Currently browsing Eugênia Fraietta

tranças poéticas, ao dia da mulher Vidráguas…

Psiu, Amigos!

Sigamos versando juntos para que o Dia da Mulher seja um dia de sempres, tipo uma trança de Evas e Adões a mais Poesia… Hoje, em Vidráguas selamos a criação, respeitando o estilo de quem conosco segue conVersando, assim brindamos, ampliamos, selamos e iniciamos um Bonde Chamado Poesia a todos os gêneros que dela renascem, que sigam, prossigam e que venham mais versos…

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*FotoColagem de Ricardo Hegenbart sobre vídeo arte

Eu fui…
por Carmen Silvia Presotto

um tempo
entrecortado na névoa
pontos
lápide
e servidão

Eu fui…
meu próprio vagão
lúgubre espaço
por onde um lenço branco
gritava a Deus

Eu fui…
a onda
que sorveu a seca face de Netuno

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* Sapho


A outra,
não, não fui eu
ela é a vida
que escorre em minhas mãos

A outra,
não, não sou eu
ela é o cristal
que agora me enfeita os pulsos

Da outra,
sou essa penumbra
franja
nas janelas dos dias

Vinho de sua taça,
sou este sorvete de Evas…

Cecilia+Meireles
*Cecília Meireles

Eu fui…
por Berenice Sica Lamas

a trança de Penélope
volúvel
ninfa
veludo estelar

eu fui…
olho de furacão
ametista
total


* Wislawa Szimborka

Da outra,
sou este derretimento
lambuzado
que lampeja
plurais

sou a algema
cravejada
que adocica
pulsares… da outra

Serrilha
por Américo Conte


* Hilda Hilst

Se fui, não sei, eu sou
Aquela que no Olimpo mantém o seu brilho
Na árdua e invisível labuta diária
Das colchas engomadas e dos lençóis azuis
Dos pisos espelhados que refletem as almas rotas.

Eu sou, será que fui?
Aquela que nutre os estômagos famintos
Na interminável confecção alimentar
Dos aromáticos e deliciosos temperos
Combustível do vigor e da força moral.

E seria, e serei, sereia
Carente de afeto, sonhos e ilusões
Fantasiando castelos, príncipes e princípios
Alinhavando em estampas as esperanças
De que um dia quem sabe enfim sei quem sou!

Elo suave
por Ivan Bueno


* Henriqueta Lisboa

Marcha desenfreada
Sucumbindo à dor
A dar à luz do mundo
Novo ser
Novos seres
E alimentar, cuidar
Fortaleza delicada
Delicadeza intensa
Sexo forte
Norte, diretriz
Ai de quem te chamou meretriz!
Contrapõe-se à morte
Sendo criadora
Conjunta, par
Complemento humano
Ser divino
És mantenedora e suporte
Do feto, do afeto
De doce embalar
Elo delicado da vida
Elo suave,
Flexível, por isso forte
Delicado, dedicado
Alado, aliado
Sofrimento nem sempre reconhecido
Da dedicação superior
Quem há de contrapor
Ou questionar teu poder,
Tua beleza, teu amor,
Mulher.


* Sylvia Plath

SABORES
por Ivan Bueno

Quando em teus cabelos mergulho,
Faço com orgulho.
Ouço-te como a mais bela música,
Encanto, belo pranto

De sentimentos que fazes aflorar,
Fazes-me chorar
Ao ver-me tão teu: criado, criatura,
Resultado, emoção.

Co-partícipe da chama primeira,
Paro por ali: terreno teu.
Quando em ti penetro, no escuro,
Mergulho no paraíso.

É como entrar em santuário
Prazer, amor, criação, vulcão, erupção.
És energia primordial:
Mulher, beleza, serena força helena…

De origens que tens e dás,
Sereno ser, elo forte da vida, do mundo
De eterno admirar, querer,
Vislumbre de beleza eterna: mulher.


* Sophia de Mello Breyner Andresen

EU SOU A MULHER
por António Amaral Tavares

Eu sou a mulher que caminha lado
a lado com esta outra mulher

eu sou a mulher que lava
com afinco as escadas dos dias

a mulher que se ausenta
para longe do espelho recto que lavou

eu sou a mulher que traz nas mãos
as sombras que apanha do chão

a mulher grave que traz pela mão os filhos
e a meu lado a outra mulher que sorri

sou a mulher que olha em volta e ninguém vê
e por ninguém ver se encosta de pé ao cansaço

a mulher que solta à noite os cabelos
como se abrisse um livro só seu assim

e essa outra que neles lê histórias de mar e vento
que frisa e guarda em tranças longas de silêncio

eu sou a mulher que acorda de manhã
com um travo de galho verde na boca

e se lava como quem abre uma porta ao amor
ou a um pingo de luz na janela suspenso

eu sou a mulher que leva
pela mão outra mulher

a mulher que se penteia ao espelho
como uma vara de prumo o coração das mãos ao centro

aquela que olha para o lado e vê essa mulher
e com ela caminha pelo dia adentro.


* Olga Orosco
A outra
por Gerci Oliveira Godoy

Às vezes penso que
esta teima em dar voz ao verso
sem rima certa
a juntar letras, sem saber porque
talvez seja outra, não eu
pois sou aquela que esqueceu o tempo
que fez da vida valsa
num rodar sem fim
dorme acordada em voo
e ao cair é pena
sem lei nem rei
é dó menor
sem pauta
mulher

Florbela Espanca2
* Florbela Espanca

Interlúdio
por Gerci Oliveira Godoy

De todo meu possível não sou quase nada
Se coisas eu pensei, já nem sei porque
Se a porta estava aberta, agora está fechada
Meu horizonte já não é mais meu
cansei de olhar o céu em busca de consolo
Nem quero ser presente em sonho teu
Deixa que passe o tempo como rio ruidoso
limpando cada pedra no seu mesmo andar
que pelas margens verdes pássaros se aninhem
A terra que germine outro caminhar
Sou casa ensombrada, lâmpada queimada
sou vela que ilumina a poesia agora
sou alma de poeta e sofro, sou mulher.



* Cora Coralina
MULHER: o que mudou?
por Tânia Du Bois


Gosto do poema de Cora Coralina: “Muitas vezes, basta ser colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia…”

Podemos não perceber, mas a lembrança está em nós, está conosco o tempo todo, e não por acaso; está ali, pronta para saltar a qualquer hora do dia.

Quando confio na memória, pergunto-me o que mudou em relação à mulher neste mundo moderno. Nem preciso olhar para trás, a iniciativa de estampar as lembranças explica os versos que carregam brilhos nas nossas vidas. E, quando acredito com o coração naquilo que me proponho a fazer, entendo que cada movimento é o caminho da verdade. Percebo que o pensamento é importante porque dividir, contar e ouvir é aprender sempre. Até porque a mulher tem algo a mais: o jeito diferente de olhar e fazer as coisas; ela coloca graça e emoção no que realiza; é firme, mas também age com o coração. Ela é o resultado do contato com a realidade, sem tantas fantasias, mas é fundamental continuar sonhando.

As lembranças das mudanças impõem, às vezes, coragem e respeito, trazendo benefícios e palavras inspiradoras para enfrentar qualquer tipo de crise ou mudança. Não basta sonhar, é preciso ter clareza do que desejamos e entendimento do que lembramos.

Quando o objetivo é a construção de um mundo mais fraterno, no qual os direitos humanos sejam respeitados, devemos lutar e lembrar para preservar a história de cada mulher. Pois, um país sem lembranças, sem memória, é um país sem história e sem sorrisos.

O grande segredo é transformar sonhos, lembranças e memórias em resultados palpáveis, identificando prioridades; a primeira delas é sobreviver. Cristina Buarque, disse que “Não precisamos de políticas públicas para as mulheres, e sim de políticas públicas feitas por mulheres…”

Admito que nem sempre é fácil transmitir os nossos conhecimentos diante de um novo contexto, a mulher precisa acreditar e se reconhecer na mudança. Juntar as duas coisas, opinar, unir o compromisso com o idealismo, sem perder de vista as lembranças, procurar espaço para a emoção e a ação, agir com o coração, unindo ao universo masculino a sensibilidade do mundo feminino.

Às vezes, sentimo-nos corajosas, dispostas a agir. Noutras, queremos dar carinho, aquietar ou pedir colo. O que mudou?

Foto Ana Cristina Cesar
* Ana Cristina Cesar

EU
por Eugênia Fraietta

eu sempre acabo de nascer: – é uma menina!
o que virá a ser eu? o que virei a ser sendo ela?
por que desconfio de sê-lo?
por que piso em ovos?
por que me abro em vieses?
ainda me pergunto se faço gênero.

* Ilustrações das Poetas, internet.

onde diabos eu…

ONDE DIABOS EU

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onde diabos eu me meti
desde que você partiu?

entro em casa e vasculho onde estou,
devo estar escondida em algum lugar
dos meus cantos, dos meus guardados.

mas, amiúde, dou de cara com você ausente,
enquanto eu continuo perdida.

Poema de Eugênia Fraietta em: http://acasaquecaminha.blogspot.com/
(Ver mais poesia sua em http://bichodesetecabecas-ge.blogspot.com)

mísero corpo, um poema de Eugênia Fraietta

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Mísero Corpo

quando o desejo desabitou o outro,
enquanto ainda finca estacas no teu corpo.

Eugênia Fraietta

Leia mais poemas no blog da autora:

http://www.bichodesetecabecas-ge.blogspot.com/

*Arte de Tarsila do Amaral