja, as noites versificadas em doze composiçoes poéticas. Associa-se a isso a leveza polifônica dos versos como metáforas de vida e morte, debuxados em construções musicais de caráter evocativo e revelador: noturnos. Nos poemas Doze Noturnos da Holanda apreende-se, no encadeamento sêmico a consciência da fluidez do tempo, desvelada criativamente, numa relaçao nostálgica entre o humano e o temporal, expressa na universalidade e na condição efêmera da vida.

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já se ouve cantar o negro, Versos Cecílicos…

Romance VII ou Do Negro Nas Catas

sebastiao-salgado

Já se ouve cantar o negro,
mas inda vem longe o dia.
Será pela estrela d’alva,
com seus raios de alegria?
Será por algum diamante
a arder, na aurora tão fria?

Já se ouve cantar o negro,
pela agreste imensidão.
Seus donos estão dormindo:
quem sabe o que sonharão!
Mas os feitores espiam,
de olhos pregados no chão.

Já se ouve cantar o negro.
Que saudade, pela serra!
Os corpos, naquelas águas,
- as almas, por longe terra.
Em cada vida de escravo,
que surda, perdida guerra!

Já se ouve cantar o negro.
Por onde se encontrarão
essas estrelas sem jaça
que livram da escravidão,
pedras que, melhor que os homens,
trazem luz no coração?

Já se ouve cantar o negro.
Chora neblina, a alvorada.
Pedra miúda não vale:
liberdade é pedra grada…
(A terra toda mexida,
a água toda revirada…

Deus do céu, como é possível
penar tanto e não ter nada!)

Poema de Ceccília Meireles, p.p. 175 e 176, Romanceiro da Inconfidencia,Cecília Meireles Antologia Poética, Nova
Fronteira.

Fotografia: Sebastião Salgado

solombra(s) de Cecília Meireles

102_2003

Solombra

Falo de ti como se um morto apaixonado
falasse ainda em seu amor, sobre a fronteira
onde as coroas desta vida se desmontam.

Sem nada ver, sigo por mapas de esperança:
vento sem braços, vou sonhando encontros certos;
água caída, penso-me em cristal segura.

Ah, meus caminhos, ah, meu rosto, audaz e grave!
O claro sol, as altas sombras, a onda inquieta
e o vasto olhar das grandes noites acordadas!

E abre-se o mundo por mil portas simultâneas.
Quem aparece? E outras mil portas sobre o mundo
se fecham. Tudo se revela tão perene

que eu é que sou translúcida morta.

Poema de Cecília Meireles, Antologia Poética, Inéditos, p.297, Editora Nova Fronteira.

* Tela: “O homem de sete cores, 1915-16, Anita Malfatti”, 2008,http://www.galerialeme.com/